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Quando a imaginação vira gesto: a educadora que ensina crianças a não normalizar a destruição

Escrito por Neo Mondo | 22 de junho de 2026

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Imaginação em capa: O pequeno mundo criativo, de Silmara Rascalha Casadei, com ilustrações de Ricardo Girotto - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Existe um fenômeno silencioso que os cientistas do comportamento ambiental chamam de linha de base em deslocamento: cada geração toma como referência de "natureza normal" o ambiente que encontrou ao nascer, e assim vai aceitando, sem perceber, sucessivas camadas de degradação. A criança que cresceu sem ver rios limpos não sente falta de rios limpos. A que nunca conheceu uma rua arborizada não reconhece a ausência de sombra como perda. O dano se acumula, mas a memória coletiva se recalibra para baixo, silenciosamente, a cada nova geração.

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É exatamente esse mecanismo que Alfredo Pena-Vega, pesquisador franco-brasileiro e um dos nomes centrais da socioecologia contemporânea, nomeia como "amnésia geracional ambiental" no prefácio que assina em *O pequeno mundo criativo*, livro recém-lançado pela educadora e psicanalista Silmara Rascalha Casadei. Para Pena-Vega, diretor do Pacto Global de Jovens pelo Clima e pesquisador do Centre Edgar Morin na EHESS/CNRS, em Paris, o problema não é apenas ecológico; é cognitivo e ético. A normalização progressiva do dano embota a capacidade de indignação antes mesmo que ela se forme.

Situar um livro infantil dentro dessa moldura conceitual é uma escolha de peso. E é justamente o que torna *O pequeno mundo criativo* uma obra que extrapola o mercado editorial para o qual foi concebida.

Casadei não chegou até aqui por acidente. Mestre e doutora em Educação pela PUC-SP, autora de mais de trinta livros infanto-juvenis, membro da Academia de Letras da Grande São Paulo e condecorada com o Colar do Centenário pelo Instituto Histórico e Geográfico do Estado de São Paulo, ela construiu ao longo de décadas uma produção que parte de uma premissa pedagógica firme: a leitura não é suplemento da formação, é o próprio processo formativo. Em entrevista à CNN Brasil, em março de 2026, a autora citou pesquisas de Harvard para afirmar que o bem-estar não vem dos sete segundos médios de atenção que as pessoas dedicam a uma publicação nas redes, mas do mergulho sustentado em boas histórias. Não é uma romantização da literatura. É uma tese sobre atenção, autonomia e repertório.

Em *O pequeno mundo criativo*, a tese ganha corpo narrativo. A história se passa em um reinado onde a escassez força os habitantes a reaprender a viver: objetos descartados ganham nova função, o plantio se torna rotina, espaços comuns são adaptados coletivamente. O "Decreto do Pequeno Mundo Criativo" organiza o giro em torno de seis verbos: respeitar, repensar, reutilizar, reciclar, reduzir e plantar. Não é um manual. É uma gramática de atitudes narrada com linguagem poética e ritmada, próxima ao cotidiano infantil, sem o peso doutrinário que frequentemente sufoca a literatura de temática ambiental voltada às crianças.

*Tempos depois naquele reinado, com tudo transformado, aprenderam a circular. Olharam o que estava difícil, enxergaram o que era possível, voltaram a se alegrar!*

A passagem, que integra a página 28 do livro, sintetiza o que Casadei persegue como escritora e como educadora: a ideia de que a percepção do que é possível precede qualquer transformação prática. Antes de agir, é necessário ver. E ver, no caso de crianças cujo ambiente de referência já é um ambiente degradado, exige que alguém quebre a moldura do que parece normal.

As ilustrações de Ricardo Girotto, premiado por seu trabalho em *Castelo Rá-Tim-Bum*, cumprem uma função que vai além do adorno. Cada cena explora o reaproveitamento e a transformação de materiais como gesto criativo, não como sacrifício. O brincar fora das telas, o fazer manual, a imaginação mobilizada para resolver problemas concretos aparecem como práticas acessíveis e carregadas de sentido estético. Em um contexto em que pesquisas sobre o desenvolvimento infantil apontam para os efeitos do excesso de tempo de tela sobre a atenção e a criatividade, a escolha temática não é nostálgica; é clinicamente informada.

A articulação entre literatura infantil e formação ambiental crítica tem sido objeto crescente de investigação acadêmica no Brasil. Estudo publicado na *Revista Brasileira de Educação Ambiental* em 2020 demonstrou que a literatura, quando articulada a práticas de contação de histórias, amplia a capacidade de crianças na primeira infância de estabelecer vínculos éticos com o entorno. Pesquisa da Universidade Estadual Paulista, publicada na revista *Docent Discunt* em 2025, mostrou que obras de ficção infantil ancoradas em pedagogias críticas — como a freireana — apresentam potencial mensurável para estimular o pensamento reflexivo sobre questões ambientais em crianças de cinco a dez anos. O que a literatura acadêmica descreve como hipótese pedagógica, Casadei pratica há décadas como ofício.

O que distingue *O pequeno mundo criativo* de uma parcela considerável da produção editorial voltada à sustentabilidade para crianças é, precisamente, a recusa do didatismo. A história não instrui; ela propõe um mundo onde certas práticas fazem sentido dentro de uma lógica narrativa coerente. A criança não é tratada como receptora de mensagens ambientais, mas como habitante de um universo onde o cuidado com o coletivo emerge como consequência natural da convivência. Essa distinção é pedagógica antes de ser literária: quem aprende por imersão aprende diferente de quem aprende por instrução.

Há uma dimensão política nessa escolha que merece ser nomeada. Em um país onde o debate ambiental oscila entre a urgência das crises climáticas e o recuo das políticas públicas de proteção, a formação de leitores capazes de observar, questionar e agir sobre a realidade em que vivem não é projeto exclusivamente educacional. É, também, uma aposta na reposição de uma capacidade coletiva de indignação que a amnésia geracional vai corroendo, geração após geração, década após década. A infância como ponto de partida não é escolha arbitrária. É reconhecimento de que o que se aprende antes de aprender a fingir que sabe tende a durar.

foto de silmara casadei, remete a matéria Quando a imaginação vira gesto: a educadora que ensina crianças a não normalizar a destruição
Silmara Casadei - Foto: Divulgação


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