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Metade da conta: como o Brasil celebrou um recorde amazônico sem mencionar o Cerrado

Escrito por Neo Mondo | 19 de junho de 2026

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Metade do problema ambiental brasileiro continua fora dos holofotes, enquanto o Cerrado perde vegetação, água e espaço para a expansão agrícola - Foto: Amanda Perobelli/Reuters (desmatamento no Cerrado)

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO PORTAL NEO MONDO

O anúncio e o dado que ficou de fora: como o Brasil celebra um recorde amazônico enquanto o Cerrado registra seu segundo pior primeiro trimestre em série histórica

No dia 11 de junho de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou na sede da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, em Brasília, diante de câmeras e microfones de dezenas de veículos nacionais e internacionais. O dado que ele apresentou era real: entre agosto de 2025 e maio de 2026, as áreas sob alerta de desmatamento na Amazônia Legal haviam recuado 37,5% em comparação ao ciclo anterior, segundo o sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, foi ainda mais enfático: havia expectativa de que 2026 registrasse a menor taxa de desmatamento da série histórica na Amazônia. A plateia registrou o anúncio. A imprensa reproduziu os números. O Cerrado não foi mencionado.

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No mesmo período que o governo selecionou para o anúncio positivo, o Cerrado apresentava dinâmica oposta. Apenas no primeiro trimestre de 2026, a destruição do bioma aumentou 15% em relação ao mesmo período do ano anterior, com 1.466 quilômetros quadrados derrubados. Foi o segundo pior primeiro trimestre da série histórica, superado apenas pelo início de 2024. Esses dois fatos pertencem ao mesmo país, ao mesmo governo e ao mesmo mês. A distância entre eles não é geográfica. É narrativa.

Entender por que Amazônia e Cerrado ocupam posições tão distintas na agenda ambiental brasileira exige examinar algo que vai além da floresta e da savana. O Cerrado é o bioma do Matopiba. É onde o agronegócio brasileiro construiu sua mais recente e mais lucrativa fronteira, com lavouras de soja, milho e algodão em extensões que não têm paralelo no hemisfério sul. O bioma responde por 60% da produção agrícola do país. Nenhum governo, de nenhuma coloração, encontrou ainda a equação política para protegê-lo no mesmo grau em que protege a Amazônia sem enfrentar as bancadas que financiam eleições e movem exportações.

O resultado é uma assimetria regulatória que tem consequências objetivas. O Código Florestal exige que propriedades rurais na Amazônia Legal preservem 80% da vegetação nativa. No Cerrado, o limite é 20%. Essa diferença não foi definida por dados ecológicos. Foi definida por poder. O Cerrado é menos fotogênico, menos conhecido fora do Brasil, menos eficaz como símbolo em negociações comerciais internacionais. Quando o regulamento europeu de desmatamento entra em vigor e pressiona exportadores brasileiros a demonstrar rastreabilidade, o foco recai sobre a soja ligada ao desmatamento da Amazônia. O Cerrado, que produz mais soja e perde mais vegetação por hectare cultivado, permanece fora do enquadramento principal.

O sistema Deter, que o governo usou para anunciar a queda amazônica, registra os dois biomas com a mesma metodologia. Os dados do Cerrado estão no mesmo relatório. Não foram ocultados. Foram simplesmente subtraídos da narrativa que o Brasil exporta para si mesmo e para o mundo. Isso não é uma acusação de má-fé. É um diagnóstico de seletividade estrutural: quando um bioma tem menos valor simbólico e mais valor econômico imediato, os instrumentos de comunicação política tendem a silenciá-lo na mesma proporção.

Há, contudo, uma dimensão que torna esse silêncio ainda mais problemático do que a assimetria regulatória. O Cerrado não é apenas um bioma de produção. É o principal regulador do ciclo hidrológico do Brasil continental. Oito das doze principais bacias hidrográficas do país nascem ali. A recarga dos aquíferos Guarani e Urucuia depende da vegetação nativa que a expansão agropecuária remove. Quando o Cerrado perde 1.466 quilômetros quadrados em um trimestre, não está apenas perdendo biodiversidade. Está perdendo a capacidade de repor a água que a própria agricultura que avança sobre ele vai precisar nas próximas décadas.

A contradição que o anúncio de 11 de junho não nomeou é, portanto, mais profunda do que a diferença entre um bioma que melhora e outro que piora. É a contradição de um modelo produtivo que destrói, em um lugar, a infraestrutura hídrica da qual depende em outro. O Rio São Francisco nasce no Cerrado. O Pantanal, que já atravessou suas piores secas em décadas, é abastecido por rios que nascem no Cerrado. A Amazônia, cujo ciclo hidrológico foi descrito por Carlos Nobre como uma máquina de reciclagem de água continental, recebe parte de sua umidade de ventos que cruzam o Cerrado antes de chegar à floresta.

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Árvore-barriguda (Cavanillesia arborea), Parque Estadual de Terra Ronca, Guarani de Goiás-GO - Foto:André Dib

O recorde amazônico é real e merece registro. A queda de 37,5% nos alertas de desmatamento é resultado de políticas públicas consistentes, de investimento em monitoramento e de vontade política que por anos esteve ausente. Negar esse mérito seria desonesto. Mas comemorar metade da conta como se fosse a conta inteira é uma forma de ilusionismo que o Brasil não pode se permitir quando o período de seca está apenas começando, quando os focos de calor no Cerrado começam a subir, e quando 88% das bacias do bioma já registram redução de vazão. O dado que ficou de fora do discurso na OTCA não é um detalhe técnico. É a metade do problema.

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