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A estética dos anos 80 voltou. A conta ficou para a energia

Escrito por Neo Mondo | 11 de setembro de 2026

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Estética — A nostalgia dos anos 80 ressurge na tela, sustentada pela infraestrutura de data centers que amplia o consumo mundial de energia - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

ARTIGO

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POR - DRA. MARCELA BARALDI*

A internet parece ter voltado algumas décadas. Nas redes sociais, os anos 80 estão por toda parte: cabelos volumosos, cores neon, videogames, televisores de tubo, fotos granuladas, roupas exageradas e aquela atmosfera que parece ter saído de uma fita VHS. Basta uma fotografia e alguns comandos para que a inteligência artificial transforme uma imagem atual em uma cena que poderia ter sido registrada há quarenta anos. É divertido, é curioso e, como toda boa trend, se espalhou rápido.

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A inteligência artificial tornou possível brincar com a memória estética de uma geração em poucos segundos. O que antes exigia estúdio, figurino, maquiagem, fotografia e edição agora se resolve com uma imagem e algumas palavras. Parece apenas mais uma manifestação da cultura da internet, uma forma de experimentar visualmente uma década que voltou a despertar interesse. Mas existe uma parte dessa brincadeira que não aparece na tela.

Enquanto recriamos digitalmente uma época marcada por tecnologias muito mais limitadas que as atuais, usamos uma das estruturas mais sofisticadas e mais famintas por energia do nosso tempo: os data centers que sustentam a inteligência artificial. A chamada "nuvem" soa abstrata, mas é feita de coisas físicas. Servidores, chips de alta capacidade, sistemas de armazenamento, redes de transmissão e equipamentos de refrigeração que funcionam sem parar.

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), os data centers consumiram cerca de 415 terawatts-hora de eletricidade em 2024, o equivalente a 1,5% do consumo mundial. Mais do que o número absoluto, o que chama atenção é a velocidade. Em 2025, a demanda elétrica dos data centers cresceu 17%, enquanto a demanda global por eletricidade subiu 3%. Nas instalações voltadas à inteligência artificial, o salto foi de 50% em um único ano.

A projeção da agência é de que esse consumo dobre até 2030, saindo de cerca de 485 terawatts-hora em 2025 para algo próximo de 950. Nos data centers dedicados à inteligência artificial, a demanda deve triplicar no mesmo período.

Isso não significa que uma única imagem criada por inteligência artificial carregue, sozinha, um peso ambiental enorme. A tecnologia também ficou mais eficiente, e a energia necessária para executar cada tarefa vem caindo rápido. O problema está na escala. Quando milhões de pessoas passam a criar imagens, vídeos e textos todos os dias, a economia obtida em cada operação é engolida pelo aumento no número de operações.

E toda essa energia precisa vir de algum lugar.

É aqui que a conversa sobre inteligência artificial deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser também ambiental. A matriz que abastece os data centers muda de país para país, e as renováveis crescem depressa: já respondem por 27% da eletricidade consumida pelo setor. Ainda assim, o carvão continua sendo a maior fonte isolada, com cerca de 30%, seguido pelo gás natural, com 26%. Metade do crescimento da demanda dos data centers até 2030 deve ser atendida por fontes renováveis. A outra metade virá sobretudo de gás natural e carvão, com a energia nuclear ganhando espaço no fim da década.

Uma imagem que parece existir só na tela pode depender, em algum ponto da cadeia, de uma termelétrica movida a gás ou a carvão. A tecnologia é digital, mas segue presa a recursos naturais e a usinas com endereço, chaminé e licença ambiental.

A conta não para na eletricidade. Os data centers também precisam dissipar o calor gerado pelos equipamentos, e os sistemas de refrigeração podem consumir água, dependendo da tecnologia usada e das condições locais. A expansão dessa estrutura exige servidores, semicondutores e equipamentos elétricos fabricados a partir de minerais extraídos e processados em diferentes partes do mundo.

Essa dimensão física costuma sumir quando falamos da vida digital. Dizemos que nossos arquivos estão "na nuvem", que conversamos com uma inteligência artificial, que criamos uma imagem em poucos segundos. Raramente pensamos no conjunto de máquinas e recursos necessários para que isso aconteça. A experiência é virtual; a infraestrutura, não.

A contradição fica mais evidente quando voltamos aos anos 80. Estamos usando uma das tecnologias mais avançadas de hoje para recriar uma época em que uma fotografia dependia de filme, uma música precisava de fita ou disco e um videogame vinha em cartucho. Agora produzimos dezenas de versões da mesma imagem em minutos e guardamos todas, indefinidamente.

Essa facilidade explica boa parte do fascínio pela inteligência artificial. Ela amplia nossa capacidade de criar, experimentar e transformar ideias em imagens, textos e vídeos. Transformá-la em vilã ambiental seria simplificar demais. A própria AIE aponta que a tecnologia pode tornar sistemas energéticos mais eficientes, melhorar a operação de redes elétricas e reduzir desperdício em vários setores. Em indústrias intensivas em energia, aplicações já testadas cortam custos energéticos entre 3 e 10 pontos percentuais.

O ponto não é abandonar a tecnologia nem converter uma trend em culpa individual. É reconhecer que cada camada de conveniência digital tem uma estrutura física atrás dela, e que essa estrutura cresce junto com o uso. A imagem tem cara de VHS. A infraestrutura que a produz deve consumir, em 2030, o equivalente a toda a eletricidade usada hoje pelo Japão.

*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

foto da Dra. Marcela Baraldi, autora do artigo A estética dos anos 80 voltou. A conta ficou para a energia
Dra. Marcela Baraldi - Foto: Arquivo pessoal

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