Escrito por Daniel Medeiros | 21 de setembro de 2026
Extinção — A cadeira vazia antecipa o futuro de um país que afasta os jovens da docência e abandona seus professores - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS*
Projeção feita pelo Instituto Semesp, divulgada em matéria do G1 em 16 de setembro de 2026 indica que, em 2040, a Taxa de Renovação Docente poderá cair para 0,17, em média. Ou seja, haveria nas escolas públicas e privadas do país apenas um professor com até 24 anos para cada seis docentes com 60 anos ou mais. Isso implica uma implosão da atividade, com consequências que, até aqui, parecem não mobilizar maior atenção das autoridades públicas responsáveis.
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Questionar por qual razão os jovens não se interessam mais pela carreira de professor é como perguntar ao macaco se ele quer ou não quer banana. Ora, quem iria planejar a vida profissional para dedicar os dias em uma atividade estressante e sem qualquer reconhecimento social, quando outras profissões que exigem formação superior pagam, em média, quase o dobro e não cobram o sofrimento do enfrentamento diário com crianças e jovens distraídos , pais alienados e escolas sem rumo?
Educar é uma tarefa morro acima. É preciso enfrentar uma escola sem mensagem real para sustentar, tanto na esfera privada, cada vez mais controlada por fundos de investimentos interessados em margens de lucro e não em formar cidadãos para o futuro do país, quanto na esfera pública, cercada por pressões ideológicas e religiosas, por interferências “cívico-militares”, entre tantos outros penduricalhos. Tem de enfrentar pais que exigem o silenciamento do professor sobre temas éticos e ecológicos, políticos e comportamentais por razões obscuras e obtusas. Tem de enfrentar salários aviltantes e jornadas de trabalho que começam muito antes e terminam muito depois das horas aula em sala. Tem de enfrentar deslocamentos entre escolas, pois só com o acúmulo de duas e até três jornadas é possível compor um salário que dê conta do orçamento básico de uma vida digna. Tem de enfrentar, por conta disso, uma vida social e familiar esvaziada, sem tempo para a socialização, para o lazer, para o auto aperfeiçoamento. Tem de enfrentar as pressões das novas tecnologias que questionam o tempo todo para que mesmo serve um professor, como se um professor fosse só um depositário de conteúdos. Tem de calar diante de absurdos burocráticos e ingerências indevidas no espaço escolar, porque não há mais espírito de corpo e interesse coletivo para sustentar políticas e posturas corretas. Tem de enfrentar o olhar de deboche dos próprios alunos, pais e da sociedade em geral, por ter abraçado uma profissão sem valor e reconhecimento social e que, nos últimos anos, tornou-se objeto de desconfiança permanente, com a suspeita de querer doutrinar os filhos de pais que veem a Educação com olhares cada vez mais marcados pelo signo do ressentimento.
Os professores com 60 anos ou mais que ainda permanecem na rede são aqueles que foram formados no momento mágico da redemocratização, quando o país viveu seu último momento de utopia coletiva. Os jovens que ingressam no mercado de trabalho agora, vêm, na sua grande parte, de formações online, precarizados por cursos sem tradição e sem contato real com a realidade das escolas, com currículos defasados e poucas exigências de aprofundamento e consolidação dos fundamentos da profissão. Funcionamos ao contrário de países que concentram na formação do professor seus maiores esforços, garantindo preparo adequado, além de progressão na carreira que estimule a dedicação ao longo do tempo e a valoração social que faz com que a autoestima funcione como uma atração para as próximas gerações. Em países como a Coreia do Sul, por exemplo, a remuneração anual passa de US$ 37,8 mil no início da carreira para US$ 65,8 mil após 15 anos, chegando a US$ 104,8 mil no auge. Na Austrália, vai de US$ 57,5 mil para US$ 81,8 mil, com teto de US$ 93 mil. No Brasil, segundo dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), em 2025, um professor do ensino médio ganhava aproximadamente R$ 6,5 mil mensais — 20% a menos do que a renda mensal dos trabalhadores com ensino superior completo (R$ 8,1 mil). Ao ano, isso implica pouco mais de 16 mil dólares para o professor da décima economia do mundo. Menos da metade do professor em início de carreira na Coréia. Por que alguém faria uma faculdade e vincularia sua vida profissional a uma carreira dessas?
Fica a pergunta incômoda: o que seremos sem os professores? Muito se reclama da condição atual da escola. Mas como ficaremos sem ela? Temos hoje 46 milhões de crianças e jovens matriculados nas diversas etapas da educação básica. É o equivalente a uma Argentina. Ou uma Espanha. Crianças e jovens esperando formação, conhecimento, valores, orientação, técnica, apoio, esperança.
Quem fará isso por eles?
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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