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O tubarão sabe o que fizemos

Escrito por Neo Mondo | 2 de junho de 2026

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Tubarão e cidade dividem a mesma costa quando o desequilíbrio ambiental transforma o mar em território de risco - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Dois ataques em menos de 24 horas nas praias do Recife revelam décadas de destruição costeira — e um desequilíbrio que nenhuma placa de sinalização consegue reverter

No domingo, 1º de junho de 2026, um menino de 11 anos entrou no mar na praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco. Saiu sem a perna esquerda. No dia seguinte, uma jovem de 19 anos desceu à beira-mar em Boa Viagem, a poucos quilômetros dali. Perdeu o membro inferior direito. Dois ataques em menos de 24 horas, duas amputações, dois estados graves na UTI do Hospital da Restauração — e um número que já não surpreende quem acompanha a costa pernambucana: o 84º incidente com tubarões registrado no estado desde 1992, segundo o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit). Setenta dessas ocorrências se concentram no Grande Recife. Quatorze, em Fernando de Noronha.

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A pergunta mais óbvia — por que tantos ataques neste trecho de litoral? — tem uma resposta que o poder público brasileiro prefere não formular em voz alta. Não é sobre os tubarões. É sobre o que foi feito com o mar.

Até junho de 1992, nenhum ataque de tubarão havia sido documentado nas praias do Recife. O marco zero não é biológico — é uma data de obra. O Complexo Portuário de Suape, erguido nas décadas de 1980 e 1990 a cerca de 40 quilômetros ao sul da capital pernambucana, alterou de forma irreversível a ecologia costeira da região. Para viabilizar o porto, foram destruídos 600 hectares de manguezal, conforme levantamento da Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH). Dois rios — o Merepe e o Ipojuca — foram estrangulados, com suas áreas estuarinas deslocadas para a praia de Gaibu. A brecha aberta nos recifes de coral que protegiam a baía — cerca de 300 metros — alterou o regime de correntes ao longo de todo o litoral sul metropolitano.

A consequência ecológica foi direta. O tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas), espécie que utiliza estuários e manguezais como berçário e zona de reprodução, perdeu seu habitat histórico em Suape. Forçado a se deslocar para o norte, o animal encontrou no estuário do Rio Jaboatão — e nas praias de Boa Viagem e Piedade — um ambiente alternativo, ainda que degradado. "O problema não é o número de tubarões na região do Recife, que não seria muito diferente do de outras capitais do Nordeste onde há bem menos ataques", disse Rosangela Lessa, ex-presidente do Cemit e pesquisadora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). "O comportamento dos animais parece estar alterado pela degradação dos ecossistemas costeiros e por outras alterações ambientais da região."

Há uma razão geomorfológica que amplifica o risco. Um canal submarino profundo corre paralelo à linha de costa pernambucana — passa pelo Pina, corta Boa Viagem, segue por Piedade até Candeias. Esse canal funciona como uma via expressa subaquática: quando a maré sobe, facilita o avanço dos tubarões para águas rasas, para dentro dos recifes, para onde os banhistas estão. Quase 80% dos incidentes documentados ocorreram exatamente nessas praias, segundo estudos do pesquisador Fábio Hazin e colaboradores, publicados em 2008.

O tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier) também protagoniza os ataques em Pernambuco. Ao contrário do cabeça-chata, não depende de estuários para se reproduzir — mas é oportunista e generalista, e come o que encontra. O que encontra no litoral metropolitano do Recife é abundante, por razões que revelam muito sobre o estado do saneamento urbano brasileiro. O Rio Jaboatão carrega esgoto doméstico, resíduos industriais e, historicamente, efluentes de matadouros — um acúmulo de matéria orgânica que atrai tubarões para a foz, a poucos metros de onde crianças entram no mar. Mariana Azevedo, coordenadora do Núcleo de Pesquisa Fábio Hazin da UFRPE, incluiu entre os fatores de risco "o crescimento dos índices de esgoto lançados clandestinamente no mar". A salinização dos estuários — agravada pela seca estrutural no Nordeste, ela própria reflexo do aquecimento global — reduz ainda mais a capacidade desses ambientes de funcionar como zonas-tampão entre a vida marinha e a presença humana.

Há um paradoxo que torna a situação difícil de comunicar ao público: os tubarões estão, globalmente, em colapso. Um estudo publicado na revista Nature em 2021, que analisou 31 espécies oceânicas, documentou uma queda de 71% na abundância de tubarões e raias desde 1970 — resultado de uma pressão pesqueira que cresceu 18 vezes no mesmo período. Três quartos dessas espécies são hoje consideradas ameaçadas de extinção pela UICN. Gavin Naylor, diretor do Programa de Pesquisa de Tubarões do Museu de História Natural da Flórida, afirmou que os animais não estão mais violentos nem mais numerosos — pelo contrário. "Quando há mais ataques, muitas vezes significa que mais pessoas estão passando tempo na água, não que os tubarões tenham se tornado mais perigosos."

Mas o litoral de Pernambuco é um caso à parte dessa tendência global. Aqui, a concentração de encontros fatais não reflete proliferação — reflete compressão. Quando se destroem 600 hectares de manguezal, quando se desvia o curso de dois rios, quando se lança esgoto sem tratamento em um canal marinho que corta praias urbanas, não se afasta o tubarão. Empurra-se para perto. O Brasil registra a maior taxa de letalidade por ataques de tubarão do mundo — 30% dos incidentes resultam em morte, frente a 1% nos Estados Unidos e 14% na Austrália — em grande medida porque os ataques ocorrem em águas rasas, perto de áreas urbanas precárias, distantes de atendimento médico imediato.

A resposta do Estado ao problema é reveladora. O Decreto Estadual nº 21.402, em vigor desde 1999, classifica como área de risco o trecho que vai de Olinda a Jaboatão, passando pelo Recife — 36 quilômetros de litoral sob alerta permanente. Em janeiro de 2025, o governo de Pernambuco instalou 150 novas placas de sinalização ao longo dessa faixa. As duas vítimas desta semana estavam em áreas cobertas pelo decreto. A placa sinalizava o perigo. O menino de 11 anos e a jovem de 19 entraram no mar assim mesmo — não por temeridade, mas porque nenhuma política pública tratou da origem do risco que as placas anunciam. Avisar sobre o perigo sem eliminar sua causa é administrar o sintoma, não a doença.

O pesquisador Jonas Rodrigues, da UFRPE, formulou a questão com precisão: "Mais de 90% de todos os organismos que habitam a região marinha usam o manguezal pelo menos uma vez na vida para se reproduzir ou se alimentar. É o caso do tubarão-cabeça-chata. A degradação provoca um desequilíbrio ambiental." Recife aterrou rios e manguezais em nome da modernização. Hoje, menos de 2,4% da superfície do centro urbano da cidade são cobertos por mangue. O projeto de pesquisa e monitoramento Protuba, coordenado por Fábio Hazin até sua morte em 2021, conseguiu reduzir em cerca de 90% a incidência de ataques durante o período em que operou em escala plena — usando espinhéis de proteção e interceptação das rotas migratórias dos animais. Sem continuidade institucional, os números voltaram a crescer.

A cronologia dos ataques em Pernambuco deixa evidente algo que raramente se diz com esta clareza: o problema não começou quando o tubarão mordeu. Começou quando a retroescavadeira entrou no manguezal. Quando o esgoto da cidade foi canalizado para o mesmo estuário onde a fêmea do cabeça-chata vem depositar seus filhotes há milênios. Quando se decidiu que porto e modernidade tinham precedência sobre a integridade de um ecossistema que sustentava, em silêncio, o equilíbrio entre o mar e a costa. O menino de 11 anos e a jovem de 19 internados na UTI do Hospital da Restauração são as últimas vítimas de uma longa cadeia de decisões — algumas tomadas décadas antes de eles nascerem. O tubarão não mudou. O mar que nós fizemos, sim.

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