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Escrito por Neo Mondo | 22 de março de 2026
Sistema Terra em colapso progressivo: para Carlos Nobre, climatologista e um dos cientistas brasileiros mais citados no mundo, a instabilidade hidrológica que vivemos não é projeção — é evento em curso - Foto: Divulgação
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Há décadas, Carlos Nobre avisa. Em artigos científicos, avaliações do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) e conferências internacionais, o climatologista brasileiro — um dos mais respeitados do mundo — vem documentando, com precisão crescente, os riscos de um planeta que aquece mais rápido do que sua capacidade institucional de responder. Suas pesquisas sobre a Amazônia ajudaram a estabelecer o conceito de ponto de não retorno no vocabulário científico global e a demonstrar que a floresta não é apenas um reservatório de carbono — é uma infraestrutura biofísica que regula o regime das chuvas de um continente inteiro.
Nesta entrevista ao Neo Mondo, Nobre examina a inflexão que o planeta atravessa agora: o momento em que a instabilidade climática deixa de ser projeção e se torna evento. Sua leitura é precisa, sistemática e, em vários momentos, perturbadora — não pelo alarmismo, mas pela consistência das evidências que apresenta. Para ele, a água é o termômetro mais fiel de tudo o que está acontecendo com o sistema Terra. E o que esse termômetro indica hoje exige atenção urgente por parte de governos, de mercados e da sociedade.
Professor, nas últimas décadas, o carbono e a energia dominaram a agenda climática global. Estamos entrando em uma era em que a água passa a ser o principal eixo geopolítico do planeta?
Sem dúvida, estamos vivendo uma inflexão histórica. Entre 2023 e 2025, pela primeira vez na história recente da civilização, a temperatura média global atingiu cerca de 1,5°C acima dos valores do período pré-industrial. Esse aquecimento é resultado principalmente das emissões de gases de efeito estufa — sobretudo dióxido de carbono e metano —, das quais aproximadamente 75% decorrem da queima de combustíveis fósseis. A ciência já previa que, ao cruzarmos esse patamar, os eventos extremos aumentariam exponencialmente em frequência e intensidade. E é exatamente isso que estamos observando. O ciclo da água em todo o planeta já está profundamente modificado. Há mais energia disponível na atmosfera e uma parte significativa vem do aumento da evaporação, principalmente dos oceanos. Quando esse vapor condensa, libera calor latente, o que intensifica as tempestades. Ao mesmo tempo, vemos recordes simultâneos de chuvas extremas e de secas severas. A água sempre foi essencial para a vida, mas agora também se torna um vetor central de risco climático.
Do ponto de vista do sistema Terra, ainda estamos diante de uma crise climática progressiva ou já entramos em uma fase de instabilidade hidrológica estrutural?
Já entramos claramente em uma fase de emergência climática. Muitos cientistas, inclusive eu, já utilizam esse termo porque, entre 2022 e 2025, houve um salto abrupto da temperatura global — superior a 0,3°C — que desencadeou uma instabilidade climática e hidrológica sem precedentes na história moderna. Se o planeta continuar aquecendo e atingir entre 2°C e 2,5°C até 2050, veremos uma intensificação muito mais forte dos eventos extremos — tanto de chuvas excessivas quanto de secas severas. É importante dizer que a capacidade de previsão meteorológica melhorou muito nas últimas décadas. Conseguimos antecipar eventos extremos com mais precisão. O problema não é mais a previsibilidade do tempo, mas sim a intensidade crescente dos fenômenos que estamos desencadeando.
Se considerarmos a Amazônia como uma infraestrutura biofísica que regula as chuvas continentais, qual seria o impacto sistêmico caso esse sistema ultrapasse o ponto de não retorno?
Esse é um dos maiores riscos planetários. Desde o início dos anos 1990, nossas pesquisas já indicavam que o desmatamento poderia levar partes da Amazônia para além de um ponto de não retorno. A floresta amazônica funciona como uma extraordinária máquina de reciclagem de água. Estudos mostram que entre 40% e 45% do vapor d'água que entra na bacia não retorna diretamente ao oceano — é reciclado pela própria floresta e transportado para o sul do continente. Cada molécula de água pode ser reciclada de cinco a oito vezes antes de sair da região. Esse processo alimenta grande parte das chuvas do Cerrado, da Mata Atlântica, do Sudeste brasileiro e até mesmo de outras áreas da América do Sul. Se a Amazônia ultrapassar o ponto de não retorno — e estamos perigosamente próximos — essa reciclagem pode cair entre 30% e 40%. O impacto seria sistêmico: redução das chuvas em múltiplos biomas, risco à agricultura, à geração de energia e à estabilidade climática regional. Além disso, a floresta armazena entre 150 e 200 bilhões de toneladas de carbono. A degradação em larga escala poderia liberar mais de 200 bilhões de toneladas de CO₂ na atmosfera, acelerando ainda mais o aquecimento global.
Assim como o carbono se tornou uma métrica econômica global, a água tende a se tornar o próximo grande indicador de risco sistêmico?
Sem dúvida. Toda a vida no planeta depende absolutamente da água, e o agravamento dos extremos hidrológicos já está afetando as cadeias produtivas e a segurança alimentar. Secas mais severas e ondas de calor estão por trás das quebras de safra em várias regiões do mundo. Por outro lado, chuvas excessivas também causam erosão do solo, perda de produtividade e destruição de infraestrutura. Estamos diante de um risco sistêmico real para a produção de alimentos e para a economia global se o aquecimento continuar avançando.
A segurança hídrica pode se tornar um dos principais pilares da estabilidade social e democrática global?
A instabilidade hidrológica já vem ampliando as vulnerabilidades sociais. Eventos extremos afetam de forma desproporcional as populações mais pobres. As ondas de calor já causam cerca de 500 mil mortes por ano no mundo. No caso das chuvas intensas, o principal fator de mortalidade é o deslizamento de encostas e as inundações em áreas de risco. A segurança hídrica é, sim, um componente fundamental da estabilidade ambiental, social e sanitária. No entanto, observamos um paradoxo preocupante: mesmo com o agravamento da emergência climática, muitas democracias têm eleito lideranças que enfraquecem a agenda climática. Esse é um dos grandes desafios do nosso tempo.
Existe o risco de criarmos um mundo descarbonizado, mas hidrologicamente pressionado?
A expansão de tecnologias digitais, da inteligência artificial e de novos vetores energéticos aumenta a demanda global por energia — e isso traz desafios reais. A boa notícia é que fontes como a solar e a eólica não têm impacto direto relevante sobre a demanda hídrica. Já a expansão indiscriminada de hidrelétricas pode representar riscos, tanto pela vulnerabilidade às secas quanto pelos impactos sobre a biodiversidade aquática. O desafio central continua sendo acelerar a descarbonização. Para manter a temperatura próxima de 1,5°C, as emissões globais precisariam cair pelo menos 5% ao ano até 2035. Infelizmente, estamos longe desse ritmo.
Se esta for a década decisiva para o futuro hídrico do planeta, qual decisão ainda podemos tomar agora — mas talvez não depois de 2035?
A resposta é direta: precisamos reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa. Se continuarmos aumentando as emissões até 2035, é muito provável que o planeta ultrapasse 2 °C de aquecimento por volta de 2050, podendo chegar a 2,5 °C. Isso acionaria múltiplos pontos de não retorno — perda acelerada de biomas, derretimento de mantos de gelo e elevação significativa do nível do mar. Nesse cenário, o sistema hidrológico global entraria em uma fase de instabilidade ainda mais profunda. A meta deveria ser reduzir as emissões em cerca de 50% até 2035 e caminhar rumo a emissões líquidas zero entre 2040 e 2045. Caso contrário, corremos o risco de avançar para um verdadeiro ecocídio — um colapso ecológico com consequências diretas para o futuro hídrico do planeta.

Ao fim desta conversa com Carlos Nobre, o que fica não é apenas um conjunto de dados ou projeções — é a clareza incômoda de que as decisões mais importantes para o futuro da água já deveriam estar sendo tomadas agora. A ciência, como Nobre demonstra com consistência, não trabalha mais com hipóteses. Ela já está documentando as transformações em curso.
O que permanece em aberto não é o diagnóstico. É a resposta. E ela depende menos de avanços tecnológicos do que de vontade política, prioridade institucional e capacidade coletiva de agir na velocidade que o problema exige — uma velocidade que, como a própria atmosfera vem mostrando, não espera o próximo ciclo eleitoral.
O século da água já começou. Carlos Nobre passou décadas tentando garantir que não chegássemos a ele sem avisos. Os avisos foram dados. O que vem agora é a escolha.
Esta entrevista faz parte do especial Semana Mundial da Água, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre os recursos hídricos do planeta e o papel do Brasil nessa equação global.
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