COLUNISTAS Destaques Educação Sustentabilidade

A culpa é da vítima

Escrito por Daniel Medeiros | 6 de julho de 2026

Compartilhe:

Culpa nunca foi o maior obstáculo à pobreza. O verdadeiro peso está na desigualdade que atravessa gerações e restringe oportunidades antes mesmo da linha de partida - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DANIEL MEDEIROS*

Segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o Brasil é o segundo pior país em 30 países pesquisados quando o assunto é mobilidade social. E o que isso significa? Segundo o estudo, são necessárias nove gerações para que os descendentes de um brasileiro entre os 10% mais pobres atinja o nível médio de rendimento do país. Pior que o Brasil só a Colômbia, que acaba de eleger um presidente que promete diminuir o Estado Social e aumentar o número de penitenciárias. Lá são necessárias onze gerações para sair da pobreza.

Leia também: Minha avó parnanguara

Leia também: Misantropia

A principal razão dessa persistência na pobreza, geração após geração, segundo a OCDE, é a falta de acesso a uma educação de qualidade, o que condena a nova geração a empregos precários, com salários que impedem que possibilitem aos seus filhos acesso a uma educação de qualidade, perpetuando assim esse ciclo de pobreza, esse chão pegajoso da precariedade.

No entanto, em recente pesquisa feita pelo jornal Folha de SãoPaulo, publicada esta semana, mais de 40% das pessoas pesquisadas afirmaram que a pobreza é fruto da “preguiça das pessoas que não querem trabalhar”. É importante destacar que há apenas 4 anos, o percentual de pessoas que afirmava isso era de pouco mais de 20%. Isto é, praticamente dobrou a opinião que pobreza é culpa do pobre e não do elevador quebrado da mobilidade social brasileira, fruto de uma estrutura que nunca conseguiu se livrar do fantasma da escravidão e da desigualdade estrutural, que raramente empobrece um rico e quase nunca enriquece um pobre.

Curiosamente, ao analisar os pormenores da pesquisa, percebemos que, quanto mais rico o entrevistado, mais intensa é a visão de que o pobre é pobre “porque quer”. Por exemplo, entre o empresários, essa resposta alcança 56% dos pesquisados, enquanto entre os funcionários públicos apenas 28% têm essa opinião.

Quando comparamos as duas pesquisas, verificamos que há, em parcela expressiva dos cidadãos brasileiros, uma dissociação cognitiva com o problema da desigualdade. É evidente que a pobreza no Brasil não está vinculada ao indivíduo, mas às condições sociais e econômicas nas quais ele cresce e, particularmente, às oportunidades de estudo de qualidade que ele possui. Por isso, programas como o Bolsa Família e o Pé de Meia e , antes deles, das cotas nas Universidades Públicas,  além do ProUni, Fies, o Programa Nacional de Assistência Estudantil, o Programa Bolsa Permanência, o Programa Internet Brasil, o Programa Nacional de Alimentação Escolar, o Programa Dinheiro Direto na Escola constituem um poderoso esforço de tração para promover mobilidade social. No entanto, na visão de muitas dessas pessoas, o governo federal “gasta demais”, e é preciso “diminuir” o Estado . Não são poucos os empresários que responsabilizam o Bolsa Família pela carência de mão de obra, afirmando que o governo estimula as pessoas a não quererem mais trabalhar. No entanto, as estatísticas demonstram que o Bolsa Família estimula a entrada de pessoas no mercado de trabalho, na medida que permitem a elas comprar um roupa e pagar o ônibus para as entrevistas de emprego, além de se alimentarem adequadamente. Estudos do Ipea  revelam que o valor do benefício não causa acomodação e que mães e outros beneficiários que recebem o auxílio possuem, na verdade, maior probabilidade de buscar e conseguir emprego no mercado formal. Dados recentes do Caged mostram que a grande maioria das novas vagas de trabalho formal são preenchidas por pessoas inscritas no Cadastro Único (CadÚnico). Estes são os dados que se referem aos fatos. Mas parece que não vivemos mais no mundo dos fatos, mas sim das opiniões. E quem controla as opiniões? Quando observamos quem frequenta as redes sociais reproduzindo falácias sobre preguiça e vagabundagem dos cidadãos pobres, tentando descredibilizar o ensino público e insistindo na tese de que o governo federal gasta muito e que é preciso acabar com essas políticas que levam as pessoas a não querer trabalhar, são, na maior parte das vezes, pessoas confortavelmente situadas no topo grudento da escala social.

Na disputa pelos votos na próxima eleição a narrativa de que o Brasil é um país injusto para os ricos e não para os pobres vem ganhando corpo e força, contaminando corações e mentes e, pelo andar da carruagem, é possível que chegue o momento no qual um pobre precise pedir desculpas por sua indigência, por macular o cenário de pessoas bem sucedidas “graças aos seus esforços individuais” e que precisam suportar esses fracassados diante de si.

*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

foto de daniel medeiros, autor do artigo a culpa é da vítima
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

Compartilhe:


Artigos anteriores:

Campanha que ajudou a impulsionar criação da maior área marinha protegida do Brasil é premiada em Cannes

As cidades estão ficando mais quentes. O que isso significa para a saúde da nossa pele?

De Belém a Antalya, com parada em Londres à 40°: a urgência de transformar clima em ação


Artigos relacionados