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Escrito por Neo Mondo | 6 de novembro de 2025
O elo invisível da transição energética - Foto: Ilustrativa/Freepik
Por - Alicia Argüello*, especial para Neo Mondo
Enquanto o mundo celebra grandes marcos no crescimento das energias renováveis — com a capacidade solar e eólica atingindo níveis recordes em escala global —, enfrentamos uma realidade incômoda: estamos construindo o futuro da energia sobre uma base frágil. A infraestrutura de transmissão, responsável por levar essa energia limpa de fazendas solares e parques eólicos remotos até nossas cidades e indústrias, está ultrapassada.
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Além disso, 2024 foi o ano mais quente já registrado, e a demanda global por eletricidade cresceu 4% — o equivalente a adicionar um país do tamanho do Japão à rede elétrica de um dia para o outro. Assim, mesmo com o avanço das energias renováveis, uma crise silenciosa se desenrola: nossos sistemas de transmissão simplesmente não conseguem acompanhar, e a crise climática está longe de ser resolvida.
Como líder de sustentabilidade em uma empresa cujas tecnologias atendem mais de três bilhões de pessoas, testemunho essa desconexão crítica de perto. Para triplicar a capacidade renovável até 2030 — um compromisso firmado por quase 200 países na COP28 —, não basta construir mais painéis solares e turbinas eólicas; é preciso revolucionar completamente a infraestrutura da rede elétrica. Os números são alarmantes: até 2050, o sistema elétrico global precisará de quatro vezes a capacidade atual de geração, e será necessário transmitir três vezes mais eletricidade do que em 2020.
Sem investimentos maciços em expansão e modernização das redes, os projetos renováveis permanecerão isolados, enquanto os combustíveis fósseis preencherão a lacuna — aumentando as emissões e comprometendo o futuro das próximas gerações. Isso já está acontecendo: projetos solares e eólicos aguardam anos por conexão à rede; energia limpa é desperdiçada por falta de capacidade de transmissão; e consumidores continuam dependentes de fontes poluentes porque a eletricidade renovável não consegue chegar até eles.
O Compromisso Global de Armazenamento de Energia e Redes Elétricas, firmado na COP29, marcou um momento histórico — foi a primeira vez que a infraestrutura de transmissão foi reconhecida como pilar da agenda climática internacional. Como destacou a Global Renewables Alliance (GRA):
“Esses investimentos são vitais para integrar fontes renováveis variáveis, garantir confiabilidade e possibilitar segurança energética por meio de um sistema moderno e flexível — um pré-requisito para alcançar a meta global de triplicar as energias renováveis.”
Mas reconhecimento não basta. Precisamos de ação urgente e coordenada.
A transição energética não se resume a substituir carvão por solar ou gás por eólica. Trata-se de gerir um sistema fundamentalmente mais complexo. As redes elétricas do futuro devem ser flexíveis e resilientes o suficiente para lidar com a variabilidade das fontes renováveis, integrar milhões de pontos de geração distribuída e manter a estabilidade diante das constantes flutuações entre oferta e demanda.
Na Hitachi Energy, desenvolvemos tecnologias como a HVDC (corrente contínua de alta tensão), que permite transmitir grandes volumes de energia renovável por longas distâncias com perdas mínimas, além de apoiar a estabilidade da rede. Nossas soluções EconiQ comprovam desempenho ambiental excepcional, incluindo alternativas livres de SF₆ — um gás isolante cujo potencial de aquecimento global é 24.300 vezes maior que o do CO₂. Nosso portfólio reduz emissões ao longo de todo o ciclo de vida dos equipamentos.
Além disso, a digitalização e soluções como o portfólio Grid-eNure — com tecnologias de ponta como compensadores estáticos (STATCOM) e sistemas de armazenamento de energia (ESS) — são essenciais para fortalecer a resiliência das redes, garantindo flexibilidade e modernização por meio do controle de fluxos de tensão e da gestão da variabilidade.
Mas a tecnologia sozinha não resolverá o problema — precisamos de políticas, financiamento e coordenação global.

Sem o devido investimento em redes elétricas, corremos o risco de ver projetos renováveis incapazes de atender aos consumidores, instabilidade crescente devido à oferta variável, dependência contínua de fontes fósseis de respaldo e o fracasso em atingir a meta climática de 1,5°C. O custo da inação não é apenas ambiental — é também econômico, social e moral.
Como alguém que trabalha há mais de uma década na interseção entre sustentabilidade e tecnologia energética, sei que temos as ferramentas para enfrentar esse desafio. O que precisamos agora é de vontade política, investimento coordenado e o reconhecimento de que a infraestrutura de transmissão é a base de um futuro energético sustentável.
A COP30 representa uma oportunidade única para transformar reconhecimento em ação. Precisamos de políticas que incentivem o investimento em redes, marcos regulatórios que acelerem a aprovação de projetos de transmissão e cooperação internacional para desenvolver redes interconectadas que maximizem o potencial renovável global.
O elo perdido da transição energética não é a falta de tecnologia nem de recursos financeiros — é a vontade coletiva de priorizar a infraestrutura que torna tudo possível. Sem redes modernas, resilientes e flexíveis, nossas ambições climáticas permanecerão apenas isso: ambições.
O futuro energético que prometemos às próximas gerações depende das decisões de transmissão que tomarmos hoje. Não podemos permitir que esse elo continue perdido.
*Alicia Argüello é Diretora Global de Sustentabilidade da Hitachi Energy.
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