Escrito por Neo Mondo | 7 de outubro de 2019
LEGENDA - FOTO - © WWF-Brasil / Eduardo Aigner
Os conflitos de terra se multiplicam, frequentemente com violência, e nesse ritmo, o Cerrado está ameaçado de extinção maciça de espécies de plantas. Essa destruição também dificulta a capacidade dos solos e da vegetação de captar e armazenar água e de sequestrar carbono. Desmatar o Cerrado significar liberar 250 milhões de toneladas de carbono por ano, correspondendo às emissões anuais de 53 milhões de carros. Devido a mudanças na temperatura do solo e na evaporação, a conversão maciça do Cerrado também afeta diretamente o regime local de chuvas, impactando a produção agrícola com crescente frequência. A desestabilização desse complexo ecossistema pode levar a um ciclo irreversível de degradação que afeta não apenas o Cerrado e uma região vital para a produção de alimentos, mas também biomas vizinhos, incluindo a Amazônia e o Pantanal – tudo isso contribuindo para o aquecimento global acelerado e para condições climáticas extremas, com impactos econômicos e humanos graves.
Apesar deste quadro, ainda é possível salvar o Cerrado. Há terras degradadas suficiente na região para triplicar a produção de soja e, consequentemente, atender à demanda global de soja e carne prevista para os próximos 50 anos - sem devastar mais nenhum hectare. Por meio de uma agricultura mais sustentável, essas terras podem ser restauradas, incorporando a produção de soja e carne livre de conversão sem comprometer a segurança alimentar e desenvolvimento social e econômico do país.
E estamos fazendo avanços reais. O WWF e seus parceiros estão engajando toda a cadeia de suprimentos de soja, desde empresas consumidoras a comerciantes e produtores brasileiros, em um esforço voluntário em todo o setor para impedir a destruição de habitats.
Em 2017, ajudamos a lançar o Manifesto do Cerrado. Trata-se de um apelo aos produtores, varejistas e comerciantes de soja para que se comprometam em produzir com zero conversão ou desmatamento do habitat do Cerrado. Mais de 130 empresas e instituições financeiras globais ouviram esse chamado e apoiaram o Manifesto formalmente, incluindo nomes familiares como Tesco, Marks & Spencer, McDonald’s e Unilever. Agora, o WWF e seus parceiros estão engajando ativamente essas empresas, a indústria brasileira e os produtores brasileiros para transformar esses compromissos em realidade.
Com o apoio do Projeto Colaboração para Florestas e Agricultura, financiado pela Fundação Gordon e Betty Moore, estamos ajudando a identificar ações efetivas que possam “limpar” as cadeias de suprimentos. Esse esforço também está se espalhando para a região do Gran Chaco, outro bioma altamente ameaçado na Argentina e no Paraguai, por meio de um melhor gerenciamento da cadeia de suprimentos de carne bovina.
Estamos ajudando os produtores a melhorar o manejo de pastagens cultivadas e a converter parte das pastagens em áreas de cultivo para restaurar solos degradados, reduzir o uso de fertilizantes e fixar o carbono no subsolo. Além disso, cooperamos com instituições financeiras e com o mercado de varejo para oferecer crédito favorável e outros incentivos financeiros concretos aos produtores que concordarem com a expansão em terras degradadas em vez de Cerrado nativo.
Por fim, estão sendo desenvolvidas ferramentas para garantir transparência e aderência aos compromissos das empresas. O Accountability Framework fornece princípios, definições e diretrizes claros para a implementação de cadeias de suprimentos éticas e para a disseminação da produção sem conversão como requisito básico para todos os produtos agrícolas e florestais. Isso significa tornar a expansão da produção para os últimos habitats naturais remanescentes (e em áreas de comunidades indígenas e tradicionais) social, política e financeiramente inaceitável.
Trabalhando com agricultores, empresas, financiadores e governos, podemos salvar o Cerrado. Estamos no caminho para uma paisagem mais resiliente, produtiva, inclusiva e sustentável, assegurando a sobrevivência de dezenas de culturas locais, milhares de espécies e serviços ecossistêmicos essenciais e impedindo que bilhões de toneladas de carbono sejam liberados na atmosfera.
Mas parar a maior fronteira de destruição de habitats do mundo seria apenas um passo inicial no longo caminho em prol de um futuro abaixo de 1,5 ºC, no qual biodiversidade, segurança alimentar, direitos humanos e bem-estar se unem em sinergia. Ao aprendermos com essa experiência, podemos testar e adaptar soluções concretas para restaurar e proteger campos, savanas e outros ecossistemas ameaçados em todo o mundo, como parte de um Novo Acordo para a Natureza e as Pessoas.
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