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Escrito por Neo Mondo | 27 de fevereiro de 2026
Aquífero Beberibe: cada gota que infiltra no solo hoje define a segurança hídrica de milhões amanhã - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
O debate público sobre água no Brasil ainda olha para cima — represas, rios, níveis de reservatório. A crise que vem vai se decidir no subsolo
O BNDES e o Grupo HEINEKEN anunciaram investimento conjunto de até R$ 10 milhões para restauração ecológica em 35 municípios da área de recarga do Aquífero Beberibe, em Pernambuco. A chamada pública, gerida pelo Funbio, recebe propostas até 6 de março e selecionará até três organizações sem fins lucrativos.
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O Beberibe não é reserva secundária. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), é uma das principais fontes de abastecimento subterrâneo do Nordeste, com alcance sobre as regiões metropolitanas do Recife e de João Pessoa. Sem vegetação nativa na área de recarga, o aquífero perde capacidade de infiltração e armazenamento. Restauração florestal vira política de infraestrutura hídrica.
A iniciativa integra o programa Floresta Viva, do BNDES, e foi desenhada para estruturar cadeias produtivas completas: viveiros, coleta de sementes, capacitação técnica, monitoramento. A diretora socioambiental do banco, Tereza Campello, associa o edital à resiliência climática do Nordeste e à segurança do abastecimento urbano.
Do lado da HEINEKEN, a lógica é operacional antes de ser reputacional. O polo industrial de Igarassu é a principal operação da companhia no Nordeste e recebeu mais de R$ 1,2 bilhão em investimentos recentes. Estudos internos já identificam níveis preocupantes de escassez hídrica na região. O gerente de Sustentabilidade, Breno Aguiar de Paula, aponta que a restauração da vegetação nativa favorece a infiltração, reduz erosão e diminui a contaminação dos rios. Água deixou de ser variável de ESG para se tornar variável de continuidade de negócio.
A área contemplada ocupa zona de transição entre Mata Atlântica e Caatinga — mosaico ecológico sob pressão simultânea de expansão urbana, uso produtivo intensivo e perda histórica de cobertura vegetal.
Por anos, a agenda climática corporativa gravitou em torno do carbono. O que começa a se desenhar é outra coisa: empresas intensivas em uso hídrico já percebem que neutralizar emissões não garante operação contínua se o território secar. O Beberibe pode funcionar como laboratório dessa transição — capital privado alocado em infraestrutura natural como hedge contra risco sistêmico de água.

A fronteira dessa disputa está abaixo do nível do solo.
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