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Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 9 de setembro de 2026
Beleza começa muito antes do frasco, em uma cadeia global de matérias-primas, embalagens, trabalho e transporte que raramente aparece no rótulo - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DRA. MARCELA BARALDI*
Quando compramos um creme, um shampoo ou um sérum, é natural imaginar que a história daquele produto começa na fábrica indicada no rótulo. Ela costuma começar milhares de quilômetros dali. Antes de chegar ao banheiro de casa, um cosmético percorre uma rota internacional que envolve o cultivo ou a extração de matérias-primas em diferentes países, a fabricação de embalagens, o fornecimento de componentes, a formulação, o armazenamento e o transporte até o ponto de venda.
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Essa cadeia global construiu a indústria da beleza como a conhecemos. Ela deu às marcas acesso a ingredientes produzidos em regiões distantes e permitiu fórmulas cada vez mais específicas. Também trouxe uma pergunta incômoda: qual é o custo ambiental de um produto de beleza antes mesmo de ele tocar a pele?
A resposta não está na distância percorrida pelo produto acabado. Um ativo cosmético pode ser cultivado em um país e seguir para uma indústria em outro continente. A embalagem percorre uma cadeia paralela, com fornecedores de vidro, plástico, alumínio, papel, tampas e válvulas. Só depois de todas essas etapas o produto é formulado, envasado e distribuído.
O transporte pesa nessa conta. Navios, aviões e caminhões movimentam volumes enormes de matérias-primas e produtos acabados, e essas emissões entram na pegada ambiental do cosmético. Contar quilômetros, porém, explica pouco. O modal utilizado, o volume transportado, a eficiência logística e o número de etapas mudam completamente o resultado.
Um ingrediente que atravessa oceanos em navio cargueiro pode emitir menos do que outro que percorreu distância bem menor por via aérea. O planejamento também conta. Transportar grandes volumes de uma só vez é diferente, do ponto de vista ambiental, de fazer sucessivas remessas pequenas. Origem e destino são apenas parte de uma história maior.
A discussão fica mais interessante quando falamos de ingredientes naturais. A globalização levou matérias-primas de regiões específicas do planeta a consumidores que vivem a milhares de quilômetros dali. Parece uma contradição dentro de uma indústria que quer se tornar mais sustentável. A análise, porém, não termina no transporte.
Um ativo amazônico viaja muito até chegar a uma fábrica de cosméticos. Se a cadeia que o sustenta valoriza a biodiversidade, gera renda para comunidades locais, promove o manejo responsável dos recursos e cria incentivo econômico para manter a floresta em pé, o balanço ambiental e social precisa ser lido por inteiro. Reduzir tudo a quilômetros percorridos apaga justamente a dimensão que liga conservação, economia e condições de vida.
É por isso que a sustentabilidade de um cosmético não se decide pela aparência da embalagem nem por palavras como natural, clean ou eco. Um produto pode trazer embalagem reciclável e vir de uma cadeia pouco transparente. Um cosmético fabricado no Brasil pode depender de ativos e componentes importados de meia dúzia de países.
Para quem compra, isso significa olhar um pouco além do frasco. Quando a informação está disponível, observe a origem dos ingredientes, a forma como foram produzidos, as condições da cadeia de fornecimento, os materiais da embalagem e o destino do resíduo depois do uso.
A indústria também começa a responder por esse percurso. Reduzir a pegada de um cosmético não se resume a trocar uma embalagem por outra. Envolve escolher fornecedores mais próximos, comprar matérias-primas de origem responsável, cortar etapas logísticas, usar material reciclado, melhorar a eficiência energética das fábricas e planejar a produção para gerar menos desperdício.
A fórmula faz parte dessa estratégia. Produtos concentrados reduzem volume e peso e, em alguns casos, diminuem a quantidade de água que viaja pela cadeia. Formatos sólidos e sistemas de refil cortam embalagem e otimizam o transporte. Nenhuma dessas soluções é sustentável por definição. Para saber se a mudança representa avanço real, é preciso avaliar o ciclo de vida completo e verificar quais efeitos foram reduzidos e quais apenas mudaram de lugar dentro da cadeia.
O ciclo de vida de um cosmético não começa quando abrimos a embalagem nem termina quando a descartamos. Ele vai da origem da matéria-prima até o pós-consumo, quando o produto vira resíduo ou volta à cadeia por reciclagem ou reutilização.
Isso não significa abandonar produtos importados nem supor que tudo o que é feito localmente seja automaticamente melhor. Significa reconhecer que cada compra fortalece um modelo de produção e distribuição. Quanto maior a demanda por transparência e rastreabilidade, maior a pressão para que as empresas abram e corrijam suas cadeias.
Por trás de um frasco existe uma cadeia que reúne agricultores, extrativistas, pesquisadores, fornecedores, operadores industriais, fabricantes de embalagem e empresas de logística espalhados por diferentes países. Nenhuma dessas etapas aparece no rótulo.
*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

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