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Trump não declarou guerra ao comércio. Declarou guerra ao clima

Escrito por Neo Mondo | 27 de fevereiro de 2026

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Trump no centro da disputa: entre tarifas, fósseis e o redesenho da ordem econômica global, a política comercial dos EUA volta a tensionar o futuro da transição energética - Foto: Ilustrativa/Pixabay

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

O tarifaço derrubado pela Suprema Corte voltou pela janela com outro nome. A transição energética global vai pagar a conta. E o Brasil, que exporta US$ 37 bilhões para os EUA, ainda nao sabe o que perdeu

Na sexta-feira, 20 de fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou as tarifas mais agressivas de Trump por 6 votos a 3. A decisão foi celebrada nos mercados. Durou menos de 48 horas. No sábado, Trump anunciou uma tarifa global de 10% sobre praticamente todos os parceiros comerciais do mundo, desta vez apoiada na Seção 122 do Trade Act de 1974 — um instrumento legal diferente, mais antigo, que o tribunal não havia tocado. Na terça-feira, disse que subiria para 15%. O presidente chamou a decisão da Suprema Corte de infeliz e prometeu uma solução ainda mais forte. Ninguém que acompanha Trump de perto ficou surpreso. A surpresa seria se ele tivesse parado.

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O que está acontecendo não é uma guerra tarifária no sentido clássico — um país taxando outro para proteger uma indústria específica ou corrigir um desequilíbrio comercial pontual. É uma reorganização deliberada da ordem econômica global em torno de um princípio simples: os Estados Unidos primeiro, o resto que se vire. E dentro desse princípio, há uma lógica energética específica que raramente aparece nas manchetes sobre tarifas, mas que é talvez o aspecto mais consequente para quem se preocupa com clima.

Trump não apenas taxou importações. Ele taxou a transição energética. Painéis solares vindos do Sudeste Asiático — onde está concentrada a maior parte da produção mundial — encarecem diretamente com as tarifas. Turbinas eólicas chinesas, que são as mais baratas e eficientes do mercado global, ficaram ainda mais inacessíveis para projetos fora dos EUA que dependem de financiamento americano. Baterias de lítio, cuja cadeia produtiva passa em larga escala pela China, tiveram seus custos elevados em até 17,5% segundo estimativas da BloombergNEF. A consultoria McKinsey, em parceria com a Oxford Economics, projetou que no cenário de máxima tensão tarifária a capacidade solar instalada nos EUA em 2035 seria 9% menor do que no cenário sem barreiras comerciais. Na União Europeia, a redução projetada é de 7%.  Não são números abstratos. São gigawatts que não vão existir. São emissões que vão continuar acontecendo no lugar deles.

Mas o dano não é só o que as tarifas encarecem. É o que elas sinalizam. Trump usou explicitamente a pressão tarifária para forçar países a comprarem combustíveis fósseis americanos. O New York Times documentou como a administração negociou alívios tarifários condicionados a compromissos de importação de gás natural liquefeito e petróleo dos EUA. A União Europeia, para escapar das tarifas mais agressivas, concordou em ampliar suas compras de GNL americano. Não é efeito colateral. É política. É uma política que usa o poder econômico da maior economia do mundo para puxar o restante do planeta de volta aos fósseis no momento em que a janela de ação climática está se fechando.

As emissões globais no primeiro semestre de 2025 foram 0,13% maiores do que no mesmo período de 2024, segundo a Climate Trace. Parece pouco. Mas num momento em que o IPCC diz que as emissões precisam cair 43% até 2030 para manter o aquecimento abaixo de 1,5 grau, qualquer aumento é movimento na direção errada. E os EUA foram responsáveis por mais da metade desse crescimento. As emissões americanas subiram 1,4% nos primeiros seis meses de 2025. O consumo de carvão nos EUA cresceu 18% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior. São números de um país que não apenas saiu do Acordo de Paris, mas está ativamente construindo uma política de emissões crescentes — e usando seu peso comercial para exportar essa política para aliados e parceiros.

Para o Brasil, o quadro é especialmente desconfortável porque é ambíguo. Em 2025, as exportações brasileiras aos EUA recuaram 6,6%, somando US$ 37,7 bilhões. As importações de produtos americanos cresceram 11,3%, para US$ 45,2 bilhões. O resultado foi um déficit bilateral de US$ 7,5 bilhões — o Brasil comprou mais dos EUA do que vendeu. E mesmo assim levou tarifa. A alíquota de 50% que havia sido imposta sobre produtos brasileiros em julho de 2025 — e que foi uma das derrubadas pela Suprema Corte — já havia causado estragos: 22% das exportações brasileiras aos EUA, equivalentes a US$ 8,9 bilhões, estavam sujeitas a essas tarifas. Com a nova alíquota de 10% pela Seção 122, o Brasil volta a pagar — desta vez sem saber por quanto tempo, já que o instrumento legal tem limite de 150 dias e precisará de nova base jurídica ou aprovação do Congresso para se manter.

Nessa incerteza jurídica reside um risco específico para o agronegócio e para a indústria verde brasileira. O Brasil é um dos maiores exportadores mundiais de commodities agrícolas, de ações de papel e celulose certificadas, de calçados, de açúcar e etanol. Parte dessa produção tem mercado nos EUA. Parte do que o Brasil quer construir — um posicionamento como líder da bioeconomia, como exportador de carbono, como protagonista da transição energética global — depende de credibilidade junto a mercados que valorizam ativos verdes. E quando o principal comprador global sinaliza que não valoriza ativos verdes, que prefere fósseis, que usa tarifas como arma e não como política comercial, o espaço de negociação do Brasil encolhe.

Há um detalhe que passou quase despercebido nas listas de exceções tarifárias anunciadas por Washington. Minerais críticos, produtos energéticos e recursos naturais estão isentos das novas tarifas. Não é generosidade. É estratégia. Os EUA não querem encarecer o que precisam importar para sua própria transição interna — aquela que acontece a despeito do discurso público de Trump, porque o mercado de energia renovável americano é grande demais para ser desmontado só com retórica. O que querem é controlar o acesso a esses recursos antes que outros o façam. A isenção para minerais críticos é a mesma lógica do investimento de US$ 565 milhões na Serra Verde brasileira: garantir o suprimento antes de precisar dele, no território de um país que ainda não decidiu o que quer ser nessa equação.

O que 2026 está revelando é que a ordem econômica global construída nos últimos 30 anos — com regras multilaterais, organismos de arbitragem e acordos vinculantes — está sendo substituída por outra coisa. Ainda não tem nome claro. Mas tem contorno: é bilateral, é transacional, é curto-prazista, é hostil a qualquer comprometimento de longo prazo que limite a liberdade de ação americana. O Acordo de Paris é um comprometimento de longo prazo. O mercado de carbono é um comprometimento de longo prazo. A transição energética é um comprometimento de longo prazo. Todos eles ficam mais frágeis num mundo onde a maior economia se recusa a jogar com as mesmas regras que ajudou a criar.

imagem de donald trump
Trump sob cores de alerta: a política tarifária volta ao centro do tabuleiro global e projeta novas incertezas sobre comércio, energia e clima - Foto: Ilustrativa/Pixabay

O clima não negocia. Não tem advogados. Não entra com ação na Suprema Corte. Não ameaça com retaliação. Simplesmente continua aquecendo enquanto os governos discutem qual parágrafo de qual lei permite cobrar qual tarifa de qual país. E cada semana de incerteza jurídica, cada acordo que troca meta climática por cota de GNL, cada painel solar que não é instalado porque ficou caro demais, cada turbina que não gira porque o financiamento secou — tudo isso tem um custo físico, mensurável, irreversível. Trump pode mudar de instrumento legal toda vez que a Suprema Corte derruba o anterior. O dióxido de carbono não muda. Uma vez na atmosfera, fica.

 

 

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