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Nenhum ponto intocado: 2.315 amostras revelam 248 compostos humanos dissolvidos no oceano

Escrito por Neo Mondo | 13 de agosto de 2026

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Nenhum oceano está longe o suficiente para escapar das marcas químicas deixadas pela atividade humana - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO

Estudo publicado na Nature Geoscience mapeou aditivos industriais, fármacos e pesticidas em três bacias oceânicas. Em desembocaduras de rios com esgoto sem tratamento, a fração de origem humana chegou a 76% do sinal químico detectado. O Atlântico Sul ficou de fora do levantamento

Um consórcio internacional de laboratórios reuniu 2.315 amostras de água do mar coletadas entre regiões costeiras, recifes de coral e mar aberto de três bacias oceânicas, e encontrou assinaturas químicas de atividade humana em praticamente todas elas. O trabalho analisou 21 conjuntos públicos de dados de espectrometria de massas não direcionada e identificou 248 compostos xenobióticos, que respondem por uma mediana de 2% do sinal químico total por amostra. Publicado em 16 de março na Nature Geoscience e capa da edição de abril, o estudo foi liderado pelos bioquímicos Jarmo Kalinski e Daniel Petras, da Universidade da Califórnia em Riverside. O alvo não foi o plástico visível na superfície, e sim a matéria orgânica dissolvida, a mistura de moléculas que sustenta a base das cadeias alimentares marinhas e movimenta parte do ciclo do carbono no mar.

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A distribuição desenha um gradiente nítido. Nos conjuntos costeiros, a mediana do sinal de moléculas sintéticas chegou a 20%. Em mar aberto, caiu para cerca de 0,5%. Em casos extremos, como foz de rios que recebem esgoto sem tratamento ou tratado de forma precária, o índice passou de 50%, e alcançou 76% nos pontos mais contaminados, segundo o levantamento divulgado pela Agência FAPESP. Mesmo a mais de 20 quilômetros da costa, compostos de origem humana ainda respondiam por cerca de 1% da matéria orgânica detectada. "Em escala global, é uma quantidade enorme de material", disse Petras.

O que domina esse sinal não é o que a intuição sugere. Pesticidas e fármacos concentram-se perto da linha de costa, mas são os compostos industriais, usados em plásticos, lubrificantes e produtos de consumo, que formam o grosso da assinatura humana no oceano. "Os químicos industriais compõem a maior parte do sinal humano que estamos vendo", afirmou Kalinski. Entre as classes mais disseminadas aparecem polialquileno glicóis, ftalatos e organofosfatos, presentes em todos os ambientes amostrados. Os cinco poluentes industriais mais detectados apareceram em mais de 30% das amostras. Ftalatos tornam plásticos flexíveis. Organofosfatos entram em materiais industriais e atuam como retardantes de chama.

Os fármacos contam outra história, mais urbana. Cinco metabólitos foram detectados em 10% a 37% das amostras, com destaque para um derivado do atenolol, anti-hipertensivo de uso corrente, seguido por delorazepam, ácido nalidíxico, cloroquina e valsartana. DEET e icaridina, ativos de repelentes, apareceram em 30% e 6% das amostras. Bruno Ruiz Brandão da Costa, coautor brasileiro do estudo e pesquisador do Instituto de Biociências da USP e do Instituto de Pesquisas Ambientais, pondera que a frequência de detecção não reflete apenas o volume de consumo dessas substâncias. Ela depende também da persistência das moléculas na água e da facilidade com que são identificadas.

Há uma limitação metodológica que precisa ser lida com precisão. A técnica funciona como radar, não como balança. Ela mostra quais compostos estão presentes e qual proporção ocupam no conjunto detectado, sem medir concentração em miligramas por litro. Parte das substâncias só apareceu graças a redes moleculares, ferramenta que agrupa compostos por semelhança estrutural e permite reconhecer metabólitos de medicamentos que nenhum banco de dados havia catalogado. Quantificar cada poluente exigiria análises dirigidas, uma a uma. É o próximo passo, e ainda não foi dado.

A consequência que interessa a quem monitora risco sistêmico não está na toxicidade isolada de cada molécula. Está no fato de que substâncias industriais já compõem parcela mensurável do estoque de carbono orgânico dissolvido no mar. Alguns desses compostos ocupam a fronteira entre molécula orgânica convencional e nanoplástico, o que embaralha a separação entre poluição química e poluição plástica. Se essa fração participa da ciclagem de carbono, um dos serviços que mais pesam na contabilidade climática do oceano, os modelos que hoje precificam esse serviço trabalham com um inventário incompleto.

Isso conversa com um diagnóstico anterior. Em 2022, Linn Persson e colegas argumentaram na Environmental Science & Technology que o limite planetário das novas entidades, categoria que abrange substâncias sintéticas e plásticos, já foi ultrapassado, porque a produção e a liberação anuais crescem mais rápido do que a capacidade global de avaliar e monitorar. O mesmo ano trouxe o retrato dos rios: Wilkinson e coautores mediram resíduos farmacêuticos em 1.052 pontos de 258 rios em 104 países, na PNAS. O estudo agora publicado fecha a rota, do encanamento ao mar.

Locais onde as amostras foram coletadas - Imagem: Jarmo-Charles J. Kalinski et al./Nature Geoscience

A resposta regulatória segue travada. As negociações do tratado global contra a poluição plástica foram suspensas em Genebra, em agosto de 2025, sem consenso sobre o texto. O comitê elegeu novo presidente, o diplomata chileno Julio Cordano, em fevereiro de 2026, e a sessão decisiva ficou marcada para março de 2027.

No Brasil, a origem do sinal costeiro tem nome e número. Cerca de 90 milhões de brasileiros não têm coleta de esgoto e apenas 51,8% do esgoto gerado recebe tratamento antes de voltar ao ambiente, segundo o Instituto Trata Brasil. Esse volume desemboca exatamente nos estuários onde o estudo internacional registrou suas frações mais altas. E a contaminação não para na costa: pesquisadores do Instituto Oceanográfico da USP e do Ipen encontraram microplásticos e poluentes orgânicos persistentes, PCBs e PBDEs, em sedimentos, peixes e invertebrados coletados entre 400 e 1.500 metros de profundidade na Bacia de Santos, a cerca de 140 quilômetros da costa, em trabalho publicado no Marine Pollution Bulletin.

O ponto cego do levantamento global é geográfico, e o Brasil está dentro dele. Os dados se concentram na América do Norte e na Europa, com cobertura limitada do Hemisfério Sul e quase nenhuma representação de regiões como Sudeste Asiático, Índia e Austrália. O Atlântico Sul, que banha 8 mil quilômetros de litoral brasileiro, não entrou na amostragem por falta de estudos anteriores com a mesma metodologia. Petras busca parceiros para cobrir a lacuna. "A ausência de dados não significa que o problema não esteja lá", disse Kalinski.

*Com informações da Agência FAPESP e Nature Geoscience.

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