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Carta de uma jovem psicóloga

Escrito por Neo Mondo | 30 de setembro de 2026

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Carta de uma jovem psicóloga sobre o que nenhum diploma garante: a confiança de uma criança que encontra alguém disposto a escutá-la - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

Por - Eduarda Medeiros*, especial para o Neo Mondo

Ao ingressar na universidade, é provável que metade das disciplinas simplesmente passe em branco. São conteúdos que, por algum tempo, ocupam um lugar muito bem definido na memória, até se desgastarem de tanto serem repetidos e, enfim, desaparecerem. Com raras exceções, o que permanece são os nomes daqueles que, muitas vezes com certa banalidade, tentaram nos ensinar alguma coisa.

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Também não demora muito para percebermos que o título de doutor pode ser exigido de quem pertence àquele espaço, mas isso não significa, necessariamente, que todos os que o carregam sejam os mais indicados para ocupá-lo. E, quando essa constatação chega, torna-se difícil não sentir certa revolta pelos anos de estudo, exaustão e expectativa empregados para alcançar uma instituição que, em tese, deveria nos aproximar do conhecimento, mas que, com frequência, acaba nos afastando justamente do aprendizado que a vida lá fora faz questão de oferecer.

Passei, então, a compreender a graduação muito mais como um guia sobre onde e como olhar para o mundo. Ao terminar o curso de Psicologia, sei, com a certeza mais teimosa que possuo, que grande parte do que aprendi veio dos livros que procurei por conta própria, das pessoas que encontrei e dos trabalhos que assumi muito além daquilo que, em teoria, correspondia à minha função. Talvez o maior papel da universidade tenha sido justamente me fazer perceber tudo o que existia para além dela e, inevitavelmente, para além de mim.

Ela me ensinou, sobretudo, a reconhecer o que merece atenção, em quais espaços da vida posso intervir e sobre quais questões, agora com alguma formalidade, construí conhecimento suficiente para falar. No fim, talvez tenha apenas me permitido conservar muitas das opiniões que eu já carregava antes de entrar. A diferença é que agora existe um diploma sugerindo que, de alguma forma, elas merecem um pouco mais de espaço para serem ouvidas.

Antecipando etapas como o mestrado, o doutorado e tantas outras que ainda pretendo atravessar, ouso dizer que, entre os diferentes campos da Psicologia pelos quais passei e ainda passarei, foi fora da universidade que conheci a humanidade em seus detalhes mais constrangedores, delicados e, muitas vezes, contraditórios. E foi justamente nesse deslocamento entre aquilo que aprendi formalmente e aquilo que precisei aprender diante de alguém que comecei a compreender uma limitação bastante simples da formação acadêmica: existem conhecimentos que podem ser sistematizados, fundamentados, supervisionados e tecnicamente aprimorados, mas que não podem ser entregues prontos por nenhuma disciplina.

O trabalho com crianças me parece um dos lugares em que essa insuficiência se torna mais evidente.

Porque atuar com a infância exige técnica, conhecimento sobre desenvolvimento, ética, capacidade de observação, compreensão dos processos de aprendizagem e sensibilidade para reconhecer diferentes formas de comunicação. Mas exige, antes de tudo, algo que nenhuma ementa consegue ensinar. Pode não ser a única coisa necessária, mas arrisco dizer que é aquilo que sustenta todas as outras. Sem isso, a técnica vira procedimento, a intervenção vira tarefa e o conhecimento científico corre o risco de existir apenas para quem o aplica, não para quem deveria se beneficiar dele.

Vínculo, afeto, carinho.

Para mim, está aí a essência do encontro com a infância do outro.

E isso, pela própria natureza, não cabe inteiramente à universidade ensinar, ainda que esteja no centro de uma das áreas em que a Psicologia escolheu atuar. Podemos estudar vínculo, desenvolvimento socioemocional, relações interpessoais, processos de aprendizagem e diferentes teorias sobre a constituição do sujeito. Podemos escrever trabalhos inteiros sobre eles. Ainda assim, nenhuma bibliografia ensina alguém a se abaixar para ficar à altura de uma criança quando ela precisa contar algo que, para um adulto, parece absolutamente pequeno.

Quando finalmente consegui sair da bolha da academia, que parece nos oferecer oxigênio como prêmio a cada questão respondida corretamente em provas que, com certa nostalgia, insistem em nos devolver ao ensino médio, recuei ainda mais no tempo. Fui parar numa etapa anterior ao ensino fundamental. Pousei, sem planejamento algum, na Educação Infantil e, consequentemente, na infância de inúmeras crianças.

Cheguei receosa.

Por falta de preparo, por insegurança e, talvez principalmente, pelo medo de ocupar um espaço grande demais em uma história que ainda estava começando. Havia em mim um temor genuíno de transformar infâncias boas em memórias que, anos depois, precisariam ser elaboradas em algum consultório. Não que eu me atribua tamanho poder a ponto de acreditar que poderia, sozinha, conduzir alguém à frustração, mas também não dá para ser psicóloga sem carregar um mínimo de ego.

Entrei naquele mundo de pequenos seres acreditando, com toda a ingenuidade possível, que encontraria faltas. Falta de conhecimento, de educação, de autonomia, de compreensão e de tantas outras coisas que nós, adultos, gostamos de localizar nas crianças quando as comparamos àquilo que ainda esperamos que elas se tornem.

Meu palpite estava errado.

A falta que mais encontrei não estava nelas.

Estava em nós.

Na nossa falta de vontade de oferecer mais, de explicar outra vez, de esperar alguns segundos, de abaixar o corpo, de reformular uma frase, de suportar uma repetição e, principalmente, de reconhecer que aquela existência pequena diante de nós ainda está aprendendo absolutamente tudo.

Pedidos simples, a exemplo de ir ao banheiro, recebem respostas grosseiras e atravessadas, como se aquelas crianças já carregassem muito mais do que cinco anos de experiência no mundo. Olhamos para elas a partir de quem esperamos que venham a ser, e não de quem conseguem ser agora. Exigimos autonomia antes de ensinar caminhos, cobramos regulação antes de oferecer segurança e esperamos compreensão de regras que, muitas vezes, ninguém se preocupou verdadeiramente em explicar.

E existe algo particularmente contraditório nisso para quem trabalha com Psicologia ou Educação. Sabemos, ao menos teoricamente, que a infância é um período decisivo de constituição subjetiva, desenvolvimento socioemocional, aquisição de repertórios e construção progressiva de autonomia. Ainda assim, na prática cotidiana, é assustadoramente fácil esquecer que nenhuma dessas coisas surge espontaneamente. Como profissionais, deveríamos favorecer esse processo. Mas, por cansaço, automatismo ou escolha, muitas vezes ignoramos uma existência que ainda precisa de ajuda para aprender a ser ela mesma.

Quando dizemos que o banheiro fica à direita, nem toda criança sabe que direita é diferente de esquerda. Talvez nem saiba que "direita" é uma direção, e não o nome de alguém ou de alguma coisa. Quando dizemos "vai naquele sentido", pressupomos um repertório que pode simplesmente ainda não existir. Quando mandamos que espere, divida, se acalme, peça desculpas ou explique o que aconteceu, esquecemos que todas essas ações dependem de habilidades que precisaram, em algum momento, ser ensinadas a nós também.

Ao adultecer, esquecemos que a vida não é óbvia para uma criança.

Ela só passou a parecer óbvia para nós porque tivemos anos suficientes para naturalizar aquilo que um dia também precisamos perguntar. E, em muitos casos, porque crescemos ao lado de pessoas que fizeram questão de responder.

As crianças possuem suas próprias vivências e, para elas, isso é muito. Em tão poucos anos de vida, qualquer acontecimento ocupa uma proporção imensa da própria história. Um machucado pode, de fato, ser a maior dor que aquela pessoa já sentiu. Uma briga pode ser a maior rejeição que conheceu. O nosso "não", a nossa bronca ou uma frase dita sem cuidado podem ser as palavras mais duras que alguém já dirigiu a ela.

Não porque crianças sejam frágeis demais.

Porque crianças são crianças.

Talvez por isso alguns clichês sobrevivam tanto tempo: alguns deles estão certos. Quando estamos verdadeiramente disponíveis para escutá-las, pouco a pouco elas também se tornam disponíveis para nos ouvir. Isso não acontece imediatamente, nem da mesma maneira com todas. Algumas chegam falando uma língua que não esperávamos encontrar. Uma linguagem composta por silêncios, repetições, recusas, movimentos, olhares, choros, aproximações e gestos que manual algum seria capaz de prever por completo.

É justamente diante delas que entendemos que escutar não significa esperar a resposta correta. Significa aprender a linguagem de quem está à nossa frente.

E talvez seja aí que a Psicologia volte a fazer sentido para mim.

Não aquela que tenta encaixar o sujeito no conhecimento que já possui, mas aquela disposta a deslocar o próprio conhecimento para conseguir alcançar o sujeito que encontrou.

Uma criança que nunca foi escutada aprende cedo que falar não adianta. E "falar", aqui, talvez nem envolva palavras. A criança que é escutada em sua forma particular de existir começa, aos poucos, a experimentar outras maneiras de se comunicar, porque percebe que existe alguém do outro lado disposto a recebê-las.

Podemos até pular todas as etapas desta história, seja a instituição, a profissão, os títulos, as teorias ou os códigos de ética, desde que, ao final, cheguemos ao ponto que sustenta todas elas. Não porque essas coisas sejam dispensáveis, mas justamente porque, sem uma relação humana que lhes dê sentido, nenhuma delas fica de pé sozinha.

Para atuar com crianças, é preciso trabalhar com aquilo que acontece na relação, e não apenas com aquilo que o profissional é capaz de produzir sobre ela. É preciso técnica, evidentemente. Mas também é necessário carinho. Presença. Disponibilidade. É preciso entender que vínculo não é um detalhe afetivo que acompanha a intervenção. Muitas vezes, é a própria condição para que qualquer intervenção seja possível.

Basta uma criança chegar e, antes mesmo que alguém tenha tempo de orientá-la a nos chamar de "prof", ela já nos chama de tia ou de tio.

Durante algum tempo, interpretei isso apenas como uma forma infantil de nomear os adultos da escola. Hoje penso que talvez exista algo maior ali. Não é necessariamente falta de formalidade, tampouco uma confusão ingênua de papéis. "Tia" talvez seja uma das poucas palavras que a criança possui para nomear um adulto que não pertence à sua casa, mas que, ainda assim, passou a pertencer à sua vida.

A criança nos coloca no lugar mais próximo de família que consegue reconhecer fora de casa: alguém a quem pode recorrer quando se machuca, quando não entende, quando precisa ir ao banheiro, quando quer mostrar alguma coisa absolutamente insignificante para o restante do mundo ou quando simplesmente precisa ter certeza de que alguém percebeu que ela chegou.

Para nós, pode ser apenas mais um dia de trabalho.

Para ela, em cinco anos de existência, aquele dia representa uma parcela considerável de tudo o que já viveu.

Talvez seja essa a responsabilidade que mais me assuste e, ao mesmo tempo, a que mais me faça querer permanecer.

Porque esse lugar não vem escrito em diploma algum. Nenhum título acadêmico o garante, nenhum conhecimento técnico é suficiente para reivindicá-lo e nenhuma posição profissional obriga uma criança a nos conceder confiança.

Ela concede, ou não.

E talvez, depois de tantos anos tentando conquistar títulos que autorizem aquilo que posso dizer sobre o outro, tenha sido justamente uma criança quem me ensinou que existem lugares aos quais não se chega por formação.

É preciso ser convidado.

*Eduarda Medeiros - é psicóloga formada pela PUCPR. Passou pela Psicologia Escolar, pela inclusão, pela tutoria, pela Neuropsicologia e pela prática clínica, e encontrou na infância o campo em que mais reconhece o sentido da profissão. Leitora e escritora por paixão, dedica-se à clínica infantil e à escuta de crianças como sujeitos, não como diagnósticos.

foto de eduarda medeiros, autora do artigo Carta de uma jovem psicóloga
Eduarda Medeiros - Foto: Divulgação

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