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Aposta

Escrito por Daniel Medeiros | 30 de setembro de 2026

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Aposta no futuro ou escolha consciente? Entre promessas e mentiras, o eleitor precisa reconhecer em quem deposita sua confiança - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DANIEL MEDEIROS*

Hannah Arendt disse que há apenas duas maneiras de alterar o tempo passado e o tempo futuro: pelo perdão e pela promessa. O perdão permite que o passado seja suportado e não perturbe mais o presente. Não se trata de um esquecimento, mas de um “apesar de”. A promessa cria uma verdade onde ainda não há fato: “estarei lá”. O que importa destacar é que, tanto em um movimento quanto no outro, quem altera o tempo é a palavra. Levar a sério o papel constituinte da palavra em nossas vidas é uma das tarefas do século XXI, e duas forças trabalham contra ela: as fake news e a inteligência artificial.

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As fake news usam a palavra para convencer o outro de algo que o emissor sabe que não existe e não existirá. Criam um ambiente no qual a palavra parece encontrar sustentação, mas essa sustentação é apenas uma nuvem, uma miragem. Aos poucos, provocam um mal de proporções ainda não devidamente analisadas: destroem a fronteira entre o que pode ser e o embuste. E, com isso, destroem também a crença, condição indispensável para nossa sobrevivência em um mundo hostil e selvagem.

A inteligência artificial, por sua vez, assume a nossa palavra, apropria-se das nossas palavras e de todo o caminho que percorremos para proferi-las. Agora dizemos: “escreva uma resposta para essa situação”. E então enviamos, ou lemos, como se fosse algo que tivéssemos pensado e sentido. A inteligência artificial dessentimentaliza as palavras, elimina o autor, ignora as intenções por trás da escolha dos vocábulos, apaga os não ditos, tudo aquilo que permite, pela análise do discurso, enxergar a singularidade de quem diz.

O período eleitoral é o ambiente no qual esses dois exterminadores da palavra vivem seus momentos de glória. O objetivo de muitos candidatos não é expor-se à escolha dos eleitores, mas, ao contrário, esconder-se. É preciso que o eleitor enxergue alguém que atenderá seus desejos não anunciados, suas vontades mais íntimas, capturadas pela análise algorítmica de suas interações no ciberespaço. Não importa que o eleito pense assim ou que tenha a mínima intenção de agir assim. A eleição tornou-se um ataque ao forte, travado com as armas da desincorporação da palavra e das intenções.

Daí podermos comparar a uma aposta o processo no qual deveríamos, informados pela verdade, escolher representantes para administrar nossos recursos pelos próximos quatro anos. Não escolhemos um representante, apostamos. A aposta é a vitória da irracionalidade, a entrega do destino ao acaso, o abandono das nossas faculdades criativas e analíticas, transformadas em torcida pelo imponderável. “Vou nesse e daí vamos ver no que vai dar.” A aposta é também uma forma de fetiche. O cidadão se agarra a um número ou a um nome e o transforma em talismã. Nada sustenta a sua certeza, exceto o próprio desespero por não ser nem ter o que julga merecer e que o mundo não lhe deu da maneira que ele esperava. Frustrado, mas não derrotado, entrega-se, afunda-se, imerge nas promessas das fake news. Aposta nelas e recusa qualquer tipo de esclarecimento.

O poder destrutivo dessa empulhação pode ser comparado ao terrorismo, pois afeta o que há de mais humano em nós: a capacidade de, por meio da palavra, pensar um futuro melhor e possível, fruto do nosso comprometimento. O comprometimento é esse vínculo com algo ou alguém em um lugar e um tempo que ainda não existem, mas que existirão se estivermos certos da nossa vontade e no controle das nossas ações. Isso, se permanecermos humanos e aprendermos a suportar a frustração dos tropeços e dos fracassos, e a conviver com ela, em vez de inventar a todo momento ilusões compensatórias de sucesso.

*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

foto de daniel  medeiros, autor do artigo aposta
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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