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Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 20 de julho de 2026
Vacina que protege contra o herpes-zóster e pode representar um investimento em longevidade saudável. Estudos ampliam o olhar sobre os benefícios da prevenção para além da pele - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DRA. MARCELA BARALDI*
Muito além das lesões na pele, a prevenção pode representar um investimento em longevidade saudável.
Quando pensamos em sustentabilidade, é comum imaginar florestas preservadas, energia limpa e redução das emissões de carbono. Mas existe uma dimensão igualmente relevante e, muitas vezes, esquecida: a sustentabilidade da saúde.
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Uma sociedade sustentável não é apenas aquela que preserva os recursos naturais. É também aquela que consegue manter sua população saudável, ativa e independente por mais tempo.
Nesse contexto, uma vacina tradicionalmente conhecida por prevenir uma doença de pele dolorosa começa a ganhar um significado ainda maior. Estamos falando da vacina contra o herpes-zóster.
O herpes-zóster é causado pelo mesmo vírus da catapora, o Varicella-zoster. Após a infecção na infância, o vírus permanece adormecido dentro dos nervos por décadas. Com o envelhecimento do sistema imunológico — ou em situações de imunossupressão — ele pode ser reativado. O resultado é uma doença marcada por bolhas dolorosas, ardência intensa e uma das complicações mais incapacitantes da dermatologia: a neuralgia pós-herpética, uma dor que pode persistir por meses ou até anos.
No Brasil, estima-se que aproximadamente 1 em cada 3 pessoas desenvolverá herpes-zóster ao longo da vida, sendo o risco significativamente maior após os 50 anos. Por isso, a vacinação nessa faixa etária já é amplamente recomendada por diversas sociedades médicas.
Mas os efeitos da vacina podem ir além da pele. Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar uma pergunta intrigante: será que evitar episódios de herpes-zóster também poderia proteger o cérebro? A hipótese faz sentido do ponto de vista biológico. Sempre que o vírus é reativado, o organismo desencadeia uma intensa resposta inflamatória. Embora essa inflamação seja necessária para combater a infecção, episódios repetidos podem contribuir para um estado conhecido como inflammaging, ou inflamação crônica de baixo grau — um dos principais mecanismos associados ao envelhecimento e ao desenvolvimento de doenças neurodegenerativas.
Em 2025, um estudo publicado na revista Nature trouxe resultados que chamaram a atenção da comunidade científica: pessoas vacinadas contra o herpes-zóster apresentaram uma redução aproximada de 20% no risco de desenvolver demência durante o período de acompanhamento. Vale destacar que isso não significa que a vacina previna a demência de forma definitiva — a ciência ainda busca compreender exatamente quais mecanismos estão envolvidos, e novos estudos serão necessários para confirmar essa relação. Mesmo assim, os dados reforçam uma ideia cada vez mais presente na medicina moderna: prevenir processos inflamatórios pode ser uma das estratégias mais eficazes para promover um envelhecimento saudável.
Existe uma tendência de associarmos sustentabilidade apenas às questões ambientais, mas o conceito é muito mais amplo. Sistemas de saúde sustentáveis são aqueles capazes de reduzir doenças evitáveis, minimizar hospitalizações, preservar a autonomia das pessoas e usar melhor os recursos disponíveis. As vacinas talvez sejam um dos maiores exemplos dessa lógica: evitam sofrimento humano, reduzem custos assistenciais, diminuem internações, preservam a capacidade funcional das pessoas e aliviam a sobrecarga sobre famílias, cuidadores e serviços de saúde. Quando um idoso permanece independente por mais tempo, toda a sociedade se beneficia. Isso também é sustentabilidade.
O Brasil envelhece rapidamente. Nas próximas décadas, teremos um número crescente de pessoas acima dos 60 anos convivendo com doenças crônicas e maior risco de perda cognitiva. Essa realidade exige uma mudança de paradigma: precisamos deixar de enxergar a saúde apenas como tratamento de doenças e passar a valorizá-la como investimento em qualidade de vida. Cada estratégia preventiva bem indicada representa anos adicionais de autonomia, produtividade e bem-estar — e poucas intervenções possuem uma relação custo-benefício tão consolidada quanto a vacinação.
Como dermatologista, acompanho diariamente pacientes que acreditam que o herpes-zóster é apenas uma "ferida na pele". Mas a medicina tem mostrado que algumas doenças produzem efeitos muito mais profundos do que conseguimos enxergar. Talvez a maior lição trazida pelas pesquisas recentes seja justamente esta: a prevenção não protege apenas contra uma infecção. Ela pode reduzir processos inflamatórios, preservar funções, manter pessoas independentes por mais tempo e contribuir para uma sociedade mais saudável.
Quando pensamos em sustentabilidade, costumamos olhar para o planeta. Talvez seja hora de ampliarmos essa visão.
*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

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