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Escrito por Alexander Turra | 16 de setembro de 2026
Belém deixou o oceano à margem, enquanto a ciência mostra que observar o mar é infraestrutura para compreender o clima e antecipar seus extremos. - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - ALEXANDER TURRA*
A declaração do Ocean Pavilion pede que a COP31 lance um Pacto Oceânico de Antalya. Levo o documento à Rio Ocean Week, que ocupa o Museu do Amanhã de 17 a 20 de setembro
A Rio Ocean Week abre nesta quinta-feira (17), no Museu do Amanhã, e chego ao festival com um documento que considero bem relevante. Em declaração datada de 8 de setembro, os parceiros do Ocean Pavilion pedem que a COP31 lance um Pacto Oceânico de Antalya, compromisso para reunir clima, biodiversidade e oceano num único plano de implementação. A conferência do clima da ONU acontece de 9 a 20 de novembro, na Turquia. Recebi o texto porque faço parte do processo do pavilhão e decidi trazê-lo para o Rio. Coordeno a Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, uma das idealizadoras do festival, e acredito que essa declaração vai construir e fortalecer o movimento do oceano na COP.
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Conheço o tamanho da tarefa. Na COP30, em Belém, enviei boletins diários da Zona Azul para a série “Horizontes Azuis”, do Neo Mondo, em parceria com o Programa para o Atlântico Sul e Antártica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). No último, publicado em 23 de novembro de 2025, classifiquei como desconcertante o resultado da conferência sobre o oceano, tema que recebeu apenas uma menção genérica no texto final. Não quis dizer que morremos na praia, mas podíamos ter ido mais longe. Naquele boletim, também apontei o caminho para a COP31: fazer dos países insulares do Pacífico aliados do oceano nas negociações. Dez meses depois, mantenho o diagnóstico. Havia uma grande expectativa de que Belém fosse a COP do Oceano, e ela não conquistou esse título em função da presença muito simplória, fragmentada e marginal do oceano. A conferência, porém, abriu caminho para que Antalya dê o passo esperado. Depois de Belém, o Brasil seguiu na presidência da COP e manteve as articulações com outros países e instituições para que o oceano ganhe destaque como aliado da agenda climática, tanto na adaptação quanto na redução das emissões de gases de efeito estufa.
O festival é a primeira parada da declaração no Brasil. São mais de 50 painéis e atividades gratuitas, 70 palestrantes e mais de 30 instituições de conservação e pesquisa. Na quinta-feira, às 11h30, debato microplásticos com Aline Sugano, da Abiquim, e Ricardo Voivodic, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Na sexta-feira, às 15h30, Leticia Cotrim, da UERJ, Pedro Belga, da ONG Guardiões do Mar, e Carla Elliff, do Projeto Coral Vivo, discutem acidificação, uma das ameaças citadas pelo Ocean Pavilion. No píer do museu, o público poderá visitar o Cruzeiro do Sul, navio de pesquisa da Marinha, e o Professor Luiz Carlos, da UERJ, que monitora poluição em baías. No Espaço Cultural da Marinha, também poderá conhecer a embarcação italiana Santa Maria, entre outras atividades. Aposto ainda na mobilização da juventude diante das agendas do clima e da Década do Oceano. As recomendações do festival seguem para a Conferência da Década do Oceano, que o Rio receberá de 5 a 9 de abril de 2027.
O Ocean Pavilion é organizado pela Woods Hole Oceanographic Institution e pela Scripps Institution of Oceanography, da UC San Diego, com a FAPESP como parceira, e chega à quinta edição na COP31. O pavilhão tem sido um local de convergência e de efervescência dessa agenda, que contagia e propaga o tema para os outros pavilhões e para os delegados. A declaração tem quatro pedidos. Os governos devem tratar a observação oceânica e os dados abertos como infraestrutura, alinhar a ação oceânica entre a Convenção do Clima, a Convenção sobre Diversidade Biológica e o Acordo do Alto-Mar, mobilizar financiamento na escala necessária e fazer com que a ciência oriente a política. O ponto central está escrito sem rodeios: “a observação oceânica deve ser reconhecida não apenas como ferramenta de pesquisa, mas também como infraestrutura global essencial”. O texto também reivindica um lugar na história das conferências. Paris entregou o acordo global, Sharm El-Sheikh criou o Fundo de Perdas e Danos e Dubai comprometeu o mundo a abandonar os combustíveis fósseis. Queremos que Antalya seja lembrada pelo mar.
A aliança que defendi em Belém consta no documento. Uma seção inteira trata dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento. Segundo a declaração, as prioridades desses países (manter 1,5 °C ao alcance, fortalecer a observação oceânica, ampliar o financiamento e acelerar a adaptação baseada no oceano) compõem uma única agenda. O calendário favorece essa leitura. Antes de Antalya, a pré-COP acontece em Fiji, de 5 a 8 de outubro, com um encontro de líderes em Tuvalu. Em agosto, a vice-ministra das Relações Exteriores de Fiji, Lenora Qereqeretabua, pediu que o oceano saísse das margens e entrasse no centro da conversa sobre o clima.
O pedido de tratar a observação como infraestrutura tem base orçamentária. Menos de 1% dos orçamentos nacionais de pesquisa vai para a ciência oceânica, segundo a terceira edição do Global Ocean Science Report, lançada em junho pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, com a qual contribuí. A fragilidade ganhou números em maio. Um estudo publicado na Nature Climate Change por Yujing Zhu e Lijing Cheng, da Academia Chinesa de Ciências, simulou cortes no Sistema Global de Observação dos Oceanos. Retirar apenas as observações dos Estados Unidos, que representam mais da metade do volume global, eleva em 163% o erro das estimativas de aquecimento do oceano. É um estrago maior do que perder 80% dos dados por acaso. Há propostas de corte nos orçamentos da NOAA e da National Science Foundation.
O El Niño de 2026 mostra onde isso pesa. Em 10 de setembro, a NOAA elevou para 97% a chance de o fenômeno ficar muito forte a partir do fim de setembro e estimou em 75% a probabilidade de um evento histórico entre outubro e dezembro. O principal alerta do El Niño vem da rede de boias TAO/TRITON, no Pacífico tropical, que ficou sem dados entre 2012 e 2014 por falta de verba e por manutenção adiada. No Atlântico, o Brasil opera em parceria. Na rede PIRATA, as boias foram construídas pelo laboratório PMEL da NOAA. O Brasil mantém o lado oeste da rede, e a França, o leste. O país contribui de forma relevante para a observação oceânica, mas nosso programa nacional ainda está em construção e depende, em vários momentos, da colaboração com Estados Unidos e França. Temos iniciativas crescentes que precisam ser adequadamente estruturadas. A preocupação aumenta com a perspectiva de a NOAA reduzir a produção de dados, usados em boa parte dos modelos de previsão do tempo e do oceano. Há um programa internacional em formação para organizar a observação global de modo que ela deixe de depender da participação de um único país, com dados compartilhados livremente entre as nações.
A diplomacia avança em seu próprio ritmo. Das 66 NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas, os planos climáticos que cada país apresenta no âmbito do Acordo de Paris) entregues por países costeiros e insulares até novembro de 2025, 61 incluem ao menos uma medida oceânica, mas as ações de maior efeito somam apenas 12% do total, segundo o World Resources Institute. Em 10 de junho, mais de 150 especialistas enviaram uma carta à Turquia, à Austrália, ao Brasil e ao Fórum das Ilhas do Pacífico, pedindo que o oceano esteja no centro da COP31. A presidência turca confirmou à Climate Home News que ministros discutirão neste mês um roteiro para a COP Azul. Segundo a UNESCO, apenas uma em cada quatro ações da Década do Oceano conta com financiamento integral. As decisões da COP31 serão críticas para que tenhamos condições de gerar a ciência de que a humanidade precisa para enfrentar a crise do clima.

Alexander Turra é biólogo, educador, pesquisador e comunicador. Professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), dedica-se a promover a aproximação entre o oceano e a sociedade.

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