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Escrito por Neo Mondo | 30 de abril de 2026
Subsolo — Perfuração de poço artesiano: dois terços dos 14 mil poços privados da Região Metropolitana de São Paulo não estão formalmente cadastrados pelo poder público - Foto: reprodução
POR - ELENI LOPES*, DIRETORA DE REDAÇÃO
A água que São Paulo não sabe que bebe — e os contaminantes que ninguém mapeou
Trinta metros abaixo de um condomínio em construção na Mooca, onde galpões de aço foram substituídos por torres residenciais em menos de uma década, há água. Ela circula por fraturas em rochas cristalinas, ignora os limites dos lotes recém-valorizados e carrega, em concentrações que se medem em partes por bilhão, resíduos de solventes industriais descartados há décadas. Em algum ponto dessa cadeia invisível, existe um poço. Na maioria dos casos, o poder público não sabe que ele existe.
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Esse é o retrato que emerge de um artigo publicado na revista Environmental Earth Sciences por Daphne Silva Pino, pós-doutoranda no Instituto de Geociências da USP, e seu supervisor Reginaldo Antonio Bertolo. O trabalho, apoiado pela FAPESP, examina a sobreposição entre três camadas cartográficas que raramente são analisadas em conjunto na Região Metropolitana de São Paulo: zonas industriais históricas, áreas oficialmente contaminadas por solventes clorados e poços de captação de água subterrânea. O que a análise revela é que, em São Paulo, essas três dimensões frequentemente coincidem — e que o monitoramento público da situação é, na avaliação dos autores, fragmentado a ponto de ser insuficiente.
A RMSP consome em média 61,6 metros cúbicos de água por segundo para abastecer seus 22 milhões de habitantes. Cerca de 18% desse volume provém de aquíferos, captados por aproximadamente 14 mil poços privados — o equivalente a 347 milhões de metros cúbicos por ano. Dois terços desses poços não estão formalmente cadastrados. "Para cada três poços que são construídos, dois são irregulares, no sentido de que o poder público não tem ciência da existência deles nem consegue avaliar se a água utilizada oferece risco ao usuário", afirma Bertolo. Os principais usuários desse recurso subterrâneo invisível são clubes, condomínios, indústrias e hospitais — estruturas de consumo coletivo e, em parte, de população vulnerável.
O problema não é a presença de água no subsolo, mas o que chegou até ela antes. A desindustrialização de São Paulo, iniciada ainda no final dos anos 1970 e acelerada nas décadas seguintes pela transferência de plantas produtivas para o interior e para outros estados em busca de custos menores, deixou atrás de si um rastro de galpões abandonados e subsolo contaminado. Bairros como Mooca, Cambuci, Ipiranga e Barra Funda concentraram atividades industriais ao longo do século XX, impulsionados pela proximidade com as ferrovias. Quando as indústrias saíram, o passivo ambiental ficou. Onde havia fábricas, surgiram torres. Mas o solo que sustenta essas torres não foi remediado com a mesma velocidade com que o mercado imobiliário o revalorizou.
Um levantamento realizado pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, em trecho da Operação Urbana Diagonal Sul entre as estações Mooca e Ipiranga, identificou que, em 129 imóveis com potencial de contaminação, 51 tinham indústrias desativadas, 23 estavam subutilizados e em 2 já havia lançamento de empreendimentos imobiliários residenciais. O dado é de 2005. A velocidade de reconversão só aumentou desde então.
Os contaminantes de maior preocupação pertencem à família dos solventes clorados — em especial o percloroetileno (C₂Cl₄) e o tricloroetileno (C₂HCl₃), amplamente utilizados como desengraxantes industriais na limpeza de peças metálicas e, durante décadas, em lavanderias de limpeza a seco. O que os torna especialmente perigosos não é apenas a toxicidade, mas o comportamento hidrogeológico. Ao contrário dos hidrocarbonetos de postos de gasolina, que tendem a se degradar com relativa rapidez, os solventes clorados persistem. E quando se degradam, produzem compostos intermediários que podem ser ainda mais tóxicos do que as moléculas originais. O limite de potabilidade para essas substâncias é da ordem de partes por bilhão: uma quantidade mínima dissolvida é suficiente para comprometer volumes enormes de água.
Há ainda uma dinâmica física que amplifica o problema. Quando um poço bombeia água a 100 metros de profundidade, cria um gradiente hidráulico descendente. Esse gradiente puxa a contaminação que está próxima à superfície — onde os solventes foram originalmente descartados — para camadas progressivamente mais fundas do aquífero. "Camadas geológicas menos permeáveis podem atuar como filtro natural", reconhece Bertolo, "mas há incertezas importantes sobre a eficácia desse mecanismo ao longo de décadas." Em outras palavras, a própria ação de extrair água pode acelerar a migração dos contaminantes para onde a extração ocorre.
O estudo identifica 17 aglomerações em que áreas contaminadas e poços de captação se sobrepõem dentro do raio de 500 metros exigido pela legislação paulista para a apresentação de relatórios de qualidade da água. Estão nessa lista regiões como Jurubatuba, Jaguaré, Mooca e Vila Prudente, na capital, e Diadema, Mauá e Osasco, na RMSP. Na região de Jurubatuba, as plumas de contaminação em fase dissolvida no aquífero livre foram identificadas como sobrepostas, o que dificulta o estabelecimento de ações individualizadas e exige intervenção integrada. Jurubatuba aparece no artigo como a área mais estudada da RMSP — e ainda assim, três quartos dos sítios ali localizados carecem de informação detalhada nos cadastros ambientais.
Autoridades já tiveram de proibir a escavação de novos poços e interditar os existentes em Jurubatuba — medida que atesta a gravidade do quadro, mas não resolve a questão estrutural: a contaminação permanece no subsolo, as plumas continuam se movendo e a gestão ainda opera caso a caso, dentro dos limites de cada propriedade. "Quando se olha o aquífero, delimitações geométricas rígidas em torno de um imóvel não fazem sentido. É preciso tratar essas regiões como sistemas hidrogeológicos integrados", diz Pino.
A dimensão do passivo não remediado é igualmente expressiva. O estudo identificou 596 áreas no cadastro paulista com histórico de solventes clorados. Até 2020, apenas 18,6% haviam sido classificadas como "reabilitadas para o uso declarado" — uma categoria que não implica eliminação completa da massa contaminante, mas sua redução a níveis considerados aceitáveis. Mais da metade ainda estava em fase de remediação; 26% permaneciam em investigação. O ritmo de reabilitação está muito aquém da velocidade com que o território sobre esses aquíferos se adensa com novos usos e novos usuários.
A Cetesb conta com 24 geólogos e 168 técnicos para monitorar ao menos 35 mil poços no estado, descobrindo casos de contaminação a partir de denúncias ou autodeclarações dos responsáveis, que devem prestar contas anualmente. A companhia não respondeu ao pedido de posicionamento da Agência FAPESP até a publicação do artigo original. A SP Águas, por sua vez, sinalizou que o Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê já promoveu novos estudos hidrogeológicos para Jurubatuba com o objetivo de aperfeiçoar o modelo de gestão — e indicou, entre outras medidas necessárias, a unificação dos bancos de dados entre órgãos gestores e o estabelecimento de comunicação acessível à população sobre os riscos da região.

O que o artigo de Pino e Bertolo torna evidente é que a crise de governança não é apenas técnica. É também epistemológica: não se sabe com precisão quanta água subterrânea é consumida, por quem, em que condições e com qual grau de exposição a contaminantes. Dois terços dos poços existentes na maior metrópole da América do Sul são, para o Estado, invisíveis. E invisibilidade, em hidrogeologia, não protege ninguém — a água não espera ser cadastrada para se mover.
*Com informações da Agência FAPESP.
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