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Rio Ocean Week enfrenta o esgoto que ainda atinge 90 milhões de brasileiros a poucos meses da conferência da ONU

Escrito por Neo Mondo | 16 de julho de 2026

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Rio Ocean Week 2026 confirma poluição marinha como tema central da edição carioca, com foco em plásticos, resíduos sólidos e saneamento - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

O Museu do Amanhã foi projetado para olhar para a baía de Guanabara como quem confronta um espelho. Entre 16 e 20 de setembro, esse edifício de concreto e aço que se debruça sobre a água receberá a Rio Ocean Week 2026 para discutir, de frente, o que a própria baía carrega há décadas: plástico, esgoto e substâncias químicas que o olho não vê, mas o corpo já registra.

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A organização do evento definiu "Poluição Marinha: Diagnósticos e Soluções" como eixo central da edição carioca — escolha que não repetiu a de São Paulo, onde a SP Ocean Week 2026, realizada em maio, tratou de áreas marinhas protegidas. A divisão é deliberada. Enquanto São Paulo debateu os instrumentos de conservação, o Rio assume a tarefa mais desconfortável: descrever, com precisão, a extensão do dano. Os painéis e mostras da Rio Ocean Week vão se organizar em torno de três frentes — o descarte de plásticos e outros resíduos sólidos, os poluentes químicos que se dissolvem sem aviso e o saneamento básico ausente que despeja esgoto bruto direto no mar através dos rios.

Nenhum desses três eixos é abstrato para quem vive no litoral brasileiro. Segundo o Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, ano-base 2024, cerca de 90 milhões de brasileiros — 43,3% da população — ainda não têm coleta de esgoto. Apenas 51,8% do esgoto gerado no país recebe algum tratamento antes de retornar à natureza. No Norte, a coleta atinge somente 16,6% da população; no Nordeste, pouco mais de 36 milhões de pessoas vivem sem esse serviço. Todo esse volume não tratado segue um caminho previsível: rio abaixo, até o mar. O Marco Legal do Saneamento Básico prometia universalizar água potável e coleta de esgoto até 2033. Passada mais da metade do prazo, o ritmo de investimento segue abaixo do necessário para cumprir a meta.

O plástico multiplica esse quadro em escala planetária. Um levantamento publicado na revista científica PLOS ONE, conduzido por pesquisadores do 5 Gyres Institute a partir de quase 12 mil pontos de amostragem entre 1979 e 2019, identificou mais de 170 trilhões de partículas plásticas flutuando nos oceanos — um salto abrupto a partir de 2005, sem precedentes no registro histórico. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que o plástico responde por até 85% de todo o lixo marinho e projeta que, sem mudança de rota, os volumes que chegam ao mar quase triplicarão até 2040, alcançando entre 23 e 37 milhões de toneladas anuais — o equivalente a 50 quilos de plástico por metro de litoral do planeta. Boa parte desse material carrega consigo uma carga química pouco discutida: estudos recentes catalogaram mais de 16 mil substâncias presentes em plásticos comerciais, das quais cerca de 4.200 são reconhecidamente perigosas à saúde humana. Essas moléculas já foram detectadas no sangue, na placenta, nos pulmões e no leite materno.

É essa cadeia — do rio poluído ao microplástico no organismo — que a Rio Ocean Week pretende transformar em conteúdo de referência. O compromisso institucional é claro: os debates de setembro alimentarão as recomendações levadas à Conferência do Oceano da ONU, marcada para o Rio de Janeiro entre 7 e 9 de abril de 2027, com organização conjunta da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e da Prefeitura do Rio. A expectativa é reunir cerca de dois mil participantes — governos, cientistas, setor privado e sociedade civil — para uma década que a própria ONU já chamou de Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável.

O pano de fundo diplomático, no entanto, é menos animador do que o calendário sugere. Em agosto de 2025, em Genebra, 185 países encerraram a quinta rodada de negociações do Tratado Global sobre Poluição Plástica sem texto final. O impasse opõe a Coalizão de Alta Ambição — que reúne União Europeia, Reino Unido e boa parte da América Latina e da África, defendendo cortes na produção de plástico virgem — a um bloco de nações produtoras de petróleo, entre elas Arábia Saudita, Rússia, Kuwait e Irã, que preferem restringir o acordo à gestão de resíduos. O chileno Julio Cordano assumiu a presidência do comitê de negociação em fevereiro de 2026 com a missão de destravar o processo; até aqui, o texto segue sem consenso sobre o ponto mais decisivo — se haverá ou não limite vinculante à produção. O Brasil, anfitrião da COP30 poucos meses antes, chegou a Genebra em posição intermediária: apoiou a inclusão de um artigo sobre saúde, mas evitou se comprometer com metas de redução de produção ou com a regulação mais dura de químicos problemáticos.

Essa ambiguidade é o verdadeiro pano de fundo da Rio Ocean Week. Produzir diagnóstico é relativamente simples quando os dados já existem, catalogados por agências da ONU, institutos de pesquisa e observatórios como o Trata Brasil. O ponto cego está em transformar diagnóstico em decisão política — e é justamente aí que o processo internacional emperra desde 2022, quando o mandato da ONU previa fechar o acordo até o fim de 2024. Um evento cultural no Rio de Janeiro não resolve esse impasse geopolítico. Mas pode, com sorte e rigor, aproximar o debate técnico da experiência concreta de quem vive à beira de um rio sem tratamento de esgoto ou de uma praia onde o plástico já superou a areia.

Em abril de 2027, quando a Conferência do Oceano reunir delegações internacionais na mesma cidade, o Museu do Amanhã terá cumprido ou não sua promessa de antecipação. A baía de Guanabara, de todo modo, continuará ali — recebendo o que os rios trazem, indiferente ao calendário diplomático que se organiza à sua margem.

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