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Escrito por Neo Mondo | 31 de outubro de 2025
Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Questionários elaborados pela SIS mapeiam impactos e oportunidades desse setor mediante avaliação de desempenho climático e socioambiental de imóveis rurais e empresas da cadeia de produção
A Associação Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS) lançou hoje Questionários para Avaliação de Desempenho Climático e Socioambiental voltados aos setores de Agricultura, Pecuária bovina (de corte e leiteira), Silvicultura e Manejo Florestal. A ideia é que essa ferramenta seja aplicada por instituições financeiras e outras corporações interessadas em identificar riscos e oportunidades em suas operações e cadeias produtivas, nos diversos elos que integram o agronegócio – tanto imóveis rurais quanto empresas.
Na prática, as instituições financeiras terão condições de mapear os riscos e as oportunidades nos setores de agricultura, pecuária e florestas com relação aos critérios ASG, podendo comparar de forma objetiva o desempenho de imóveis rurais e empresas que operam no mesmo setor e na mesma região, como explica Luciane Moessa, Diretora Executiva e Técnica da Associação Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS). "Isso pode ser usado nas decisões sobre concessão de crédito, investimentos e contratos de seguros, lembrando que há cada vez mais dados que demonstram que o desempenho socioambiental e climático tem relação com a rentabilidade, notadamente no agronegócio e sobretudo quando se raciocina a médio e longo prazo.”
Os questionários foram desenvolvidos a partir de um amplo mapeamento de padrões globais e nacionais de sustentabilidade, desenvolvidos por IFC (International Finance Corporation), SASB (Sustainability Accounting Standards Board), GRI (Global Reporting Initiative), EFFAS (European Federation of Financial Analysts Societies), ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU), IFRS (S1 e S2), TNFD (Taskforce on Nature-related Financial Disclosures), ENCORE (Exploring Natural Capital Opportunities, Risks and Exposure), ODS, SBTI (Science Based Targets initiative) e CBI (Climate Bonds Initiative), além de normas brasileiras como o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) e a Instrução Normativa IBAMA nº 22/2021, que trata da regulamentação do Relatório Anual de Atividades Potencialmente Poluidoras e Utilizadoras de Recursos Ambientais (RAPP).
O trabalho também considerou as Taxonomias Verdes/Sustentáveis de todos os países que incluíram os setores agrícolas: África do Sul, Ruanda, Kênia, China, Singapura, Indonésia, Tailândia, Mongólia, Sri Lanka, México, Panamá, Colômbia, Paraguai, Chile, Austrália e União Europeia (esta última aplicável apenas ao setor florestal). A partir desse levantamento, a equipe técnica da SIS propôs novos indicadores que considerou necessários à luz da realidade do setor no país.
Além disso, foram separados os indicadores para os quais a localização é irrelevante (como emissões de gases de efeito estufa e saúde e segurança do trabalho) dos indicadores para os quais a localização é essencial (como impactos na biodiversidade terrestre e uso de recursos hídricos). “Hoje, no crédito rural, a localização das operações já é conhecida, por exigência da regulação, mas isso não ocorre no caso das demais operações de crédito com empresas do setor, e muito menos no mercado de capitais. E considerar o local é absolutamente crucial em qualquer avaliação de riscos climáticos físicos, riscos ambientais em geral e grande parte dos riscos sociais, como impactos em comunidades locais”, diz Luciane Moessa.
A separação de indicadores para imóveis rurais e para empresas da cadeia também é uma inovação da metodologia da SIS, pois a maioria dos padrões consultados os mescla, tornando pouco operacional a consulta para o setor financeiro, por exemplo. Foi elaborado também um questionário básico sobre cumprimento da legislação ambiental e social brasileira aplicável a cada segmento, que não substitui a verificação em fontes oficiais de informação, como órgãos ambientais estaduais, IBAMA, ICMBio, INCRA, FUNAI, Serviço Florestal Brasileiro, Ministério Público e Poder Judiciário.
Para Luciane Moessa, “essa ferramenta será útil para apoiar tanto empresas quanto o setor financeiro na avaliação de riscos e sobretudo na identificação de oportunidades para engajamento com os produtores rurais e empresas quando forem identificados pontos críticos em seu desempenho que precisam de melhoria, inclusive oferecendo linhas de crédito, por exemplo, ou apoio técnico para continuar o relacionamento comercial".
A metodologia e exemplos de questionários foram apresentados durante o 15º BIS – Bate-papo Inclusivo e Sustentável da SIS, conduzido por Luciane Moessa, e debatidos com Marco Fujihara (sócio-diretor da Aggrego Consultoria de Investimentos), Leila Harfuch (sócia-gerente da Agroícone e líder da Força-Tarefa de Finanças Verdes da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura) e Bruno Youssif (Diretor de Finanças Sustentáveis da IAgro).
Marco Fujihara explicou que um dos grandes desafios para que o setor financeiro financie cada vez menos iniciativas que gerem danos ao meio ambiente e financiem atividades com impacto positivo é entender a complexidade e a diversidade do agronegócio brasileiro. Ele comentou sobre os desafios que o setor financeiro enfrenta com questões fundiárias, por exemplo, o que ficou pior agora com o Decreto federal que adiou para 2029 a exigência de georreferenciamento das propriedades. “No caso do Cadastro Ambiental Rural (CAR), apenas cerca de 3% das propriedades de Minas Gerais estão validadas. As garantias do crédito rural, em geral, são hipotecárias – e sem o georreferenciamento não há como saber com precisão onde está a propriedade. Se quisermos criar novos instrumentos financeiros, é fundamental pensar de forma sistêmica no crédito, nas garantias e em como integrar esses elementos", afirmou.
Fujihara disse que é essencial entender a duração diferenciada dos ciclos da produção para cada produto. “A grande dificuldade do setor agrícola, seja de ciclo curto ou longo, está em compor um fluxo de caixa adequado. É essencial que o sistema financeiro compreenda essas diferenças e desenvolva instrumentos compatíveis com as dinâmicas reais do campo. Só assim poderemos financiar um agronegócio mais sustentável e eficiente", concluiu. Ele também salienta o papel das traders, que compram antecipadamente a safra, e das barters, que fornecem insumos, para o financiamento do setor agrícola, complementando o papel do crédito rural e do mercado de capitais.
Para Leila Harfuch, um dos principais entraves no caso da pecuária são os custos de transação e de monitoramento que crescem frente ao desafio de rastrear e acompanhar os ativos desse setor. “No caso da pecuária de corte, por exemplo, o financiamento normalmente se concentra na aquisição do animal, sem considerar a qualidade da pastagem onde ele será inserido”. Outro desafio, segundo ela, é como financiar o imóvel rural para que ele possa entrar, de fato, na jornada da sustentabilidade.
De acordo com ela, para garantir a sustentabilidade dessa cadeia, é preciso assegurar que todos os elos – do criador ao frigorífico – estejam comprometidos com práticas responsáveis. Até o Guia de Trânsito Animal (GTA), que é o instrumento oficial de controle, tem limitações, pois rastreia apenas por lote, sem distinguir a origem individual dos animais. “A falta de rastreabilidade amplia os riscos para o setor financeiro e para o mercado de capitais, que têm dificuldade em monitorar se determinado ativo é de fato sustentável. Isso eleva os custos de transação e afasta potenciais financiadores”. E conclui: “todos os setores – público, privado e financeiro – precisam ser agentes da mudança de comportamento socioambiental. Se continuarmos operando pela lógica da exclusão, criaremos apenas um mercado paralelo de degradação ambiental.”

Bruno Youssif encerrou o debate explicando que o agronegócio brasileiro enfrenta desafios estruturais que vão além do acesso ao crédito. A agricultura é altamente dependente de financiamento e falta informação qualificada e acesso a dados confiáveis, o que torna as operações desiguais e onerosas. As instituições financeiras, por sua vez, ainda operam com modelos frágeis, pois as ferramentas disponíveis se limitam a análises situacionais, voltadas a questões de conformidade, mas dizem muito pouco sobre o desempenho dentro das propriedades. “Quando deixamos de olhar para o manejo, perdemos a sensibilidade sobre como a produção é feita – e é justamente aí que está o coração da sustentabilidade", disse.
Ele afirmou que o setor precisa enxergar a economia verde como uma oportunidade de negócio – uma nova lógica de mercado capaz de atrair investimento, gerar renda e oferecer alternativas às atividades ilegais que ainda sustentam o PIB de muitas cidades na Amazônia. “Defendo uma ação combinada: políticas públicas que deem viabilidade econômica tanto para quem financia quanto para quem toma o crédito. O Brasil tem inúmeros produtos da sociobiodiversidade – açaí, castanha, cacau – que poderiam se beneficiar desse novo olhar, mas hoje ainda enfrentam gargalos logísticos e comerciais.”
Youssif defende ainda a necessidade da qualificação técnica, com profissionais capazes de analisar o risco de forma ajustada à realidade do campo. “O material gerado por ferramentas como os questionários da SIS pode ajudar muito nisso. Gosto da provocação que esses instrumentos trazem, porque nos obrigam a sair da lógica punitiva. Ao invés de negar crédito, devemos entender o que falta para o produtor alcançar as exigências necessárias. Precisamos mudar a mentalidade e usar o financiamento como ferramenta para premiar boas práticas e impulsionar a transição para uma agricultura sustentável.”
Durante o debate, Luciane Moessa também questionou se a avaliação de desempenho (e de legalidade) socioambiental e climático não poderá ser feita também para clientes, por parte das grandes empresas produtoras de insumos e suas revendas, por exemplo. Isso pode vir a ser uma demanda de investidores. Os questionários elaborados pela SIS estão disponíveis neste link.
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