COLUNISTAS Destaques Economia e Negócios Educação Oceano Política Saúde Segurança Sustentabilidade
Escrito por Alexander Turra | 22 de junho de 2026
Insustentável a promessa de riqueza rápida que transforma esperança em dependência, liberdade em ilusão e trabalho em perda. O preço das apostas quase nunca aparece na propaganda - Foto: Ilustrativa/Magnific
POR - ALEXANDER TURRA*
Diferentemente dos demais textos desta coluna, este não tem a ver diretamente com o oceano, mas sim com um aspecto fulcral que está na raiz da discussão sobre sustentabilidade. Falar de sustentabilidade significa falar sobre tudo o que a compromete. Normalmente tratamos de aspectos ambientais e econômicos, mas há elementos do espectro social que são fundamentais a serem considerados. Refiro-me à má distribuição de renda, à pobreza, à falta de educação e de perspectiva e às armadilhas que as agravam, como os onipresentes e opulentos sites de apostas online, amplamente conhecidos como bets.
Leia também: Horizontes Azuis: Neo Mondo dentro da COP30 com Alexander Turra
Leia também: O empresariado brasileiro ainda não aprendeu a nadar
As bets estão em todo lugar, a todo momento: nos comerciais da TV aberta e fechada, nas redes sociais, nas camisas da quase totalidade dos times de futebol brasileiros e na Copa do Mundo. Estão lá, seduzindo e aliciando, convidando para uma brincadeira pretensamente inofensiva. Estão lá, investindo fortunas em propaganda para venderem... Ops... Elas não vendem nada... Estão, sim, oferecendo a isca para aprisionarem aqueles predispostos a experimentar e, especialmente, aqueles susceptíveis a renunciar inconscientemente ao seu livre-arbítrio.
Publicado em 1984 pelo escritor tcheco Milan Kundera, o romance A Insustentável Leveza do Ser empresta ao presente texto não apenas a inspiração para o título, mas também o mote para o conflito que aqui se quer explorar: o paradoxo entre a liberdade, representada pela leveza, e a realidade, compreendida pela responsabilidade com que a vida e as relações na sociedade devem ser guiadas.
Esta obra remonta à década de 1980, quando a efervescência do rock nacional antecipou e pressionou o movimento de democratização, rompendo protocolos e tratando de temas até então sombreados por uma sociedade aparentemente saudável. Nessa época, o país sofria com a derrota da seleção dos sonhos para uma Itália blindada em sua defesa pelo goleiro Dino Zoff e armada em seu ataque pelo singularmente episódico Paolo Rossi. Sem grandes aspirações no futebol e ainda sentindo os efeitos da crise do petróleo na década passada, o país lidava com a hiperinflação que abocanhava os salários de todos.
Dentre as “válvulas de escape” e as muletas psicológicas, emergiam e se alastravam o tabagismo, o alcoolismo e o vício em jogos e apostas, estes últimos proibidos no Brasil. Jogo do bicho, máquinas de videopôquer, rinhas de galos e de cachorros e clubes clandestinos de carteado são exemplos de atividades que, à época, já sequestravam o dinheiro e a vida de pessoas que se viciavam. Embora permitido e glamourizado, o turfe, como são chamadas as corridas de cavalos, tinha o mesmo efeito.
Naquele momento, os primeiros computadores pessoais que surgiam (quem lembra do TK-2000?) antecipavam os smartphones atuais da era digital nos quais as apostas ganharam uma escala jamais imaginada há 40 anos. As bets estão nas mãos de cada pessoa, pulando na tela do celular a cada momento, sem que ninguém peça. Essa aparente liberdade conquistada pela democracia, pela conectividade e pela mobilidade está cobrando um preço muito alto.
Em 2023, as bets macularam até a camisa mais icônica de um time de futebol. Um time contra o qual ninguém torce: o moleque travesso, o Juventus da Mooca. Embora eu já tenha me libertado de uma velada norma social de ter que torcer para um time de futebol e deixado de me reduzir a uma dízima do IBOPE imiscuído entre os milhões de pessoas... ops... de alvos da propaganda, ainda jogo futebol de botão e meu time é o Juventus. Em 2024, outra empresa decidiu apoiar o Clube Atlético Juventus e concordou com uma situação surpreendente. Ironicamente, essa atitude, batizada de “patrocínio limpo”, foi adotada um ano após uma empresa de apostas ter sido a patrocinadora master do clube. Não colocar a marca na camisa, para não perder o simbolismo tanto da camisa quanto do clube e da comemoração do seu centenário, representou para mim uma mensagem de que tudo tem limite.
As bets estão na base de processos orquestrados que vilipendiam toda a sociedade: milhões de incógnitos que, seduzidos por fantasias etéreas e desarmados de sua autodeterminação por neurotransmissores marotos, mergulham em aventuras alucinadas em busca de algo que não é real. A dopamina enebria as pessoas em momentos de euforia e as desampara no momento seguinte, deixando sua marca inconteste. A dívida, o agiota, o roubo e a perda da dignidade, da família e da própria vida. Não é diversão. Não é entretenimento. Não é inofensivo. É uma armadilha que precisa ser desarmada. E aí vem o contraponto à liberdade mencionada por Kundera. No caso concreto, a responsabilidade do governo em zelar pela população.
As bets foram autorizadas no Brasil em 2018, mas, surpreendentemente, só foram regulamentadas em 2024, com o estabelecimento de normas tributárias e a determinação de que apenas empresas cadastradas e fiscalizadas pudessem operar no país, com o banimento das consideradas ilegais. Em 2026, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda solicitou o bloqueio de quase, pasmem, 50 mil sites de apostas ilegais, sob a responsabilidade de cerca de 350 operadores associados a diversas instituições financeiras. Essa proliferação de bets clandestinas assemelha-se ao frenesi da reprodução do palolo, um anelídeo poliqueta do Oceano Pacífico que se refestela em milhões de indivíduos em resposta às fases da Lua.
O combate às bets foi intensificado ainda mais. Possibilitado pela recém-criada Lei Antifacção (15.358/2026), um decreto do Governo Federal (13.033/2026) deu um passo adicional no cerco a essa neoplasia social. Esse decreto prevê o confisco, pelo governo, de recursos financeiros provenientes de bets ilegais e a transferência desses valores ao Fundo Nacional de Segurança Pública para serem utilizados no combate ao crime organizado. As entrelinhas desse decreto sugerem a possibilidade de uma relação entre as bets, a lavagem de dinheiro e o crime organizado, outro flagelo na sociedade brasileira.
Mas isso não basta... Enquanto as bets não forem banidas de vez do país, a propaganda delas deve ser incondicionalmente proibida. O Brasil já fez isso contra o tabagismo, outro carcinoma que ceifa vidas e gera custos altíssimos para o Sistema Único de Saúde. Nem nos carros de Fórmula 1, nem nos cowboys aparentemente vitalícios, nem no falso apelo de sugerir que todos tinham alguma coisa em comum, apesar da aparente capacidade de cada um ficar na sua. Não há mais incentivo ao tabagismo no Brasil a partir de 2000 com a proibição da propaganda de produtos derivados do tabaco em revistas, jornais, outdoors, televisão e rádio, do patrocínio de eventos culturais e esportivos e da associação do fumo às práticas esportivas. O resultado é que o tabagismo vem decaindo significativamente no país. Pode-se obter o mesmo efeito com os viciados em apostas.
Hoje, o país é refém das bets, o que limita sua capacidade de bani-las. A arrecadação de impostos contribui para o superávit primário e para o equilíbrio das contas públicas. Por isso, é necessário um movimento de massa potente para sustentar esse tipo de atitude. Já há campanhas nas redes sociais convocando as pessoas para esse fim, como a do “Block no Tigrinho”. Voltando a Kundera, essa é a realidade que exige responsabilidade para que possamos restaurar a liberdade e a leveza com que as pessoas devem viver. Não das bets.
Como mencionei anteriormente, a relação deste texto com o oceano é tênue, mas, com certa licença poética, pode se tornar contundente. Poder-se-ia dizer que o suor do trabalho das pessoas que labutam arduamente para ganhar salários modestos, que se desintegram nas apostas, e as lágrimas que as consequências disso geram nas famílias reféns desse infortúnio poderiam preencher um oceano inteiro. A riqueza das bets é insustentável. Falem sobre os prejuízos das bets! Boicotem as bets!

Alexander Turra é biólogo, educador, pesquisador e comunicador. Professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, dedica-se a promover a aproximação entre o oceano e a sociedade.

Sedimentos do Maranhão revelam que a corrente que regula o clima global não colapsa — ela oscila
O oceano como saída para a fome energética da inteligência artificial