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Escrito por Neo Mondo | 19 de junho de 2026
Florestas que parecem estáveis podem ser as que mais silenciosamente se esgotam - Foto: Ilustrativa/Magnific
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Há décadas, a ecologia aprendeu a ler a perturbação como sinal de alarme. Florestas em que espécies surgem e desaparecem rapidamente eram tratadas como sistemas sob pressão. Florestas estáveis, onde a composição de espécies permanecia constante ao longo do tempo, eram tomadas como sistemas saudáveis. Esse pressuposto orientou políticas de conservação, métodos de certificação de carbono florestal e indicadores de biodiversidade utilizados por organismos internacionais. Um estudo publicado em fevereiro de 2026 na revista Nature Communications, por Emmanuel Nwankwo e Axel Rossberg, da Queen Mary University de Londres, sugere que esse pressuposto pode estar errado de uma forma que tem consequências diretas para como o mundo mede, certifica e protege seus ecossistemas.
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A pesquisa analisou tendências de renovação local de espécies em escala global e identificou um padrão que contradiz a leitura convencional. A desaceleração na substituição de espécies no nível local, que pela lógica tradicional seria um sinal de equilíbrio, pode indicar precisamente o oposto: que a biodiversidade está sendo esgotada em escala regional mais ampla, enfraquecendo os processos que normalmente mantêm os ecossistemas dinâmicos e resilientes. A estabilidade observada não seria um produto da saúde. Seria um produto do empobrecimento.
O raciocínio que o estudo constrói exige cuidado para não ser mal interpretado. Perturbação intensa não é, em si, sinal de saúde. Ecossistemas em colapso também apresentam volatilidade extrema de espécies. O que Nwankwo e Rossberg propõem é mais sutil: que a desaceleração da renovação local, quando observada em contexto de aceleração das mudanças climáticas, pode ser lida como sinal de que o reservatório regional de espécies disponíveis para colonizar novos habitats está se reduzindo. A floresta local parece estável porque não há mais de onde vir as espécies que, em condições saudáveis, a manteriam em movimento. A estabilidade é, nesse caso, o sintoma de uma exaustão que opera em escala maior do que os instrumentos locais conseguem capturar.
Essa inversão tem implicações que vão muito além da teoria ecológica. Os principais sistemas de certificação florestal utilizados pelos mercados voluntários de carbono, incluindo aqueles que validam projetos em florestas tropicais da América do Sul, do Congo e do Sudeste Asiático, baseiam-se em inventários de espécies realizados em parcelas locais. A lógica é que a presença de um conjunto diverso de espécies, com composição estável ao longo do tempo, atesta a integridade do ecossistema. Se o que o estudo propõe estiver correto, essa lógica pode estar certificando como saudáveis exatamente as florestas que entraram em processo de empobrecimento silencioso.
A pergunta que os dados colocam não é se os projetos de carbono florestal têm valor. É se os métodos de verificação que os sustentam são capazes de distinguir entre floresta integra e floresta que parece íntegra porque os processos de renovação que delatariam seu estado já não têm matéria-prima para operar. Florestas onde a renovação desacelerou podem estar vendendo créditos de carbono calculados sobre a premissa de que seu estoque de biodiversidade é resiliente quando, na realidade, esse estoque está sendo silenciosamente reduzido em escala regional.
O contexto em que esse estudo emerge não é acidental. O período entre a COP15, em 2022, e a COP30, realizada em Belém em novembro de 2025, foi marcado por uma pressão crescente sobre países com florestas tropicais para apresentar evidências mensuráveis de conservação. O Marco Global de Biodiversidade estabeleceu a meta de 30% de áreas protegidas até 2030. Os mercados de carbono expandiram-se aceleradamente como mecanismo de financiamento da conservação. A procura por indicadores simples, verificáveis e escaláveis tornou-se intensa. O risco, que o estudo de Nwankwo e Rossberg ajuda a nomear, é que a pressa por métricas manejáveis tenha privilegiado indicadores locais que não capturam a dinâmica regional onde o empobrecimento efetivamente ocorre.
Para o Brasil, esse debate tem dimensão específica. O país detém a maior biodiversidade florestal do planeta e uma das maiores carteiras de projetos de carbono florestal certificado. Pesquisadores do Instituto Oceanográfico da USP e do IEA-USP já trabalham com modelos que tentam capturar dinâmicas de biodiversidade em escalas que transcendem o inventário local. O diálogo entre esse tipo de modelagem e os resultados que estudos como o de Nwankwo e Rossberg produzem será determinante para saber se os instrumentos que o Brasil usa para valorar suas florestas perante o mercado e a política internacional refletem o que está acontecendo dentro delas.
O pressuposto que orientou décadas de ecologia da conservação não estava errado. Estava incompleto. Florestas saudáveis podem ser perturbadas e florestas doentes podem parecer estáveis. A ciência começa a aprender a distinguir as duas coisas. O que ainda não está claro é se os mercados, os governos e os organismos multilaterais têm velocidade e vontade para atualizar seus instrumentos antes que a diferença entre uma floresta que vive e uma floresta que parece viver se torne, também ela, irreversível.
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