Escrito por Neo Mondo | 7 de outubro de 2019
Escolha da semente
Os produtores de alto rendimento têm escolhido sementes com genética adequada ao ambiente de produção. A Embrapa e outras instituições, por meio dos programas de melhoramento genético, desenvolvem cultivares com alta adaptabilidade e estabilidade de produção nos diversos ambientes e aos diferentes tipos e características de solo do Brasil.
A pesquisa já disponibilizou variedades resistentes a determinados nematoides, por exemplo. Essas variedades também podem ser geneticamente resistentes a doenças como a ferrugem asiática da soja, além de serem menos preferenciais para alguns insetos-pragas, como a soja Block, tolerante a percevejos. Há, ainda, materiais genéticos com genes específicos, como o RR (Roundup Ready) e o Bt (extraído da bactéria Bacillus thuringiensis). Pode-se dizer, portanto, que a semente é como um chip, com diversas tecnologias embarcadas.
Além de melhorada geneticamente, a semente deve ter alto vigor e alta capacidade de germinação. O vigor ajuda no arranque inicial da planta e proporciona o desenvolvimento rápido das raízes e da parte aérea, além de maior acúmulo de matéria seca logo no início da lavoura.
Arranjo de plantas
Os altos rendimentos são obtidos com o plantio de sementes devidamente tratadas com agrodefensivos que assegurem a germinação e o desenvolvimento da plântula. No caso da soja, a semente deve ser inoculada com um rizóbio (bactéria fixadora de nitrogênio), tecnologia da Embrapa que garante a produção sem o uso de adubação nitrogenada, reduzindo custos. Também podem ser adicionadas, no processo chamado coinoculação, bactérias do gênero Azospirillum, indutoras de enraizamento.
Antes do plantio, os recordistas de produtividade observam a população de plantas recomendada para a variedade. Ela é determinada pelo obtentor da genética da semente, de modo a garantir uma arquitetura de planta que facilite os tratos culturais.
Esses produtores utilizam plantadeiras que garantem uniformidade na distribuição vertical (em profundidade) e horizontal (entre as sementes), evitando a competição entre plantas e garantindo a plantabilidade para a definição do arranjo de plantas.
Um dos problemas nessa etapa é a alta velocidade das plantadeiras, que pode interferir na distribuição espacial das sementes. Essa velocidade pode variar com o modelo e com a distribuição que o equipamento permite, e de acordo com as características da topografia e da palhada do solo.
É importante lembrar que o plantio deve ser em solo com umidade adequada, observando-se as datas de semeadura com menor risco climático. Plantar no solo seco ou “no pó” pode interferir no vigor, na germinação, e, consequentemente na população de plantas, reduzindo a produtividade.
Desenvolvimento de plantas produtivas
Para que a planta se desenvolva até o final do ciclo e com alta produtividade, os produtores de alto rendimento adotam medidas para proteger a parte aérea. Assim, as folhas conseguem finalizar a translocação dos compostos produzidos na fotossíntese para os grãos no estágio de enchimento, garantindo-lhes maior peso e teor de proteína e óleo desejáveis.
Dentre as práticas protetivas, o controle de plantas invasoras evita a competição por água, nutrientes e luz com as plantas da cultura. O produtor de alto rendimento faz o manejo integrado e rotacionado, de preferência com planta de cobertura, não deixando o solo no pousio. As plantas de cobertura na ILP competem com a planta daninha, inibindo seu desenvolvimento e reduzindo o uso de herbicidas.
Outra medida é manejar insetos-pragas na lavoura, que se alimentam da raiz, do caule, das hastes, das vagens e das folhas. Entre os principais insetos, destacam-se a mosca branca, que além de sugar a seiva das plantas também transmite viroses; as lagartas, que causam desfolhas; e os percevejos, que sugam os grãos, causando prejuízos.
Para controlá-los, os produtores utilizam o Manejo Integrado de Pragas, recomendado pela Embrapa. A prática alia todas as possíveis táticas de manejo, como a eliminação de alimentos para as pragas na entressafra; uso de cultivares de menor predileção por parte dos insetos-pragas; variedades geneticamente modificadas; e controle biológico, com insetos predadores e parasitoides, além de vírus, fungos e bactérias que causam doenças nos insetos-pragas, sem afetar os seres humanos. Além dessas práticas, quando necessário, são aplicados inseticidas, preferencialmente os que causam menor impacto ao meio ambiente.
Há ainda um complexo de doenças que comprometem as raízes, folhas, hastes e os grãos. No caso da lavoura de soja, a doença com maior potencial de dano é a ferrugem asiática, foco de grande parte dos produtos desenvolvidos no mercado. Mas os recordistas de produtividade atentam para o controle de todo o complexo de doenças, não se restringindo à ferrugem asiática.
Observa-se que nas áreas de altas produtividades os produtores se preocupam com a proteção de toda a planta, incluindo o terço inferior (ou baixeiro), onde são produzidos 20% ou mais dos grãos. O baixeiro da planta proporciona um microclima favorável ao desenvolvimento de doenças que resultam na desfolha e na consequente redução da produtividade.
Uma recomendação seguida por esses produtores é de que toda pulverização deve ser feita com alta tecnologia de aplicação, que garante a correta deposição dos produtos fitossanitários no alvo, na quantidade necessária e de forma econômica, com o mínimo de contaminação de outras áreas devido à deriva dos produtos.
No caso da cultura da soja, observados esses quatro pilares, há ainda uma última questão: a dessecação pré-colheita deve ser feita quando a maioria das plantas estiver madura, com as folhas amareladas, quando há uma infestação de plantas daninhas no final do ciclo ou quando ocorrer retenção de folhas verdes. Nesses casos, a dessecação vai uniformizar a lavoura e facilitar a colheita. É uma prática interessante, mas que não deve ser feita muito cedo, pois jogar folhas verdes no chão é como provocar uma doença nas plantas, causando perda de produtividade.
Fica evidente, portanto, que não há segredo para o sucesso nas lavouras de grãos e fibras. O que sustenta a agricultura de alto rendimento é o uso correto das tecnologias geradas e recomendadas pela pesquisa agropecuária brasileira, não importando o tamanho e o negócio da propriedade.
Com o uso de alta tecnologia, os recordistas de produtividade no Brasil têm reduzido os desperdícios e obtido rentabilidade, alcançando quase um real de lucro para cada real aplicado na lavoura. Além disso, eles têm garantido a sustentabilidade do negócio, poluindo menos o meio ambiente e contribuindo de forma significativa para o desenvolvimento do País e a segurança alimentar mundial.
* Sérgio Abud é biólogo, supervisor de Transferência de Tecnologia da Embrapa Cerrados
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