Escrito por Neo Mondo | 7 de outubro de 2019
Aplicação
Quanto à aplicação dos produtos biológicos (e também dos químicos), um dos principais itens a serem observados é a dose indicada pelo fabricante. Se o produtor utilizar uma dose menor que a recomendada no intuito de economizar produto, o biodefensivo, da mesma forma que o produto químico, não funcionará adequadamente. É como o caso do médico que prescreve uma medicação para ser administrada a cada oito horas e o paciente só o faz uma vez ao dia – a dose será menor e o medicamento não fará o efeito desejado.
Além de ter que ser usado na dose recomendada, o produto biológico deve ser de alta qualidade. Produtos à base de fungos ou de bactérias precisam estar viáveis, ou seja, em ótimas condições de causarem a doença no inseto-praga que se quer controlar. A viabilidade precisa estar, geralmente, acima de 80%, índice que deve ser garantido pelo fabricante e verificado em laboratórios credenciados pelo MAPA.
Escolhido o produto adequado e definido o momento exato para aplicá-lo, o produtor deve, ainda, atentar-se para o uso correto da tecnologia de aplicação. Não adianta ter o melhor biodefensivo, a melhor formulação e um agente biológico bem virulento se a aplicação for malfeita – nesse caso, todo o investimento será jogado fora.
É possível realizar um ensaio preliminar simples e de baixo custo para calibrar o equipamento pulverizador antes da aplicação do produto biológico ou químico. Basta utilizar água pura e papel sensitivo à água, disponível nas revendas de produtos agropecuários ou na internet. O papel amarelo muda para a cor azul onde houver contato com produtos à base de água.
No ensaio, pedaços do papel são colocados na lavoura, nos mesmos locais onde a praga tem preferência, devendo receber, no mínimo, entre 20 e 30 gotas por cm² para confirmar a aplicação da quantidade adequada do produto. Se a quantidade de gotas por cm² for inferior a essa faixa, significa que a regulagem do pulverizador não está adequada e que o produto seria aplicado em quantidade insuficiente para controlar a praga. Quantidades excessivas de gotas, por outro lado, indicam desperdício do produto.
Assim como para os produtos químicos, também vale a recomendação de aplicar os biodefensivos nos horários de temperatura mais amena e com menos sol. O ideal é proceder as aplicações no final da tarde, durante a noite ou ao amanhecer.
Iniciantes
Para quem deseja iniciar o uso do controle biológico, são importantes alguns esclarecimentos sobre o funcionamento, o tipo de controle e como ele deve ser aplicado. O ideal é que o produtor comece numa pequena área da propriedade para que não corra riscos desnecessários, já que ainda não está familiarizado com a tecnologia.
Por exemplo, se a área de lavoura é de 500 hectares, ele poderia começar com 50 hectares, mantendo os procedimentos habituais nos outros 450 hectares. Ao final da colheita, ele poderá comparar as produtividades. Se forem as mesmas, o resultado já terá sido positivo, pois houve manutenção da produtividade na área com controle biológico sem causar prejuízos ao meio ambiente nem deixar resíduos nos alimentos.
Recomenda-se, portanto, que o produtor utilize o controle biológico aos poucos, até porque não é apenas ele quem precisa se familiarizar com a tecnologia, mas também os empregados da fazenda que serão os responsáveis pelas aplicações no dia a dia. Assim, no ano seguinte, o produtor exemplificado pode passar a usar o controle biológico em 100 hectares, aumentando a área de utilização ao longo das safras até alcançar a área total cultivada.
Informações
O controle biológico pode ser feito em pequenas, médias e grandes áreas com o mesmo procedimento e tomando-se os mesmos cuidados. No Brasil, o maior volume de vendas de produtos biológicos é atualmente destinado a grandes e médios produtores. A participação menos expressiva dos pequenos produtores no mercado de biodefensivos se deve mais à falta de informação que à menor capacidade financeira. Geralmente, grandes e médios produtores sabem onde buscar a tecnologia e contam com o auxílio de profissionais capacitados. No caso dos pequenos produtores, a tecnologia é acessada por meio de serviços de assistência técnica e extensão rural, nem sempre disponíveis.
Com relação à escolha do produto adequado, uma fonte confiável de informações na internet é a plataforma Agrofit (agrofit.agricultura.gov.br), do MAPA. O Agrofit reúne informações atualizadas sobre todos os produtos biológicos e químicos registrados, como indicação de uso, dose recomendada, técnicas de aplicação e as bulas.
Quanto mais o produtor buscar esclarecimentos e capacitações, maior será sua capacidade de escolha dos melhores produtos e nas melhores formulações. Às vezes, pagar um pouco mais por uma formulação superior vale mais a pena que comprar um produto mais barato, com formulação inferior.
Por fim, cabe uma observação quanto ao uso de produtos “caseiros”, produzidos nas fazendas, e não em fábricas especializadas, que contam com ambiente isolado, condições assépticas e pessoal treinado. Geralmente, esses produtos apresentam contaminação, principalmente por bactérias, devido a condições inadequadas de assepsia do local de produção do agente biológico (fungos, bactérias ou vírus, entre outros).
É um modismo desaconselhável, pois apesar de o produto caseiro até poder funcionar razoavelmente nas primeiras aplicações, a contaminação no local da produção tende a aumentar, enquanto o resultado no campo tende a ser zero, sem falar no aumento do risco da ocorrência de bactérias causadoras de doenças no ser humano, como diarreia e até endocardite, conforme já comprovado em pesquisas científicas conduzidas pela Embrapa.
Ao seguir essas recomendações e buscar mais conhecimento, o produtor estará contribuindo para o aumento do uso adequado do controle biológico de insetos-praga, beneficiando toda a sociedade. No longo prazo, a adoção desse método pode levar à diminuição dos resíduos químicos nos alimentos, da contaminação do meio ambiente e das intoxicações dos trabalhadores rurais.
*Roberto Alves é pesquisador da Embrapa Cerrados
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