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Onde o mangue encontra o mar: Universo Paralello leva o programa Mangue Atlântico a 20 mil pessoas em Pratigi

Escrito por Neo Mondo | 5 de novembro de 2026

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Mangue, restinga e mar cercam a pista onde milhares de pessoas dançam sob os coqueiros de Pratigi, na cidade temporária que o Universo Paralello ergue a cada dois anos em Ituberá (BA) - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Festival esgotado recebe mais de 20 mil pessoas na Praia de Pratigi, em Ituberá (BA), entre 27 de dezembro e 4 de janeiro. Na 19ª edição, leva o programa Mangue Atlântico a uma área protegida, com laboratório de plástico, alerta sobre microplástico e roteiro pelo manguezal com marisqueiras e pescadores

Os cerca de 15 quilômetros da Praia de Pratigi, em Ituberá, no Baixo Sul da Bahia, passam boa parte do ano sem gente na areia. Entre 27 de dezembro de 2026 e 4 de janeiro de 2027, recebem mais de 20 mil pessoas de várias partes do Brasil e do mundo. A 19ª edição do Festival Universo Paralello ergue ali uma cidade temporária de 500 mil metros quadrados, entre restinga, coqueirais e a foz onde o rio encontra o mar, com ingressos esgotados antes do anúncio da programação artística. O tema desta edição é Brasilidades. A novidade ambiental é o Mangue Atlântico, programa que liga o festival ao manguezal, à Mata Atlântica e às comunidades que vivem deles.

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O festival acontece dentro de uma área protegida. A APA do Pratigi foi criada pelo governo da Bahia em 1998 e ampliada em 2001 para cerca de 85,7 mil hectares em cinco municípios. O plano de manejo descreve praia, restinga, manguezais e floresta ombrófila densa no mesmo corredor e cita a pesca e a coleta de caranguejo entre os usos das ilhas da região. O Universo Paralello ocupa a praia desde 2003, sempre a cada dois anos. Por isso chega agora à 19ª edição, embora tenha nascido em 1997, como uma celebração entre amigos idealizada pelo DJ e produtor Juarez Petrillo, o Swarup, e pela DJ Ekanta Jake.

O manguezal está no centro do programa por uma razão que a ciência mede em toneladas. Em 2022, o ecólogo André Rovai, da Louisiana State University, calculou na Frontiers in Forests and Global Change que o primeiro metro de solo dos manguezais brasileiros armazena até 4,3 vezes mais carbono que o de qualquer outro bioma do país, Amazônia incluída. O estoque fica no solo, preservado pela falta de oxigênio, e não nas árvores, que guardam menos carbono que as da floresta amazônica. A Bahia tem cerca de 67,9 mil hectares de manguezal, a quarta maior área do Brasil, segundo o MapBiomas.

É nesse terreno que o festival lança o Mangue Atlântico, dirigido pela engenheira ambiental Aline Leão. São três frentes. O ECOLAB processa, com mini trituradores e prensas térmicas, o plástico recolhido nas praias e o transforma em joias e roupas, num ciclo que o público acompanha inteiro e que termina num desfile de moda. O ECOPEIXE, instalação de 3 metros montada na areia, aponta para o microplástico que chega à cadeia alimentar. A Rota do Caranguejo leva grupos pequenos ao manguezal com pescadores e marisqueiras da região e termina com degustação da cozinha local.

O mangue em volta de Pratigi já tem quem viva dele. O canal de Serinhaém, em Ituberá, deságua na Baía de Camamu, a terceira maior baía do país. Entre outubro de 2017 e setembro de 2018, pesquisadores da Universidade do Porto e da UFPR acompanharam os desembarques de cinco comunidades do canal, entre elas a Ilha da Barreta. Tainha e siri lideram a captura, feita sozinho ou em dupla, de canoa de madeira, com rede de emalhe e armadilha. No limite norte da APA, em Barra dos Carvalhos, vila de Nilo Peçanha às margens do Rio dos Patos, um estudo da UFBA com marisqueiras mostrou que todas as entrevistadas completavam a renda com trabalho de catação. Em escala nacional, o governo federal estima em mais de 500 mil as famílias que dependem diretamente dos manguezais.

O caranguejo do roteiro também tem história no município. A Revista Pesquisa FAPESP registrou que o pesquisador Jaime Doxsey, da Ufes, coordenou em Ituberá um projeto com catadores de caranguejo, desdobramento de um trabalho no Espírito Santo que buscava melhorar a vida dos catadores e proteger o mangue ao mesmo tempo. O animal sustenta mais que a renda. Pesquisa da Unesp divulgada pela Agência FAPESP mostrou que o caranguejo-uçá inicia, dentro da própria toca, parte do fluxo de nutrientes que alimenta a cadeia do manguezal.

O lixo de praia chega ao mangue com a maré. Em Barra Grande, na península de Maraú, do outro lado da Baía de Camamu, pesquisadores ouviram as marisqueiras locais: 80,86% disseram não ver poluição nas áreas de coleta do manguezal, e as demais relataram garrafas, sacos e latas que aparecem na maré alta. Quando o plástico se fragmenta, alcança os caranguejos. Na região estuarina de Belém, a oceanógrafa Nicole Aleixo, da UFPA, encontrou microplásticos no estômago, nas brânquias e no hepatopâncreas de sararás, pequenos caranguejos que se alimentam revirando a lama, segundo reportagem da Mongabay de agosto de 2026.

O festival trabalha com a empresa Greenhub desde 2011, informa o site oficial. Na edição passada, separou 9.985 quilos de material reciclável, entre PET, alumínio, plástico e papelão, enviados a recicladores da região de Valença. Cada edição é documentada em relatório técnico, e a de 2024 registrou o maior índice de recicláveis por pessoa das últimas edições. Para esta edição, o festival contratou e capacitou 258 agentes ambientais de Ituberá e Nilo Peçanha e mantém 84 agentes de limpeza e 250 pontos de coleta seletiva em operação 24 horas. Usa sanitários secos, que dispensam água potável nas descargas, e desde a edição passada não aceita embalagem plástica na praça de alimentação.

O modelo tem paralelo em Portugal. O Boom Festival, também bienal e dedicado à música psicodélica, recebe cerca de 40 mil pessoas à beira do lago de Idanha-a-Nova. Usa sanitários de compostagem desde 2006 e publica cartas ambientais com os números de reciclagem do mês do evento.

A operação ambiental do Universo Paralello começa em 21 de novembro e termina em 18 de janeiro, duas semanas depois que o último palco desliga. Aline Leão resume o que o Mangue Atlântico pretende deixar no território. “A proposta é integrar os saberes tradicionais à proteção da biodiversidade e gerar trabalho e renda justa para marisqueiras, pescadores e comunidades quilombolas que dependem diretamente desses recursos.”

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Aline Leão - Foto: Arquivo pessoal

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