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Animal é pauta. Empresa ainda não sabe

Escrito por Neo Mondo | 30 de abril de 2026

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Animal símbolo da Mata Atlântica, o tucano concentra num bico o que a pesquisa do Instituto Vida Livre e da Quaest traduziu em números: a fauna brasileira tem apelo, tem público e não tem padrinho corporativo - Foto: Ilustrativa/Magnific

POR - ELENI LOPES, DIRETORA DE REDAÇÃO

Nove em cada dez brasileiros acreditam que empresas devem apoiar a proteção animal. O número, por si só, já seria expressivo. O que o torna politicamente significativo é a origem do consenso: direita e esquerda, evangélicos e laicos, moradores de capitais e do interior. A pesquisa Percepção e Relação dos Brasileiros com os Animais Silvestres, conduzida pela Quaest e divulgada pelo Instituto Vida Livre em abril de 2025, mapeou as atitudes de mais de 2 mil brasileiros com 16 anos ou mais — e encontrou, num país atravessado por polarização crônica, uma área de convergência rara: a causa animal.

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Os dados são de julho de 2025, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O que revelam não é simpatia difusa por animais silvestres — é uma expectativa estruturada de comportamento corporativo. Para 76% dos entrevistados, a probabilidade de consumir produtos ou serviços de uma empresa sobe quando ela apoia a proteção animal. A mesma proporção vê com bons olhos a iniciativa privada patrocinando projetos culturais e eventos ligados à causa. Três em cada quatro brasileiros defendem que empresas invistam em pesquisa na área. E 88% apoiam a criação de incentivos fiscais para quem atua na conservação da fauna. Esses percentuais não descrevem altruísmo. Descrevem um mercado.

Para Roched Seba, fundador do Instituto Vida Livre — organização que desde 2015 reabilitou mais de 15 mil animais silvestres no Rio de Janeiro —, o levantamento expõe uma assimetria que ele chama de "oportunidade perdida": políticos e empresas ignoram sistematicamente uma causa com alto apelo popular e baixíssimo custo reputacional de adesão. A ausência, diz ele, não é neutra. É uma decisão estratégica equivocada.

A pesquisa revela também uma estrutura de confiança que deveria preocupar qualquer estrategista de comunicação corporativa. As ONGs lideram: 53% dos brasileiros dizem confiar ou confiar muito nessas organizações. O governo aparece como a instituição com menor credibilidade — apenas 14% confiam muito, enquanto 35% afirmam não confiar. O setor privado ocupa um espaço intermediário e disputado, com enorme margem para se posicionar de forma distinta do Estado sem, com isso, substituí-lo. É precisamente nessa fratura de credibilidade que a causa animal pode funcionar como ativo de diferenciação.

O contexto macroeconômico reforça essa leitura. O Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, aprovado em 2022, estabeleceu 23 metas até 2030, entre elas a conservação de 30% das áreas terrestres e marinhas. Investidores institucionais, seguradoras e grandes cadeias de fornecimento passaram a incorporar riscos associados à perda de biodiversidade nos seus modelos de avaliação — um movimento registrado pelo Grupo de Trabalho sobre Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza (TNFD) e por relatórios setoriais da BDO Brasil, que apontam que 61% das empresas brasileiras consideram ESG relevante, mas apenas 39% possuem estrutura dedicada para o tema. A distância entre o reconhecimento do risco e a capacidade operacional de gerenciá-lo é larga — e a proteção da fauna, com seus apelos de comunicação diretos e métricas visíveis, representa uma entrada relativamente acessível nessa agenda.

A pesquisa traça também o perfil afetivo do brasileiro com o tema. Cerca de 75% têm pets; 86% consideram essencial evitar a extinção de espécies para manter o equilíbrio da natureza; oito em cada dez avaliam que o cuidado com a fauna silvestre ainda é insuficiente. Quando solicitados a nomear animais silvestres brasileiros, 45% citam a onça-pintada e 24% a arara — mas 15% também listam o leão. O dado não é anedótico: ele mede a distância entre o afeto pela natureza e o conhecimento concreto da biodiversidade do próprio país, uma lacuna que o setor privado, quando age com seriedade, tem condições únicas de preencher — com alcance que nenhuma política pública de educação ambiental conseguiu até hoje.

O debate que se seguiu à apresentação da pesquisa concentrou-se em uma pergunta que nenhum dado responde sozinho: como as empresas transformam engajamento em prática efetiva, e não em comunicação sobre o engajamento? A distinção é conhecida no ambiente ESG — a diferença entre ação mensurável e washing narrativo. Ela chega agora também à causa animal, com todo o seu apelo e toda a sua exposição.

Para a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres, cerca de 38 milhões de animais são retirados do Brasil ilegalmente todos os anos. O país que abriga 20% da biodiversidade do planeta — mais de 120 mil espécies de invertebrados e 9 mil de vertebrados — ainda trata o tráfico de fauna como crime de baixo potencial ofensivo. A pesquisa do Instituto Vida Livre e da Quaest documenta o que a população pensa sobre isso. O que o setor privado decidir fazer com essa informação será, provavelmente, mais revelador do que qualquer declaração de intenção.

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