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Unilever passa a mover a maior fábrica de desodorantes da América Latina com gás de um aterro em Paulínia

Escrito por Neo Mondo | 7 de setembro de 2026

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Unilever mantém em Aguaí a maior fábrica de desodorantes da América Latina, agora abastecida integralmente por biometano - Foto: Divulgação/Unilever

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Contrato entre Unilever e Edge leva 1.125 metros cúbicos diários de biometano à unidade de Aguaí, no interior paulista, poucos dias antes de a ANP liberar o início da certificação que dá lastro contábil a esse tipo de operação

A Unilever ampliou no fim de agosto seu contrato com a Edge e passou a abastecer integralmente com biometano a fábrica de desodorantes de Aguaí, no interior de São Paulo. O volume contratado é de 1.125 metros cúbicos por dia. A troca zera as emissões diretas e de energia comprada da unidade, os escopos 1 e 2 do inventário corporativo, e evita que mais de 700 toneladas de gases de efeito estufa cheguem à atmosfera a cada ano.

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Aguaí não é uma fábrica qualquer. Ali saem os desodorantes de Rexona, Dove e Axe. É a segunda maior planta de desodorantes da Unilever no mundo e a maior da América Latina. Uma quarta linha de produção entra em operação em 2027, também movida pelo gás renovável. Com a mudança, a unidade se torna a quinta fábrica brasileira da companhia a operar integralmente com biometano ou biomassa e a sexta a descarbonizar totalmente a produção. Somadas, essas operações deixam de emitir cerca de 40 mil toneladas de CO₂ por ano, e mais de 85% do volume fabricado pela empresa no país passa a sair de plantas movidas a energia renovável.

O gás vem de um lugar específico. A Onebio purifica biogás no Ecoparque Orizon VR, em Paulínia, complexo que substituiu o antigo aterro sanitário da cidade. A planta custou R$ 450 milhões, financiados pelo BNDES, com cerca de 80% dos recursos vindos do Fundo Clima e o restante da linha Finem. A sociedade tem a Edge, do grupo Cosan, com 51%, e a Orizon Valorização de Resíduos, com 49%. Sua capacidade nominal é de 225 mil metros cúbicos diários, o equivalente a um terço de tudo o que São Paulo produz e ao consumo de mais de mil ônibus urbanos. Começou operando com metade da carga e deve atingir plena capacidade ao longo deste ano. O diferencial competitivo está menos no tamanho e mais na tomada: a unidade está conectada à rede de gás canalizado, com autorização da Arsesp, o que permite injetar o combustível diretamente na malha.

Vale a proporção. O contrato de Aguaí representa meio por cento da capacidade nominal da Onebio. É o segundo acordo entre as duas empresas, depois do fornecimento à unidade de Valinhos, iniciado em 2025.

A conta ambiental por trás disso é maior do que a das 700 toneladas. Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa, do Observatório do Clima, o Brasil lançou 21 milhões de toneladas de metano na atmosfera em 2024. O setor de resíduos respondeu por 3,3 milhões dessas toneladas, ou 16% do total nacional, e aterros e lixões concentraram 68% da emissão setorial. O metano aquece 28 vezes mais que o CO₂ em cem anos e mais de 80 vezes na janela de vinte. O país gerou 78 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2023, dos quais cerca de 35 milhões eram orgânicos, matéria-prima direta do gás que hoje vaza das células de aterro.

Eduardo Machado, diretor da planta de Aguaí, afirmou que o acordo contribui para o desenvolvimento do mercado de biometano certificado no Brasil. A frase ganhou lastro poucos dias depois. Em 1º de setembro, a ANP publicou os Informes Técnicos 04 e 05, que detalham a auditoria nas usinas e a documentação exigida para emitir o Certificado de Garantia de Origem de Biometano. Com eles, os sete Agentes Certificadores de Origem já credenciados podem começar a certificar produtores. A agência também credenciou três escrituradores e duas entidades registradoras, com uma terceira em análise. A arquitetura vem da Lei 14.993/2024, do Decreto 12.614/2025 e da Resolução ANP 996/2026, que proíbe expressamente a dupla contagem do atributo ambiental e separa o CGOB dos créditos de carbono. Em 1º de abril, o Conselho Nacional de Política Energética fixou em 0,5% a meta de redução de emissões no mercado de gás natural para 2026.

O mercado ainda é pequeno para o discurso que carrega. A ANP registrava 6 plantas autorizadas ao fim de 2023 e 21 em junho de 2026, com outras 48 em processo. A produção cresceu cerca de 75% em 2025, de 606,6 mil para 1,06 milhão de metros cúbicos por dia. A ABiogás estima potencial técnico de 120 milhões de metros cúbicos diários. A distância entre esses dois números é logística: boa parte dos aterros brasileiros está longe da malha dutoviária, e a agência aponta compressão, transporte rodoviário e novas conexões como condição para escalar.

Há ainda uma ressalva que a contabilidade contratual não captura. Um estudo publicado na Nature Communications Sustainability em 2026, conduzido por Maria Olczak e Paul Balcombe na Queen Mary University of London, mediu plantas de biogás no Reino Unido, na Polônia e na Alemanha. A perda média foi de 14,4 quilos de metano por hora, cerca de cinco unidades vazadas a cada cem produzidas. A variação foi enorme, de 1,3 quilo por hora nas melhores instalações a 57 quilos em condições anormais de operação. Em 2022, Bakkaloglu, Cooper e Hawkes já haviam mostrado na One Earth que 5% dos emissores respondem por 62% do metano perdido ao longo das cadeias de biogás e biometano. No Brasil, medições em dois aterros paulistas com infraestrutura considerada adequada, Bandeirantes e Caieiras, registraram fuga de 16% e 35% do gás produzido pela camada de cobertura (Silva, 2013). O ganho climático de uma molécula renovável depende de quanto dela escapa antes de queimar.

Resta a proporção mais desconfortável. A Unilever reduziu suas emissões de escopo 1 e 2 em 77% desde 2015 e caminha para zerá-las até 2030. Mas, segundo análise da Planet Tracker, o escopo 3 respondeu por 99% das emissões totais da companhia em 2023. Relatório da Milieudefensie aponta que as emissões indiretas de uso pelo consumidor sozinhas representavam 47% do total naquele ano. Propelentes de aerossol estão na própria lista de fontes de escopo 3 divulgada pela empresa, e Aguaí fabrica desodorantes aerossóis.

O plano climático atualizado em 2024 fixou corte de 42% nas emissões de escopo 3 de energia e indústria e de 30,3% nas de floresta, terra e agricultura até 2030, ambas contra a base de 2021. Para as emissões de uso pelo consumidor, não fixou meta alguma.

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