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POR – CLAUDIA GUADAGNIN, ESPECIAL PARA NEO MONDO
Hoje (05 de setembro), é Dia Nacional da Amazônia e, para lembrar a data, o Neo Mondo convidou João Tezza Neto, que é economista e doutor pelo Centro de Ciências do Ambiente e especialista em Gestão Econômica e Estratégica de Negócios pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) para falar sobre o potencial da bioeconomia na Amazônia.
João tem vasta experiência em gestão de projetos para o desenvolvimento da bioeconomia na Amazônia e sua trajetória na Original Trade, incubada no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), foca em oferecer serviços e produtos para uma sociedade mais sustentável e ambientalmente responsável.
Com ênfase em educação e sustentabilidade, João desempenhou papel crucial na criação da Academia Amazônia Ensina (ACAE), instituição que, por meio de expedições ao território amazônico, busca preparar indivíduos para os desafios do século 21, ensinando sustentabilidade econômica e ecológica utilizando a Amazônia como espaço de pesquisa.
Foi coordenador técnico do primeiro projeto de REDD+ na Amazônia em 2008 e tem participação em diversas iniciativas relacionadas à conservação de geração de renda no bioma. Seu compromisso com a Sustentabilidade o levou a criar a startup Darvore Cosméticos da Amazônia, resultado de pesquisas com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT).
João também já contribuiu com o Plano Estratégico do Programa Prioritário de Bioeconomia do Comitê de Atividades de Pesquisa e Desenvolvimento na Amazônia (CAPDA), da Superintendência da Zona Franca de Manaus, e tem sido há anos atuante no campo da bioeconomia amazônica, com conhecimento em sustentabilidade econômica, conservação florestal e estímulos à educação.
Qual é o potencial da Bioeconomia na Amazônia?
Primeiro, é necessário conceituar bioeconomia na Amazônia. Em 2021, Dra. Andrea Waichman e eu publicamos um artigo em busca desse conceito e chegamos à seguinte proposição: a bioeconomia para a Amazônia pode ser definida como “aquela realizada a partir da exploração dos recursos oriundos da biodiversidade da região considerando a conservação dos ecossistemas naturais; a promoção de uma agricultura multifuncional de base agroecológica; os fluxos e ciclos de regeneração natural; e o tratamento e reaproveitamento de resíduos, visando o fortalecimento de cadeias de produção nativas e o desenvolvimento social local”.
O potencial é gigantesco, do tamanho da própria Amazônia. Imagine a biodiversidade da Amazônia como um tesouro guardado na floresta, contendo soluções inexploradas para desafios globais. Agora, imagine a bioeconomia como sendo a chave que nos permite desbloquear esse tesouro, transformando elementos naturais em riqueza sustentável por meio de setores como produtos naturais, biotecnologia, pesquisa, serviços ambientais, serviços de turismo e educação.
Por que esse potencial é tão mal aproveitado ou mesmo ignorado?
A exploração consciente da biodiversidade amazônica é como decifrar um código ancestral, requerendo um olhar atento para desvendar suas possibilidades. Não aproveitamos porque nossa maravilhosa tecnologia não está voltada para lidar com a biodiversidade de florestas nativas. No nível consciente e subconsciente, floresta é associada ao atraso e a tudo que é primitivo. A floresta desperta um medo ancestral nos seres humanos, e que se converte em um preconceito paralisante. Há 10 mil anos, entramos na era do sedentarismo e aprendemos a domesticar espécies vegetais e animais. Isso nos colocou absolutos no topo da cadeia alimentar entre os animais do planeta. Domesticamos o que vem da biodiversidade de florestas e ao fazer isso, desmatamos as florestas. Esse é um paradoxo que fingimos não existir até agora, mas com nove bilhões de pessoas doutrinadas ao superconsumo, esse modelo não é mais possível, chegou definitivamente no seu limite. Além disso, toda inventividade humana está claramente relacionada à observação da natureza, seja quando copiamos e sintetizamos uma molécula “milagrosa” ou quando nos inspiramos nos pássaros e estudamos a asa da libélula para melhorar a eficiência da asa dos aviões no século 21.
O volume de matéria-energia existente em uma floresta nativa é infinitamente superior a de uma plantação de milho, apenas não dispomos de tecnologia capaz de converter essa matéria energia em valor. Com a visão certa e o potencial tecnológico disponível na sociedade contemporânea, a opção pelo desmatamento equivale a desistir de um baú de ouro para cavar uma mina de carvão. Se quisermos “fazer a floresta valer mais em pé do que derrubada” inevitavelmente teremos que reprogramar um modelo profundamente enraizado em nosso sistema de crenças. Precisamos trocar discurso e narrativas pela ação, e ação requer recursos humanos e orçamento para tecnologia e infraestrutura. Quando isso acontecer, teremos uma bioeconomia baseada na biodiversidade de florestas nativas poderosas e capazes de gerar renda, emprego e riqueza. Com todo conhecimento acumulado de que dispomos, inverter essa lógica seria possível relativamente em pouco tempo, talvez em 20 anos de esforços constantes. Isso pode parecer muito teórico e filosófico, mas francamente, não iremos resolver o problema tão complexo apenas com superficialidades.
Como desarmar o paradoxo entre a inovação para a agricultura e o desmatamento?
Precisamos adotar uma abordagem sinérgica, onde inovações sustentáveis fortaleçam a coexistência entre produção agrícola e preservação florestal, como ramos entrelaçados de uma mesma árvore. Desenvolver sistemas tecnológicos de produção extrativistas e agroecológicos que possam gerar alta produtividade e escala a partir da diversidade de produtos e processos, ao contrário da monocultura, que tem na exploração de uma única espécie a chave para conseguir escala. Uma mudança desse porte é impossível pelas mãos do capital privado. Será necessário o protagonismo do Estado para fazer uma inflexão tecnológica e de mentalidade, para criar no médio prazo uma nova plataforma de prosperidade baseada em florestas nativas. Também precisamos criar mecanismos de financiamento à iniciativa privada, resilientes e apropriados a essa realidade. Aliás, a agropecuária na Amazônia é altamente subsidiada pelos sistemas de financiamento disponíveis, o que provoca os níveis paupérrimos de produtividade média. Estudos da EMBRAPA apontam que podemos facilmente triplicar a criação de bovinos na Amazônia sem derrubar um hectare a mais. Imagine o impacto que isso não teria para o valor de nossa carne no mercado internacional e no volume produzido, considerando que a Amazônia responde por cerca de 60% da produção bovina nacional.
Tudo isso, pode acontecer a partir de uma mudança de visão, deixando de lado o preconceito com as florestas e dando o devido respeito que a biodiversidade merece. Esse preconceito está presente na formação básica e avançada das academias de ciência. Estudantes saem de suas formações sem nenhuma ou quase nenhuma formação para sustentabilidade social e ecológica, ignorando o conteúdo que mais interessa a nova geração.
Por que a vivência local é tão crucial para empreendedorismo sensível na região amazônica?
Empreendedores que abraçam essa vivência podem navegar por desafios e oportunidades com a sensibilidade de quem compreende os segredos de uma paisagem complexa, garantindo um impacto real e duradouro. Apreender o modo de vida das populações locais permite compreender nuances e desafios específicos da Amazônia, capacitando empreendedores a tomar decisões mais conscientes, impactando positivamente tanto a natureza quanto as comunidades. Sem uma experiência local concreta, empreender, que já é por si só uma prova de resiliência e superação, na Amazônia se transforma em uma missão quase impossível.
Como preparar pessoas para enfrentar o paradoxo entre inovação e desmatamento na agricultura amazônica?
É essencial educar para uma inovação consciente, onde a ciência e a tecnologia se alinhem à preservação ambiental, evitando o desmatamento. Precisamos criar um segmento de empresas que se comprometem integralmente com os produtos florestais. Nesse caso, seu crescimento irá gerar proporcionalmente valorização da floresta, sem estimular cadeias produtivas ligadas ao desmatamento. Esse é um caminho mais difícil, mas cada empreendedor terá que encontrar o equilíbrio complexo entre a viabilidade econômica, inovação e respeito aos processos ecológicos. A chave está em na qualidade de seu produto e acertar em cheio o posicionamento de mercado para encontrar seu consumidor ideal, lembrando que é impossível convencer o consumidor apenas com a ideia de sustentabilidade. Os produtos da sociobiodiversidade precisar atingir a excelência em todas suas dimensões. A medida em que formos evoluindo nas técnicas e na diferenciação de mercado, os produtos puros da biodiversidade irão ganhando escala e reduzindo custos para serem mais acessíveis a todos.
Qual é o papel da ACAE na formação de empreendedores sensíveis?
A ACAE promove uma formação holística, combinando conhecimento teórico e vivências locais, capacitando empreendedores, profissionais e estudantes a liderar com sensibilidade, respeitando os valores culturais e ecológicos.
Através de uma pedagogia que combina o conhecimento teórico avançado ao contato com o saber local, a academia capacita esses empreendedores a liderar com sensibilidade. Eles não são apenas líderes de negócios, mas também defensores da cultura ecológica, valorizando os conhecimentos que vêm das gerações passadas. Também é fundamental oferecer formação adequada para a bioeconomia aos jovens que estão na Amazônia. Eles partem de uma vantagem imensa, pois conhecem as nuances da região e só precisar conhecer melhor a técnica dos negócios para participar dessa grande virada capaz de conciliar desenvolvimento social e econômico com conservação de florestas nativas. A ACAE está procurando parceiros para ampliar a participação local em nossos processos. Como arquitetos de uma coexistência harmoniosa entre desenvolvimento e natureza, eles estão equipados para enfrentar os desafios complexos da região amazônica.
Quais os resultados práticos de preparar empreendedores com sensibilidade para a natureza?
Preparar empreendedores com sensibilidade para a natureza é como plantar sementes que gerarão uma colheita de benefícios imensuráveis. Esses empreendedores sensíveis vão atuar como verdadeiros guardiões do ecossistema, entendendo que a natureza não é apenas um recurso a ser explorado, mas um parceiro vital a ser preservado. Suas soluções não só protegem as florestas, mas também promovem uma compreensão profunda dos serviços ecossistêmicos insubstituíveis que essas florestas fornecem. Eles criam negócios e projetos que geram riqueza, emprego e bem-estar para as comunidades locais, enquanto mantêm os delicados equilíbrios ecológicos e ecossistêmicos. O resultado final é uma teia interconectada de prosperidade, onde a natureza floresce junto com as pessoas.