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A Amazônia acima da floresta começa a revelar uma biodiversidade desconhecida

Escrito por Neo Mondo | 8 de setembro de 2026

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Amazônia vista do alto, a Serra do Aracá rompe o manto contínuo da floresta e guarda, sobre seus tepuis, formas de vida que a ciência apenas começa a conhecer — Foto: André Dib/Agência FAPESP

POR - REDAÇÃO NEO MONDO, COM INFORMAÇÕES DA AGÊNCIA FAPESP

No topo isolado da Serra do Aracá, 16 pesquisadores já encontraram um lagarto que pode representar uma espécie ainda não descrita pela ciência

Às quatro da manhã, os ornitólogos começam a trabalhar. Poucas horas depois, botânicas percorrem a vegetação em busca de plantas com flores ou frutos. Durante o dia, entomologistas examinam o solo e troncos caídos. Depois do jantar, pesquisadores de répteis e anfíbios entram na mata com lanternas e gravadores. No alto da Serra do Aracá, a ciência trabalha em turnos porque cada forma de vida obedece ao seu próprio relógio.

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A paisagem contraria a imagem mais difundida da Amazônia. No platô onde foi instalado o acampamento principal, a 1.260 metros de altitude, a floresta alta dá lugar a campos rupestres, arenito, solos encharcados e vegetação baixa. É uma Amazônia suspensa acima da Amazônia, separada das terras baixas por milhões de anos de isolamento.

Uma equipe de 16 cientistas iniciou em 24 de agosto uma expedição de três semanas para investigar a biodiversidade da região. O grupo reúne especialistas de instituições brasileiras e estrangeiras. O trabalho é financiado pela FAPESP e conta com apoio logístico e de segurança do Exército Brasileiro.

Os tepuis — montanhas de topo plano — são remanescentes de uma antiga formação geológica fragmentada pela água e pelo vento. Separados por vales e pela planície florestal, passaram a funcionar como ilhas dentro do continente. Populações de animais e plantas seguiram trajetórias evolutivas próprias, sem relação próxima, em alguns casos, com as espécies encontradas na floresta logo abaixo.

O Aracá ocupa o limite entre as regiões oriental e ocidental dos tepuis sul-americanos. Identificar quais linhagens vivem ali pode ajudar a reconstruir antigas conexões entre essas montanhas. A expedição sucede trabalhos realizados no Pico da Neblina, em 2017, e na Serra do Imeri, em 2022. Nessas viagens, o grupo encontrou novas famílias de sapos, lagartos, uma ave ainda não descrita e um novo gênero de caranguejo de água doce.

Chegar aos pontos de coleta exigiu transportar por helicóptero cerca de cinco toneladas de barracas, camas e equipamentos, sem contar alimentos e água. O acampamento principal fica no topo do tepui. Uma segunda base foi instalada a 850 metros, sobre um bloco rochoso que no passado esteve ligado à serra.

Nos cinco primeiros dias, as botânicas coletaram mais de 100 espécimes vegetais. Entre as aves, foram encontrados três indivíduos de Colibri delphinae, espécie não registrada nas duas expedições anteriores. Ao mesmo tempo, áreas onde os pesquisadores esperavam muitos pássaros permaneceram estranhamente silenciosas. Ainda não se sabe se a baixa densidade é uma característica local ou uma variação da amostragem.

Uma das primeiras capturas de pequenos mamíferos parece pertencer ao gênero Zygodontomys, também ausente das coletas anteriores. Cem baldes enterrados no solo, câmeras acionadas por movimento e gravadores de bioacústica ampliam a busca por animais que dificilmente seriam vistos em caminhadas convencionais.

À noite, os cientistas localizam anfíbios por suas vocalizações. Na primeira fase, registraram entre oito e nove espécies de anfíbios e entre quatro e cinco de lagartos. Um pequeno lagarto adaptado ao arenito pode representar uma espécie desconhecida. A hipótese ainda exige comparação com coleções e análises genéticas. Encontrar um animal diferente não equivale a descrever uma nova espécie.

Amostras de água e solo também serão examinadas por DNA ambiental, capaz de detectar material genético deixado por organismos não observados. Cada planta, tecido, som ou sequência deverá passar por meses de estudo. As coletas formarão uma referência sobre uma região quase ausente dos inventários biológicos.

A Serra do Aracá expõe um paradoxo brasileiro. A Amazônia é observada por satélites, discutida em conferências e conhecida em todo o planeta, mas parte da vida existente dentro dela ainda não tem nome nem posição definida na história evolutiva. Antes de revelar quantas espécies novas vivem no alto do tepui, a expedição já mostra quanto ainda falta conhecer.


Fontes: reportagens de Elton Alisson para a Agência FAPESP, publicadas em 24 de agosto, 31 de agosto e 8 de setembro de 2026.

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