Dia Internacional da Biodiversidade 2026
Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026
Extinção não é um evento. É um processo que corrói, pouco a pouco, a teia da vida - Foto: Ilustrativa/Magnific
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Nas últimas décadas, a taxa de extinção de espécies acelerou a um ponto que os paleontólogos reconhecem: estamos dentro de um episódio de extinção em massa. A diferença em relação às cinco anteriores registradas no registro fóssil é que desta vez o agente não é externo. É uma espécie que, ao mesmo tempo, destrói e monitora o processo, produz relatórios científicos sobre a velocidade do colapso enquanto mantém as estruturas econômicas que o aceleram.
Em 2019, a Plataforma Intergovernamental Científico-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) publicou a avaliação global mais abrangente já realizada sobre o estado da vida na Terra. A conclusão não deixava margem para interpretação seletiva: aproximadamente um milhão de espécies animais e vegetais enfrentam o risco de extinção, muitas delas já nas próximas décadas. Foi a primeira vez que um organismo científico de alcance equivalente ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) atribuiu um número — verificável e metodologicamente rastreável — naquilo que especialistas chamavam, até então, de sexta extinção em massa.
O número passou. O noticiário seguiu em frente.
Não é uma questão de negacionismo. É algo ainda mais insidioso: a extinção de espécies carece de dramaturgia imediata. Não há imagem equivalente à do furacão, ao derretimento da calota visível por satélite, ao termômetro que quebra recordes em série. O desaparecimento de um besouro polinizador no Cerrado não interrompe o fluxo de informações. O colapso de uma comunidade de fungos micorrízicos no solo amazônico não aparece nos gráficos de bolsa. A extinção funcional de populações de anfíbios em regiões de altitude não aciona comunicados de crise nas salas de reunião.
Esse hiato entre escala e percepção é, em si, um dado analítico. Ele revela que a capacidade humana de processar risco está calibrada para ameaças que se apresentam como eventos — não como processos. A perda de biodiversidade é um processo. Silencioso, não linear, com limiares de irreversibilidade que não obedecem à lógica do comunicado de imprensa.
O relatório do IPBES de 2019 documentou que 75% da superfície terrestre do planeta já foi significativamente alterada pela ação humana. Mais de um terço da área marinha também. A taxa atual de extinção de espécies é estimada entre dez e cem vezes superior à média dos últimos dez milhões de anos, dependendo do grupo taxonômico e do método de estimativa. Vertebrados que levaram entre dez e quinze mil anos para evoluir estão desaparecendo em décadas.
As consequências não são abstratas. O IPBES identificou cinco motores diretos da perda de biodiversidade: mudança no uso da terra e do mar, exploração direta de organismos, mudança climática, poluição e introdução de espécies exóticas invasoras. Esses cinco vetores não operam de forma independente — eles se retroalimentam. A conversão de vegetação nativa em monocultura reduz a capacidade do solo de reter carbono, acelera a mudança climática, pressiona espécies já fragmentadas em seus habitats, reduz a resiliência dos ecossistemas e amplifica os efeitos de eventos climáticos extremos sobre a produção agrícola.
O que as análises de risco sistêmico ainda tratam como externalidade ambiental é, na verdade, a estrutura de suporte da economia real. A valoração dos serviços prestados pelos ecossistemas ao sistema econômico global foi estimada, por diferentes metodologias, entre 125 e 140 trilhões de dólares por ano — mais do que o PIB mundial. Não como metáfora. Como fluxo mensurável de regulação climática, produção de água potável, fertilidade do solo, controle biológico de pragas e polinização de culturas.
Quando esse fluxo diminui — e ele está diminuindo, de forma mensurável, em todos os biomas — a conta não aparece primeiro nos relatórios ambientais. Aparece nas projeções de produtividade agrícola, nos custos de purificação da água, nos seguros contra eventos climáticos extremos e na vulnerabilidade das cadeias produtivas globais.
O número de um milhão de espécies ameaçadas não é uma declaração moral. É um indicador de risco sistêmico que ainda não encontrou seu equivalente na linguagem com que o mercado e a política pública precificam o futuro.
Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

A biodiversidade é o maior ativo estratégico nacional
Índice + As Vozes da Biodiversidade