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Escrito por Neo Mondo | 5 de setembro de 2026
Pele protegida na superfície e filtros solares que seguem para o recife logo abaixo da linha d'água - Imagem gerada por IA - Ilustração/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO
Pesquisadores da Escola Politécnica e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP publicaram na International Journal of Pharmaceutics uma revisão de 173 trabalhos sobre filtros ultravioleta com uma conclusão incômoda para a indústria da fotoproteção: o desenvolvimento de um protetor solar precisa responder, ao mesmo tempo, por segurança toxicológica, desempenho contra a radiação e destino dos componentes na água. O artigo saiu online em 4 de abril e integra a edição de 5 de maio de 2026. Assinam o trabalho Caroline de Melo Fantato e Jorge Alberto Soares Tenório, do Departamento de Engenharia Química da Poli, e André Rolim Baby, da FCF. A pesquisa está vinculada ao Laboratório de Reciclagem, Tratamento de Resíduos e Extração, o Larex, e ao SunLab Research Group, com apoio da Fapesp, CNPq e Capes.
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O peso da questão no Brasil é mensurável. O câncer de pele não melanoma segue como o tumor mais frequente no país, com 263 mil casos anuais estimados para o triênio 2026-2028, dentro de um total de 781 mil novos diagnósticos de câncer por ano. O Brasil ocupa o terceiro lugar mundial na categoria proteção solar, dentro de um setor de beleza e cuidados pessoais que faturou cerca de R$ 200 bilhões em 2025. "A radiação ultravioleta (UV) é um dos principais fatores ambientais associados a danos à pele", afirma Fantato, primeira autora do artigo. Não se trata de estética. Trata-se de prevenção.
A revisão desmonta a ideia de que todo filtro entrega o mesmo produto. Filtros orgânicos como a avobenzona se degradam sob a própria radiação que deveriam bloquear, e a perda de fotoestabilidade derruba a proteção ao longo da exposição. Há ainda a absorção sistêmica: estudos divulgados pela FDA em 2019 e 2020 mostraram que seis ingredientes químicos comuns, entre eles avobenzona, oxibenzona, octocrileno, homossalato, octissalato e octinoxato, entraram na corrente sanguínea em níveis maiores do que se supunha. Do lado inorgânico, dióxido de titânio e óxido de zinco têm baixa absorção, mas podem gerar espécies reativas de oxigênio sob irradiação, em intensidade que depende do tamanho de partícula, da morfologia, do tratamento de superfície, do estado de agregação e do pH da formulação.
O que sai do frasco não desaparece. Um projeto da UFSC em curso desde 2022 vem medindo essa passagem. As coletas ocorrem em oito pontos ao redor da Ilha de Santa Catarina, com análise de água do mar e de tecidos de peixes e ostras, e mostram concentrações maiores no verão e queda no inverno. O trabalho analisa 11 moléculas fotoprotetoras disponíveis no mercado e integra a tese de doutorado de Camila Pesenato Magrin, no Laboratório de Eletroforese Capilar e Cromatografia. Oxibenzona, octinoxato, homossalato e avobenzona são consideradas persistentes e de difícil degradação; só a oxibenzona aparece em mais de 3,5 mil produtos de proteção solar no mundo, segundo levantamento publicado no periódico Archives of Environmental Contamination and Toxicology. "Já foram detectados resíduos em tecidos de peixes, mexilhões e até em mamíferos marinhos", diz o coordenador do projeto, professor Gustavo Amadeu Micke.
A escala global foi estimada por uma revisão crítica de Anneliese Hodge, Frances Hopkins, Mahasweta Saha e Awadhesh Jha, do Plymouth Marine Laboratory e da Universidade de Plymouth, publicada em 2025 no Marine Pollution Bulletin. Os autores trabalham com uma liberação anual de 6 mil a 14 mil toneladas de filtros UV apenas em zonas de recife de coral. Ao menos 25% do produto se desprende durante o banho de mar, e uma praia com mil visitantes pode receber mais de 35 quilos de protetor por dia. A rota indireta é tão relevante quanto a direta. Chuveiro, máquina de lavar e urina levam os mesmos compostos às estações de tratamento, que não foram projetadas para removê-los. O volume que escapa por essa via foi quantificado por O'Malley e colegas em 2020, na Chemosphere, a partir dos efluentes de estações australianas.
O rótulo verde não resolve a equação. A própria revisão da USP cita o trabalho de Marcellini e colaboradores, de 2024, que registrou malformações e necrose tecidual em larvas do ouriço-do-mar Paracentrotus expostas a formulações com nanopartículas de óxido de zinco e dióxido de titânio, os mesmos filtros minerais vendidos sob a promessa de compatibilidade com recifes. O texto brasileiro faz a ressalva que falta ao marketing: boa parte dos ensaios de ecotoxicidade usa concentrações acima das encontradas em ambientes naturais, e diluição, agregação e transformação ambiental alteram o comportamento das partículas. Cautela vale nos dois sentidos da extrapolação.
A saída proposta pelos autores é de engenharia, não de rótulo. "Estratégias de engenharia de formulação podem ser utilizadas para melhorar a estabilidade dos filtros e controlar sua interação com a pele", diz Fantato. "Entre as possibilidades estão a nanoencapsulação de filtros que apresentam problemas de estabilidade e a funcionalização superficial de nanopartículas." A revisão também coloca o óxido de magnésio na mesa como alternativa emergente, "devido às suas propriedades de dispersão da radiação UV e às características antioxidantes e anti-inflamatórias descritas na literatura", com a ressalva de que materiais novos precisam passar por avaliação sistemática antes de substituir os filtros consolidados.
A origem institucional do trabalho explica o recorte. O Larex é um laboratório de reciclagem e tratamento de resíduos, e a própria Fantato defendeu ali dissertação sobre a eliminação de chumbo e cádmio do rejeito de minério de zinco por ustulação. Ler o protetor solar como problema de materiais desloca a discussão do balcão da farmácia para a cadeia produtiva: de onde vem o óxido metálico, o que resta da síntese, como o rejeito é tratado. É uma leitura que a indústria cosmética raramente faz em público.
A regulação avança em ritmos distintos. No Brasil, a RDC 600/2022 da Anvisa fixa a lista positiva de filtros ultravioleta permitidos, com limites de concentração, e a RDC 629/2022 define o que pode ser vendido como protetor solar; em fevereiro de 2024 a agência publicou o manual de regularização da categoria. Nos Estados Unidos, o movimento foi tardio e barulhento. Em 9 de junho de 2026, a FDA incluiu o bemotrizinol na monografia de protetores solares em concentrações de até 6%, o primeiro ativo novo desde o fim dos anos 1990. As empresas podem incorporá-lo às formulações a partir de 9 de agosto de 2026. O ativo não tem nada de inédito para o consumidor brasileiro. Um levantamento publicado em 2017 na Surgical & Cosmetic Dermatology, com 30 fotoprotetores FPS 30 vendidos em farmácias do Rio de Janeiro, já apontava o bis-ethylhexyloxyphenol methoxyphenyl triazine como o segundo filtro mais frequente nas fórmulas, atrás apenas do dióxido de titânio.
A geografia regulatória segue fragmentada. Havaí proíbe a venda estadual de produtos com oxibenzona e octinoxato, restrição replicada por Palau, Bonaire, Aruba, Ilhas Virgens Americanas e Key West, enquanto o condado de Maui, pela ordenança 5306, em vigor desde outubro de 2022, veta qualquer protetor não mineral e admite apenas óxido de zinco e dióxido de titânio. O bemotrizinol recém-aprovado pela FDA é um filtro orgânico e, por isso, continua fora das prateleiras de Maui.
*Com informações do Jornal da USP.
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