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Escrito por Neo Mondo | 21 de agosto de 2026
Estudo revela como a jararaca-da-amazônia e outras víboras desenvolveram, ao longo da evolução, estratégias sofisticadas de caça e sobrevivência. Bothrops atrox, em Rio Cristalino (MT). Foto: Reuber Brandão
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Descoberta ajuda a compreender como a evolução atua sobre diferentes características gerando padrões únicos e reforça a importância da conservação das serpentes
Como surgem estratégias complexas de sobrevivência na natureza? Um estudo liderado por uma pesquisadora brasileira ajudou a responder essa pergunta ao reconstruir, pela primeira vez, a evolução de uma das estratégias de caça mais curiosas das serpentes. A análise de mais de 200 espécies de víboras de todo o mundo revelou que o movimento da cauda para atrair presas não surgiu isoladamente, mas evoluiu em conjunto com mudanças na alimentação e com características físicas desses animais, tornando a estratégia mais eficiente.
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Publicado na revista Ethology Ecology & Evolution, o estudo mostrou que três características costumam caminhar juntas ao longo da evolução das víboras: a presença de uma cauda com coloração destacada, o comportamento de ondulá-la ritmicamente para atrair presas e a mudança na dieta conforme o animal cresce. Embora essa associação fosse sugerida há anos por pesquisadores, ela nunca havia sido demonstrada de forma abrangente.
A pesquisa é resultado da dissertação de mestrado da bióloga Aída Pereira Giozza, da Universidade de Brasília (UnB), orientada pelo professor Reuber Brandão, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), em parceria com a professora Veronica Slobodian, do Departamento de Zoologia da UnB. O estudo também contou com pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
Ao reunir informações sobre mais de 200 espécies, o estudo também identificou importantes lacunas de conhecimento sobre a história natural das víboras, indicando a necessidade de ampliar pesquisas de campo sobre esses animais.
"Viperídeos são difíceis de estudar devido à dificuldade de encontrá-los em campo e ao medo que muitas pessoas têm deles. Compreender sua história natural e seu comportamento é fundamental tanto para a conservação dessas espécies quanto para entendermos como a evolução produz estratégias tão sofisticadas de sobrevivência", afirma Aída Pereira Giozza.
Apesar da fama, apenas cerca de 17% das aproximadamente 400 espécies de serpentes registradas no Brasil representam risco à saúde humana. Além do papel fundamental no controle de populações de roedores, esses animais possuem venenos ricos em moléculas com potencial farmacológico. Alguns medicamentos usados no tratamento de doenças cardiovasculares, por exemplo, tiveram origem em pesquisas com compostos presentes no veneno da jararaca (Bothrops jararaca), reforçando a importância científica e ecológica da conservação dessas espécies.
O truque das víboras
Quando jovens, muitas víboras permanecem imóveis e movimentam apenas a ponta da cauda, imitando pequenos invertebrados, como vermes ou larvas. O movimento desperta a curiosidade de animais como sapos e lagartos, que se aproximam acreditando ter encontrado alimento. É nesse momento que a serpente dá o bote.
Conhecido como engodo caudal, esse comportamento funciona como uma isca. Em algumas espécies, a ponta da cauda possui coloração amarelada ou diferente do restante do corpo, tornando o engano ainda mais convincente.
Segundo os pesquisadores, essa estratégia é mais comum entre serpentes jovens. À medida que crescem, muitas passam a caçar mamíferos e aves, abandonando gradualmente a dieta baseada em anfíbios e pequenos répteis.
"O estudo mostra que essas características não evoluíram de forma independente. Elas fazem parte de uma mesma estratégia adaptativa construída ao longo de milhões de anos de evolução, aumentando a eficiência da caça em diferentes fases da vida desses animais", explica Reuber.
Mudanças que acompanham toda a vida
Além da alimentação, os pesquisadores destacam que outras transformações acompanham o desenvolvimento das víboras.
Enquanto filhotes costumam capturar animais de sangue frio, como anfíbios e lagartos, indivíduos adultos passam a caçar principalmente mamíferos e aves. Essa mudança também é acompanhada por alterações na composição do veneno, que se torna mais eficiente para capturar diferentes tipos de presas ao longo da vida.
Os resultados indicam que essas transformações fazem parte de um mesmo processo evolutivo, permitindo que as serpentes aproveitem diferentes recursos disponíveis em cada etapa de seu desenvolvimento.
As serpentes da família Viperidae apresentam algumas das adaptações mais curiosas entre os répteis. Muitas jararacas (Bothrops) jovens possuem a ponta da cauda amarelada, diferente do restante do corpo. As cascavéis (Crotalus) desenvolveram o conhecido guizo, enquanto a víbora-chifruda-de-cauda-de-aranha (Pseudocerastes urarachnoides), encontrada no sudoeste asiático, possui uma estrutura que imita uma aranha para atrair presas.
Sobre a Rede de Especialistas em Conservação da Natureza
A Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) reúne cerca de 80 profissionais de todas as regiões do Brasil e alguns do exterior que trazem ao trabalho que desenvolvem a importância da conservação da natureza e da proteção da biodiversidade. São juristas, urbanistas, biólogos, engenheiros, ambientalistas, cientistas, professores universitários – de referência nacional e internacional – que se voluntariaram para serem porta-vozes da natureza, dando entrevistas, trazendo novas perspectivas, gerando conteúdo e enriquecendo informações de reportagens das mais diversas editorias. Criada em 2014, a Rede é uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os pronunciamentos e artigos dos membros da Rede refletem exclusivamente a opinião dos respectivos autores. Acesse o Guia de Fontes em www.fundacaogrupoboticario.org.br
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