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Escrito por Neo Mondo | 1 de julho de 2026
Cidade onde o mar venceu o concreto - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
O muro custou R$ 40 milhões e durou oito anos. O mangue que existia ali antes durou quatro séculos. Essa é a aritmética que abre a série que passo a produzir a partir de agora, e é também a aritmética que resume por que decidi escrevê-la: em Atafona, no norte fluminense, os moradores aprenderam da pior forma possível que o concreto tem prazo de validade e a natureza, não. Nesta terça-feira, dia 30, a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza divulgou as cinco propostas vencedoras da sexta edição do Edital Conexão Oceano de Comunicação Ambiental — e "A cidade que aprendeu a ceder ao mar" está entre elas. O que era, até ontem, um projeto de três reportagens cuidadosamente desenhado, ganha agora orçamento, prazo e o peso institucional de uma bolsa de jornalismo internacional.
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A série nasceu de uma recusa. Recusei escrever mais um texto explicando o que são Soluções Baseadas na Natureza como se fossem novidade técnica, uma tendência recente a ser apresentada ao leitor. Porque não são. O ecossistema sempre foi a infraestrutura — o muro é que foi o erro, um desvio de rota de poucas décadas que estamos pagando caro. É esse o fio que atravessa os três episódios: o confronto entre engenharia dura, os diques e enrocamentos que prometeram conter o Atlântico, e a engenharia viva dos manguezais, restingas e dunas que já vinham fazendo esse trabalho havia séculos, sem pedir orçamento. O primeiro episódio parte de Atafona, onde o mar engoliu casa por casa a cidade que o poder público jurou proteger com concreto. O segundo se desloca para Santos, onde restauração de manguezais entra no planejamento urbano em meio à resistência da especulação imobiliária — o recuo que parece rendição, mas talvez seja a decisão mais racional que uma cidade costeira pode tomar. O terceiro encerra em Corumbau, na Bahia, onde mais de uma década de convivência com ecossistemas preservados já produz dados concretos: metros de erosão contidos, eventos extremos amortecidos, qualidade de vida mensurável. A pergunta que fecha a série é dirigida a quem decide: se já sabemos o que funciona, por que ainda construímos muros?
Apurar essa história vai exigir o que qualquer boa reportagem de fôlego exige — tempo, deslocamento e interlocutores de peso. Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da USP e referência nacional em governança costeira e Década do Oceano, e Dieter Muehe, geomorfólogo da UFRJ e maior autoridade brasileira em erosão costeira, estão entre as fontes que vão ajudar a traduzir dados do CEMADEN, do IBGE e do IBAMA em um retrato preciso do que está em jogo nas três cidades. Mas os dados só ganham sentido quando confrontados com quem vive a erosão em primeira pessoa: moradores deslocados, gestores municipais que apostaram na natureza contra o senso comum político, pescadores que viram a maré — literalmente — virar. Publicar essa série entre julho e outubro deste ano, dentro do prazo estabelecido pelo edital, significa também publicá-la no momento exato em que o Brasil segue processando os efeitos da COP30, realizada em novembro passado em Belém, o que deve ampliar o interesse de gestores públicos e investidores ESG por reportagens que tratem adaptação costeira como pauta central e não coadjuvante.
Entre 94 propostas inscritas — recorde histórico do edital, vindas de jornalistas de todas as regiões do país —, a seleção de "A cidade que aprendeu a ceder ao mar" confirma algo em que venho apostando desde que fundei o Neo Mondo: existe espaço, e há audiência qualificada, para um jornalismo socioambiental que trata o litoral brasileiro não como pano de fundo, mas como personagem principal de sua própria adaptação. É uma honra dividir essa seleção com colegas de trajetória sólida no jornalismo ambiental brasileiro: Alice Martins Morais, do ((o))eco; Luiza Fernandes Coelho, do g1 Maranhão, TV Mirante e Imirante; Mauren Luc Setim Ohashi, da revista Super Interessante; e Rafael de Carvalho Cardoso, da Agência Brasil. Juntas, as cinco propostas formam um retrato plural do litoral brasileiro — em rádio, TV, revista, agência pública e portal digital — e do interesse crescente por um jornalismo que trate a adaptação costeira com a seriedade que o tema exige.
Omar Rodrigues, gerente sênior de Engajamento, Comunicação e Relações Institucionais da Fundação Grupo Boticário, resumiu bem o momento ao comentar o volume recorde de inscrições: para ele, cresce o interesse em discutir como a conservação de manguezais, restingas e recifes de corais pode ser estratégia central de adaptação climática e de bem-estar para as cidades costeiras. É exatamente esse cruzamento — entre ciência, política pública e vida cotidiana no litoral — que os próximos meses de apuração vão me permitir aprofundar.
Ao Neo Mondo, essa conquista chega como validação de um método: apurar fundo, ouvir quem vive o problema antes de citar quem o estuda, e nunca simplificar a complexidade de uma cidade que precisa, literalmente, reaprender sua relação com o mar.
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