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Sala de aula: interesse, respeito e autoridade

Escrito por Daniel Medeiros | 31 de agosto de 2026

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Sala de aula, onde interesse, respeito e autoridade nascem do encontro entre escuta e atenção - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DANIEL MEDEIROS*

Os romanos usavam a palavra respicere no sentido de deter a marcha para fitar algo novamente, com atenção redobrada àquilo que merecia uma segunda consideração antes de qualquer ação. Não julgavam nada de forma superficial nem decidiam sem antes examinar com calma.

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Na escola, a toada do momento é a "falta de respeito" das crianças e dos jovens. Sim, é um fato. São da natureza da infância e da adolescência a imaturidade, a sedução pelos instintos e o comando dos desejos mais imediatos. Nós, adultos, é que devemos ensinar a beleza e a riqueza do olhar detido, demorado, cuidadoso sobre o que nos afeta e sobre aquilo ou aquele com quem interagimos. O respeito é o resultado de um processo pedagógico, não uma pré-condição para o trabalho. É, na verdade, o próprio trabalho. Afirmar que falta respeito é uma constatação inócua. Trabalhar para que o respeito se torne uma prática cotidiana de cuidado com o que interessa é o que faz a diferença.

Se você reler a frase anterior, verá que o passo decisivo para um ambiente de respeito é o interesse. Também proveniente do bom e velho latim, a palavra significa "estar entre", "fazer parte". Por que eu me deteria em algo com mais vagar se não quisesse que aquilo fizesse parte da minha vida ou, ao contrário, se não quisesse fazer parte da vida dele? Novamente, é o professor o ponto de partida do processo. Paulo Freire ensinava a importância de pesquisar o universo vocabular dos estudantes antes de escolher as palavras para trabalhar no aprendizado da língua. Sem querer conhecer, eu não conheço. Simples assim.

Daí advém a terceira palavra que ecoa nos discursos sobre a escola, quase sempre em tom de lamúria ou ressentimento. Autoridade. "O professor não tem autoridade! Ninguém respeita mais o professor. Os alunos não se interessam por nada."

Pois é. A palavra autoridade origina-se do latim auctoritas (auctoritatis), substantivo derivado de auctor ("autor", "fundador", "promotor"), que por sua vez provém do verbo augere, cujo significado é "aumentar", "fazer crescer", "fortalecer" ou "engrandecer". Originalmente, a autoridade não se definia pelo uso da força ou da coerção física, mas pela capacidade de conferir validade, legitimidade e solidez a algo ou a alguém. E lá vamos nós de novo. A autoridade do professor vem de sua capacidade e de sua possibilidade de tornar aquilo que diz algo grande, importante, significativo para quem escuta. A força não tem nenhuma relação com autoridade. Pelo contrário: ela atua quando a autoridade falha.

O exercício da profissão de professor exige a consciência de que o corpo é insubmisso e de que o crescimento não se dá na ordem, mas no sentido das coisas. Crianças e adolescentes vivem a vida com suas singularidades, e não há conceito capaz de traduzir suas particularidades. Nós, adultos, temos a obrigação, como lembrava Hannah Arendt, de apresentar o mundo às crianças e aos jovens e de preservar o mundo delas. Por isso nos importamos, isto é, procuramos entrar no campo de reconhecimento delas, expor nossa face e nossa voz, na busca de um contato e de uma escuta. Precisamos que elas se interessem, que parem para olhar com cuidado e que acreditem que podemos acrescentar algo à vida delas. Interesse, respeito e autoridade. Quando conseguimos esse contato, e ele é sempre efêmero, temos a oportunidade de caminhar juntos e, em algo ainda mais frágil e passageiro, trocar impressões sobre nossas singularidades.

Não nos iludamos. A educação é o que acontece nesses átimos. O resto é esforço para. Por isso, ao nos equivocarmos sobre o significado dessas palavras tão importantes, imaginando interesse e respeito como obrigações e autoridade como coerção, afastamo-nos do milagre que a vida proporcionou e que a profissão do educador tem o privilégio de exercitar todos os dias: a comunicação humana.

*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

foto de daniel medeiros, autor do artigo Sala de aula: interesse, respeito e autoridade
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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