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Escrito por Neo Mondo | 27 de abril de 2026
Preço da luz: guerra no Oriente Médio acende alerta para o custo da energia elétrica no Brasil - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Como a crise no Oriente Médio atravessa o Estreito de Ormuz e chega à fatura de energia dos brasileiros
No dia 7 de abril, o barril do petróleo tipo Brent foi negociado a US$ 109,27. Não era uma anomalia especulativa. Era a soma de semanas de bloqueio marítimo, ataques a refinarias do Golfo Pérsico, destruição de infraestrutura energética iraniana por Israel e o fechamento intermitente da rota pela qual passa, diariamente, cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no planeta. A guerra que começou em 28 de fevereiro de 2026, quando os Estados Unidos e Israel atacaram instalações militares e nucleares do Irã, não tem frente brasileira. Mas seu preço já está sendo calculado para quem paga conta de luz no país.
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A conexão entre o conflito e a tarifa elétrica é mais direta do que parece. Um estudo da consultoria Thymos Energia, divulgado em abril, identifica dois mecanismos pelos quais a alta dos combustíveis fósseis no mercado internacional se transmite para a eletricidade consumida por residências e indústrias no Brasil. O primeiro é a Conta de Consumo de Combustíveis, a CCC — encargo que subsidia a geração de energia em sistemas isolados do país, sobretudo na Região Norte, onde usinas a diesel e a óleo combustível abastecem comunidades fora do alcance do Sistema Interligado Nacional. O segundo é o Custo Variável Unitário das termelétricas, o CVU — o indicador que expressa quanto custa, por megawatt-hora, despachar uma usina que queima gás natural, óleo ou carvão. Nos dois casos, petróleo mais caro significa geração mais cara, e geração mais cara significa tarifa mais alta.
O precedente histórico é preciso. Durante a guerra na Ucrânia, em 2022, quando o Brent superou US$ 139 por barril, a CCC registrou expansão de 41% em relação ao ano anterior. O encargo não tem teto legal: diferentemente de outras rubricas da tarifa, a CCC não está sujeita a limite normativo, o que significa que cada centavo de alta nos combustíveis é integralmente repassado ao consumidor por meio da Conta de Desenvolvimento Energético, a CDE — o fundo que financia as políticas públicas do setor elétrico e está orçado em R$ 52,7 bilhões para 2026, crescimento de 7% sobre o ano anterior, segundo análise da própria Thymos e dados confirmados pela Aneel.
O conflito atual não chegou ainda à intensidade do choque ucraniano. Mas se desenvolve num contexto estrutural mais adverso para o Brasil. Abril marca o início do período seco no país. Com menos chuva, os reservatórios recuam e o Operador Nacional do Sistema amplia o despacho térmico — aciona mais termelétricas para compensar a menor geração hidráulica. É exatamente quando o CVU mais pesa. "A partir do momento em que os combustíveis ficam mais caros, essas usinas tornam-se mais onerosas para o sistema elétrico", afirma Ana Paula Ferme, Head de Utilities e Regulação Econômica da Thymos Energia. A consequência é a elevação do Preço de Liquidação das Diferenças, o PLD — referência do mercado de curto prazo — que pressiona os contratos de compra de energia das distribuidoras e, por essa via, as tarifas finais. Os efeitos não serão simultâneos: o PLD sobe mais rápido; a CCC, nos ciclos tarifários seguintes.
A anatomia do choque geopolítico é conhecida, mas nem por isso simples. O Estreito de Ormuz, por onde transitam entre 17 e 21 milhões de barris por dia, foi parcialmente bloqueado desde o início do conflito, com o tráfego de petroleiros caindo cerca de 70% e mais de 150 navios ancorados fora da rota para evitar ataques. Maersk e Hapag-Lloyd suspenderam trânsitos pela região. Embarcações foram obrigadas a contornar o Cabo da Boa Esperança, somando semanas às viagens e elevando fretes e prêmios de seguro de guerra em até 50%. "Qualquer interrupção relevante nessa rota provocaria um choque imediato nos preços do petróleo", avalia Robson Gonçalves, economista da FGV, acrescentando que o efeito se alastra para toda a cadeia produtiva via transporte, indústria e alimentos.
O Brasil exporta petróleo bruto, mas importa derivados. A privatização de refinarias como a Rlam, na Bahia, reduziu os mecanismos de amortecimento que a Petrobras historicamente exercia sobre os preços domésticos. Com menos controle sobre a ponta do refino, a transmissão dos preços internacionais para o mercado nacional é mais imediata. Além disso, o país chega a este momento com o IPCA-15 de fevereiro em 0,84% — acima do teto das estimativas — e o acumulado de 12 meses já em 4,10%, mais de um ponto percentual acima da meta do CMN. Em 2025, energia elétrica foi o subitem que mais pressionou a inflação, com alta de 12,31%. A Thymos Energia projetava, antes do conflito, que o preço médio da eletricidade subiria 7,64% em 2026.
Sobre esse pano de fundo, sobrepõe-se ainda o custo dos leilões de reserva de capacidade realizados em março. Um levantamento da TR Soluções projeta que a contratação de 18.977 megawatts de potência — envolvendo usinas a gás, carvão mineral, óleo combustível e biodiesel, além de hidrelétricas — gerará encargos anuais de R$ 48 bilhões a partir do início da próxima década. Para os consumidores cativos, a estimativa é de alta de 7,5% nas tarifas até 2032. Para grandes consumidores industriais que migram para o mercado livre, o número sobe para 13,5% — porque passarão a compartilhar o rateio dos encargos de potência que antes recaíam exclusivamente sobre os cativos. O custo do despacho térmico e o custo da segurança energética estão sendo divididos, pela primeira vez, de forma mais ampla no sistema.
"O encarecimento da energia tende a pressionar a inflação e afetar a competitividade da economia brasileira como um todo", alerta a especialista da Thymos. Não é um exercício de catastrofismo. É a descrição de uma cadeia de transmissão que começa num estreito de 34 quilômetros de largura entre o Irã e Omã, passa pelos preços de referência do mercado internacional de energia, atravessa os mecanismos regulatórios do setor elétrico brasileiro e termina na fatura do consumidor. A velocidade com que cada elo dessa cadeia se move depende de quanto tempo o conflito durar, do comportamento hidrológico do semestre seco e de decisões regulatórias ainda em aberto. O que já não está em aberto é a exposição.
A guerra não é brasileira. A conta, parcialmente, sim.
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