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A Caatinga que aprende a resistir

Escrito por Neo Mondo | 28 de abril de 2026

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Caatinga ao entardecer: xiquexiques em primeiro plano sob a luz rasante do sertão — paisagem que esconde uma das biodiversidades mais singulares do planeta - Foto: Ilustrativa/Getty Images

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Com 40% da vegetação original perdida, o único bioma exclusivamente brasileiro acumula décadas de degradação silenciosa. Mas uma confluência inédita de ciência, políticas públicas e bioeconomia começa a redesenhar o destino da Caatinga — e com ela, o de 27 milhões de pessoas

Num trecho de sertão paraibano onde a paisagem alterna entre afloramentos de granito e espinilhos tortuosos, uma reserva particular completou vinte anos de existência exatamente no dia em que o calendário reservou ao bioma que ela protege. A coincidência tem algo de alegórico: a Reserva Particular do Patrimônio Natural Olho D'Água das Onças, em Picuí, no Seridó, foi oficialmente reconhecida como Unidade de Conservação pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade no dia 28 de abril de 2025 — o Dia Nacional da Caatinga. Duas décadas de persistência voluntária condensadas num ato administrativo, numa data escolhida para lembrar que este bioma, o único no mundo inteiramente contido em território brasileiro, ainda precisa ser defendido.

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A necessidade dessa defesa é mensurável. Levantamento do MapBiomas divulgado em 2025 indica que praticamente todos os municípios da Caatinga registram algum nível de desmatamento — não como manchas contínuas, à maneira da Amazônia ou do Cerrado, mas de forma pulverizada, com eventos médios de dez hectares cada. Para Diego Costa, geógrafo do MapBiomas, essa fragmentação dificulta a fiscalização e está frequentemente associada a atividades de subsistência e ao uso extensivo do solo. O resultado acumulado, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), é a perda de 8,6 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2023 — o equivalente a 14% da cobertura original do bioma. Em 2023 isoladamente, foram 201.687 hectares desmatados, um aumento de 43,3% em relação ao ano anterior, com Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte liderando os alertas.

O paradoxo desta história é que a Caatinga é, ao mesmo tempo, o bioma brasileiro mais degradado e um dos mais cientificamente subestimados. O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima registra 4.963 espécies de plantas nativas e 1.182 espécies animais no bioma, muitas delas sem ocorrência em nenhum outro ponto do planeta. O Jardim Botânico do Rio de Janeiro cataloga 6,3 mil espécies de flora e funga, sendo 2,7 mil endêmicas. Dos vertebrados, 23% das espécies são exclusivos da região; 5% enquadram-se nas categorias de perigo ou criticamente em perigo, segundo o ICMBio. Menos de 10% do bioma está coberto por Unidades de Conservação, e apenas 2% conta com proteção integral — um dos menores índices entre todos os biomas brasileiros.

Mas é na fronteira entre a botânica e a climatologia que a Caatinga revela sua dimensão mais estratégica — e menos conhecida. Pesquisas conduzidas no âmbito do Observatório Nacional da Caatinga, rede multidisciplinar que desde 2010 integra 13 universidades brasileiras, seis institutos de pesquisa e cinco instituições internacionais, demonstram que o bioma opera, em quase 100% do tempo, como sumidouro de carbono. Em áreas de Caatinga hipoxerófila, o sequestro pode atingir 5 toneladas de CO₂ por hectare por ano. Em termos de eficiência hídrica, o bioma fixa entre 2,7 e 5,2 kg de CO₂ por metro cúbico de água transpirada. "Quando chove, as plantas rapidamente acordam, crescem e realizam uma intensa fotossíntese, retirando grandes quantidades de CO₂ da atmosfera em pouco tempo", explicou o professor John Elton Cunha, do Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido da Universidade Federal de Campina Grande, à Agência Gov. Enquanto a Amazônia absorve carbono de forma contínua ao longo do ano, a Caatinga se notabiliza pela velocidade e eficiência com que executa esse processo em seus ciclos sazonais.

Este dado não é apenas científico — é político e econômico. Uma floresta que captura carbono com eficiência superior à das florestas tropicais úmidas, em meio ao bioma semiárido mais densamente povoado do mundo, é um ativo de escala global embutido num território que durante décadas foi tratado como zona de sacrifício. A reversão dessa perspectiva começa a ganhar expressão institucional. No mesmo 28 de abril, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima apresentou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas na Caatinga, o PPCaatinga, e anunciou dois projetos de conservação com investimento combinado de US$ 15,8 milhões — o Conecta Caatinga, financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente com US$ 6 milhões, e o projeto ARCA, apoiado pelo Fundo do Marco Global para a Biodiversidade com US$ 9,8 milhões. O Conecta Caatinga prevê ações de recuperação de ecossistemas terrestres e aquáticos em 500 mil hectares, com benefícios diretos a 14 mil pessoas. O ARCA abrangerá nove unidades de conservação federais e estaduais, numa área total de 4,6 milhões de hectares distribuídos por quatro estados.

Também em 2024, o governo federal anunciou a seleção de 12 projetos prioritários para a criação de unidades de conservação federais no bioma até 2026, o que resultará na incorporação de mais de um milhão de hectares às áreas protegidas. O BNDES e o Banco do Nordeste, por meio da frente Caatinga Viva, disponibilizaram R$ 8,8 milhões para projetos de restauração ecológica em unidades de conservação e municípios de clima árido. A Associação Caatinga, organização da sociedade civil fundada em 1998, já plantou mais de 300 mil mudas nativas, restaurando 264,5 hectares com uma técnica de raízes alongadas em canos de PVC que eleva a taxa de sobrevivência das mudas a 70% — mais que o dobro da média convencional no bioma.

No plano legislativo, o Instituto Escolhas impulsiona a aprovação do Projeto de Lei 1.990/2024, que institui uma política nacional para a recuperação da vegetação da Caatinga. De autoria da senadora Janaína Farias (PT-CE) e já aprovado no Senado Federal, o projeto tramita na Câmara sob relatoria do deputado Fernando Mineiro. "O ponto de partida para garantir a sobrevivência da Caatinga é interromper seu desmatamento. A seca é um problema histórico da região. Sempre existirá, mas ela se agrava com o desmatamento, intensificando os problemas ambientais e prejudicando a recuperação das áreas degradadas", afirmou Sérgio Leitão, diretor-executivo do Instituto Escolhas, ao Correio Braziliense.

O horizonte econômico se expande na mesma direção. A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste aposta na bioeconomia como vetor de desenvolvimento sustentável, lançando a Rede Impacta Bioeconomia em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco e a Universidade Federal do Vale do São Francisco para valorizar a biodiversidade local e aperfeiçoar o manejo praticado por agricultores familiares. O umbuzeiro, a jandaíra — abelha nativa sem ferrão essencial para a polinização regional —, e uma gama de plantas medicinais endêmicas passam a figurar não apenas em inventários botânicos, mas em estratégias de cadeia produtiva com potencial de escala. Comunidades que durante gerações conviveram com a seca por necessidade começam a fazê-lo por escolha e por rentabilidade.

Esta conjuntura não elimina a gravidade do que está em curso. A desertificação avança sobre áreas que podem atingir pontos de não retorno. A introdução de espécies invasoras, como a Cryptostegia madagascariensis — conhecida como unha-do-diabo —, compromete a regeneração natural e reduz a diversidade biológica. A expansão de projetos de energia renovável, embora necessária para a transição climática, gerou novos focos de supressão vegetal em estados como Bahia e Ceará. Do total de espécies vegetais da Caatinga, 30% enquadram-se em alguma categoria de ameaça de extinção, segundo o ICMBio.

Mas a Caatinga tem uma propriedade que a ciência começa a documentar com precisão crescente: ela se recupera. Dada proteção suficiente e tempo adequado, a vegetação ressurge, as espécies retornam, o solo se reconstitui. O bioma que sobreviveu a milênios de aridez possui mecanismos de resiliência que a degradação humana obscureceu, mas não destruiu. O que está em jogo agora não é apenas salvar uma floresta espinhosa e singular — é decidir se o Brasil terá, no coração do seu território semiárido, um sistema vivo capaz de regular o clima, sequestrar carbono, proteger bacias hidrográficas e sustentar economias locais. Ou se preferirá, por omissão, transformá-lo em deserto.

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