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Escrito por Neo Mondo | 24 de fevereiro de 2026
BNDES | Mapear para proteger: o SER Corais ajuda o Brasil a enxergar a real dimensão e a vulnerabilidade de seus recifes - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
O investimento do BNDES inicia o primeiro mapeamento nacional de recifes de coral — e o projeto revela tanto sobre o que o país protege quanto sobre o que ainda insiste em ignorar
O Brasil é dono de uma das maiores e mais biodiversas faixas coralíneas do planeta, e só agora está iniciando um mapeamento sistemático dos seus próprios recifes. É como descobrir, já bem adulto, que tem uma biblioteca rara em casa — e só então decidir catalogar os títulos. A boa notícia é que a catalogação finalmente começou.
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O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) acaba de contratar o primeiro projeto do programa BNDES Corais: o SER Corais, executado pelo Instituto Nautilus de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade, com R$ 5,5 milhões em recursos não reembolsáveis do Fundo Socioambiental e prazo de execução de 36 meses. A missão é ambiciosa — percorrer cerca de 2.800 quilômetros de litoral, em oito estados do Nordeste e Sudeste, e construir, pela primeira vez com essa escala, um retrato científico detalhado dos recifes rasos brasileiros, abrangendo Bahia, Alagoas, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, com destaque para dois grandes complexos: Abrolhos e o Parcel Manuel Luís, o maior banco de corais do Atlântico Sul.
Os recifes vivem num paradoxo ecológico conhecido: ocupam menos de 1% do fundo dos oceanos, mas sustentam aproximadamente 25% de toda a vida marinha do planeta. O projeto vai monitorar cobertura coralínea, espécies associadas e a presença de invasoras exóticas, além de produzir mapas técnicos, relatórios científicos e protocolos de restauração. Ao menos dez unidades de conservação serão apoiadas, 28 espécies monitoradas e duas invasoras prioritárias terão sua distribuição avaliada. O mais curioso é perceber que, sem esse projeto, boa parte dessas informações simplesmente não existia de forma organizada e acessível para gestores públicos, pescadores ou cientistas.
A narrativa mais fácil seria celebrar o investimento e seguir em frente. Mas há uma camada mais incômoda aqui: o que esse mapeamento vai revelar pode ser desconfortável. Recifes são sistemas extremamente sensíveis às mudanças de temperatura oceânica. O fenômeno do branqueamento — quando o coral expulsa as algas que vivem em simbiose com ele e começa a morrer — se intensificou dramaticamente nos últimos anos. Em 2024, o mundo registrou o quarto evento global de branqueamento em massa da história, e o Brasil não ficou imune. O que o SER Corais vai mapear, portanto, não é só o que existe — é o quanto já se perdeu, e a que velocidade. Esse tipo de dado tem o poder de transformar uma discussão ambiental abstrata em algo concreto e politicamente incontornável.
Restauração, viveiros e o fator humano
O projeto vai além do diagnóstico. O SER Corais inclui cultivo experimental de corais em viveiros marinhos e em laboratório, testes de diversidade genética e recomposição de áreas degradadas — com ênfase especial na Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Coroa Alta, no sul da Bahia. Também está prevista a criação de um aplicativo de alerta e resposta rápida à introdução de espécies invasoras, funcionando como uma rede de vigilância distribuída acionável por mergulhadores, pescadores e técnicos em campo.
E aqui entra a dimensão que costuma ser subestimada nos projetos de conservação: a humana. Em Santa Cruz Cabrália, na Bahia, o projeto prevê beneficiar diretamente cerca de 230 famílias por meio de oficinas, mentorias e apoio ao turismo de base comunitária. A lógica é direta — quando uma comunidade costeira tem renda gerada pelo ecossistema vivo, ela tem interesse concreto em mantê-lo saudável. A conservação deixa de ser uma imposição externa e passa a ser uma estratégia de sobrevivência.
O SER Corais integra o BNDES Azul, estratégia lançada em 2024 com foco na conservação dos oceanos, adaptação climática e fortalecimento da economia azul — o conjunto de atividades que dependem de ecossistemas marinhos saudáveis, como pesca, turismo, aquicultura e proteção costeira. A iniciativa está alinhada ao Plano de Ação Nacional para Conservação de Ambientes Coralíneos, às Décadas da Ciência Oceânica e da Restauração de Ecossistemas declaradas pela ONU, e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ligados à biodiversidade, ao clima e ao trabalho decente.
No cenário global, essa movimentação dialoga com o Acordo de Kunming-Montreal, firmado em 2022, que estabeleceu a meta de proteger 30% dos ecossistemas terrestres e marinhos do planeta até 2030. Um mapeamento dessa natureza é exatamente o tipo de infraestrutura científica que permite transformar metas em políticas reais.
A janela de tempo está se fechando. Os modelos climáticos mais conservadores projetam que recifes de coral podem desaparecer funcionalmente ainda neste século caso o aquecimento global ultrapasse 2°C acima dos níveis pré-industriais. Já nos cenários de 1,5°C — o limiar que o Acordo de Paris tenta manter — as perdas seriam de 70% a 90% dos recifes existentes. O que o Brasil está fazendo com o SER Corais é, ao mesmo tempo, urgente e tardio: urgente porque cada temporada de aquecimento oceânico causa danos que levam décadas para se recuperar, tardio porque países com faixas coralíneas significativas, como Austrália e Estados Unidos, já investem em monitoramento sistemático há décadas.

Mas há algo importante em começar. Um mapeamento como esse cria o que os cientistas chamam de linha de base — o ponto de referência a partir do qual se mede tudo o que vem depois. Sem ela, não há como saber se as políticas de conservação estão funcionando. Com ela, o país passa a ter condições reais de prestar contas — para si mesmo e para o mundo — sobre o estado dos seus recifes. São o equivalente subaquático do Cerrado, do Pantanal, da Mata Atlântica: um patrimônio que existia antes de qualquer fronteira política, que sustenta vida muito além do que os olhos veem e que, uma vez perdido, não volta. O SER Corais não vai salvá-los sozinho. Mas vai, pelo menos, fazer com que o Brasil saiba exatamente o que tem — antes que seja tarde demais para perguntar.
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