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Escrito por Daniel Medeiros | 10 de março de 2026
Decisões definem caminhos — e, muitas vezes, também quem nos tornamos ao escolhê-los - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS
Professor de jovens há quatro décadas, acompanho como um observador sério as mudanças que os definem como Geração Z e Geração Alfa, e uma das mudanças que mais me chama a atenção é a dificuldade que eles aparentam ter de tomar decisões difíceis. Toda decisão, é preciso dizer, é trágica, pois implica a escolha entre dois bens. Quem decide, ao mesmo tempo, escolhe ficar com algo e também deixar algo. Por isso as escolhas vão abrindo a picada da nossa existência, definindo quem estamos disposto a ser. Mas não é fácil pra ninguém. E para os jovens do século XXI parece ainda mais complicado.
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Penso que a proteção que as famílias passaram a dar para as crianças, poupando-as de todas as frustrações possíveis possa ter um peso considerável para compreender o atual cenário. Talvez, também, a perda de um horizonte mais bem delineado - como foi , em certa medida, o que marcou a minha juventude, tão poucas eram as opções sobre o que era possível sonhar em ser - contribua para essa hesitação constituinte da atual geração. Afinal, como lembra o famoso dito do gato da Alice, "se eu não sei para onde vou, qualquer caminho é possível". E mesmo quando "não importa muito para onde". - como respondeu Alice ao gato - ainda é preciso caminhar “o suficiente”.
Um outro aspecto que observo é o estreitamento da experiência no tempo. Como ensina o filósofo Hartmut Rosa, o estreitamento do tempo é um paradoxo da modernidade tardia, no qual a aceleração tecnológica e social ironicamente reduz nossa percepção de disponibilidade temporal, gerando uma sensação constante de escassez e pressão. Esse fenômeno resulta em uma vida pautada pelo "presente contraído", onde a urgência das tarefas impede a construção de uma relação de ressonância profunda com o mundo e com nós mesmos. Os jovens não tem uma percepção clara do futuro e também não têm compromisso com o passado, (esse lugar distante sem redes sociais e sem inteligência artificial). Assim, só o presente parece ser consistente para eles. E aí reside o problema: se há algo que o presente não tem é consistência. E sem passado e sem futuro os jovens não vivenciam nem o perdão e nem a promessa, ficando presos em um emaranhado de gestos ressentidos e limitados, drenando suas forças como a areia quente faz com a água no deserto. Sem qualquer tipo de treinamento para a reinvenção de si, os jovens vivem permanentemente frustrados com a sua condição e com o seu contexto. Sem a energia inventiva necessária para criar futuros, prendem-se a nostalgias emprestadas e assumem posturas reacionárias, fingindo lutar por um mundo que nunca existiu e, por isso mesmo, visto como um lugar seguro para defender, porque é impossível se frustrar não obtendo o que ninguém tem. Enquanto isso, os dias reais desses jovens continuam desafiando-os, como fantasmas inquietos e barulhentos, assustando-os a todo instante, sem que saibam do que se trata. E quando esses desafios do dia a dia exigem escolhas, decisões, o que fazer?
Observo atentamente centenas desses jovens no meu trabalho cotidiano. Lanço a eles bóias do meu barco; deixo garrafas de água e aponto a direção do oásis mais próximo. Não trago salvação, como fazem tantos que lucram com essa desintonia. Ofereço narrativas e, por meio delas, uma face humana, uma companhia humana, certo de que esse é o melhor começo para tudo.
Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros

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