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Escrito por Neo Mondo | 30 de abril de 2026
Jalapão (TO) — Dunas de areia ferruginosa e veredas de buritis às margens do rio Sono, no Parque Estadual do Jalapão: uma das paisagens mais intactas do Cerrado, bioma que concentra a maior aposta de reflorestamento privado já estruturada na América Latina. Foto: Vanessa Obrzut/Pixabay
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Cerca de 29 milhões de árvores já foram plantadas em mais de 25 mil hectares de pastagens degradadas no Brasil quando o BTG Pactual anunciou, em 29 de abril, o fechamento da captação do seu braço florestal, o Timberland Investment Group. O número impressiona menos pelo volume do que pelo que representa: a prova operacional de uma tese que, até pouco tempo, existia sobretudo no papel. O BTG Pactual TIG concluiu a captação de US$ 1,24 bilhão para sua estratégia de reflorestamento na América Latina, no que é apontado como o maior fundo de reflorestamento e restauração já estruturado até hoje. A meta inicial era de US$ 1 bilhão. A captação final a superou em 24%.
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O fundo tem um nome técnico — Latin American Reforestation Strategy — e uma ambição que vai além do rótulo. Ao todo, a estratégia pretende conservar, restaurar e reflorestar aproximadamente 270 mil hectares de paisagens degradadas na América Latina, sendo metade destinada à proteção e restauração de florestas nativas e savanas, e a outra metade ao plantio de árvores em fazendas florestais comerciais certificadas pelo Forest Stewardship Council. O Cerrado é o bioma central dessa geometria — e não por acaso.
Mais da metade da cobertura original do Cerrado foi eliminada ao longo de décadas. O bioma, que ocupa mais de dois milhões de quilômetros quadrados e abriga uma das maiores biodiversidades de savana do planeta, perdeu território para a expansão agropecuária a um ritmo que superou, em determinados períodos, o próprio desmatamento da Amazônia. Mas o Cerrado raramente ocupa o centro da atenção internacional. É o segundo bioma mais ameaçado do Brasil, o primeiro em invisibilidade. O BTG entrou exatamente por essa fresta.
O projeto central tem como objetivo proteger e restaurar 49.458 hectares em Mato Grosso do Sul, combinando restauração florestal, conservação ambiental e geração de créditos de carbono. O BNDES aprovou um financiamento de R$ 200 milhões para empresa integrante da estratégia, com foco na proteção e restauração de áreas no bioma Cerrado. A restauração será conduzida exclusivamente com espécies nativas, com suporte técnico da Universidade Federal de Viçosa por meio de um acordo de pesquisa e desenvolvimento com o Laboratório de Restauração Florestal — experimentos em andamento envolvem mais de 100 espécies nativas distribuídas em 81 hectares de áreas de teste.
Uma coalizão de 18 investidores globais participou da estratégia, incluindo BNDES, IFC, CAF, DEG, FMO, o Fundo de Previdência da Nova Zelândia, Vale S.A., GenZero, NGS Super e Tokio Marine, entre outros. A lista não é decorativa. Cada instituição traz uma camada de legitimidade específica: o BNDES ancora o eixo de política pública brasileira; a IFC e o CAF asseguram a credencial multilateral; a Vale, maior mineradora do país e signatária de compromissos públicos de restauração ambiental, sinaliza que o mercado corporativo brasileiro começa a ver reflorestamento como ativo estratégico, não como despesa de reputação. A presença do fundo soberano da Nova Zelândia, por sua vez, é um dado que merece leitura mais cuidadosa: fundos soberanos raramente alocam capital em projetos sem histórico operacional comprovado.
A arquitetura financeira foi concebida para funcionar como modelo replicável. A expectativa é que toda a estratégia gere aproximadamente 36 milhões de créditos de carbono, dos quais 25% já foram contratados por empresas globais. O TIG já firmou acordos de compra com a Microsoft e a Meta. Mas o que a distingue de operações anteriores no mercado voluntário de carbono é a certificação metodológica sobre a qual repousa.
Em abril de 2026, a Verra aprovou a emissão dos primeiros créditos globais sob sua metodologia de florestamento, reflorestamento e revegetação VM0047. O projeto Brasil Cerrado 1 pode agora receber 230.120 Unidades de Carbono Verificadas sob a metodologia VM0047 v1.0, que está entre as aprovadas pelo Conselho de Integridade para o Mercado Voluntário de Carbono sob seu quadro de Princípios Fundamentais de Carbono — o padrão de referência mais elevado para qualidade e integridade de créditos de carbono. O Brasil Cerrado 1 é o primeiro projeto no mundo a receber créditos sob essa metodologia. O feito não é apenas protocolar: a VM0047 foi construída para endereçar as críticas sistêmicas que corroeram a credibilidade do mercado voluntário nos últimos anos, quando estudos independentes demonstraram que parte significativa dos créditos então em circulação não correspondia a remoções atmosféricas verificáveis.
O professor Sebastião Venâncio Martins, do Departamento de Engenharia Florestal da UFV, afirmou que a pesquisa em campo, dada sua escala e a variedade de tratamentos — com mais de 40 mil mudas de espécies nativas e mais de uma tonelada de sementes —, deve oferecer contribuições relevantes para a restauração do Cerrado, identificando as técnicas mais eficazes e as espécies com maior potencial de sequestro de carbono. A parceria acadêmica importa porque é ela que avança a fronteira do conhecimento aplicado: sem protocolos científicos robustos, a restauração em escala de paisagem permanece uma operação de marketing com árvores.
A estratégia deverá apoiar aproximadamente 2.700 postos de trabalho diretos e indiretos em plena capacidade operacional. Em 2025, já havia apoiado 518 postos equivalentes em tempo integral. A Rede de Sementes Nativas de Mato Grosso do Sul foi mobilizada pelo TIG, que treinou 26 novos coletores e reuniu 5,6 toneladas de sementes nativas — o equivalente a aproximadamente 20% da renda familiar média regional por coletor.
A grande pergunta que esse fundo carrega não é se o dinheiro chegou — chegou, e em volume inédito. É se a escala da restauração pode superar a velocidade da degradação. O Cerrado segue perdendo território a um ritmo que nenhuma estratégia privada, isoladamente, é capaz de reverter. Os 270 mil hectares previstos pela estratégia do TIG ao longo de seu ciclo de 20 anos representam uma fração desse passivo. Mas representam também, pela primeira vez, uma arquitetura financeira que não depende de doação nem de regulação governamental para existir: ela depende de retorno. É nesse detalhe que reside a novidade real.
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