Amazônia Destaques Economia e Negócios Emergência Climática ENERGIA Meio Ambiente Política Saúde Segurança Sustentabilidade Tecnologia e Inovação
Escrito por Neo Mondo | 24 de março de 2026
Guerra - O mundo nas mãos — entre a energia que sustenta conflitos e a decisão, ainda adiada, de redesenhar o futuro antes que ele seja imposto pelos limites do próprio planeta - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO
Com o barril acima de cem dólares e o mundo sem um roteiro claro para abandonar os combustíveis fósseis, dois processos internacionais tentam transformar urgência geopolítica em arquitetura de governança. O tempo, dizem os cientistas, não é mais uma variável negociável
Há uma ironia cruel no centro da crise energética que o mundo atravessa: o mesmo recurso que financia guerras tornou-se o argumento mais poderoso em favor de sua própria superação. Quando o preço do barril de petróleo saltou de sessenta para mais de cem dólares nas últimas semanas, a espiral inflacionária que se seguiu não foi apenas um choque econômico — foi a demonstração, em tempo real, da fragilidade estrutural de uma civilização construída sobre hidrocarbonetos. E, como toda crise que revela aquilo que já se sabia, ela chegou acompanhada de uma pergunta que os governos ainda não sabem responder: até quando?
Leia também: ESPECIAL SEMANA MUNDIAL DA ÁGUA 2026-NEO MONDO
Leia também: Terras raras: entre Washington, Pequim e Brasília, quem controla o futuro
Esse foi o pano de fundo de um webinar promovido pelo ClimaInfo e pelo Observatório do Clima que reuniu a ministra colombiana de Minas e Energia, Irene Vélez Torres; o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30; o secretário André Andrade, do Ministério do Meio Ambiente do Brasil; e o climatologista Carlos Nobre. O tema declarado era técnico — os roadmaps internacionais para a transição dos combustíveis fósseis — mas o debate que emergiu foi de outra ordem: moral, geopolítica e, em certos momentos, filosófico.
A conversa começou onde precisava começar: no diagnóstico. A Organização Meteorológica Mundial havia publicado, na véspera, mais um relatório confirmando o que a ciência repete há décadas em volumes crescentes. Os últimos onze anos foram os mais quentes desde o início das medições. O sistema climático está em desequilíbrio energético documentado. E o aquecimento acelera, não desacelera. Carlos Nobre foi direto: o overshoot de 1,5°C — a ultrapassagem do limite fixado em Paris — é "praticamente inevitável". A questão não é mais se vamos cruzar esse limiar, mas por quanto tempo e com que intensidade vamos permanecer além dele. "Quanto mais demorarmos para agir", disse o climatologista, "mais difícil será trazer a temperatura de volta." E há riscos que não se negocia: se o aquecimento acionar pontos de não retorno — o colapso da Amazônia, a desintegração do gelo polar — o retorno pode deixar de ser uma opção.
O que torna o momento atual tão particular — e tão perigoso — é que a crise geopolítica e a crise climática não se somam de forma linear. Elas se contradizem. A instabilidade nos mercados de hidrocarbonetos seria, em teoria, uma oportunidade histórica para acelerar a transição: os preços altos tornam as energias renováveis ainda mais competitivas, e a dependência de petróleo e gás de regiões instáveis expõe de forma inequívoca os riscos de uma segurança energética construída sobre fósseis. Mas a resposta imediata de muitos governos tem sido a inversa — aumentar produção, ampliar subsídios, garantir abastecimento pelo caminho mais curto. Irene Vélez Torres nomeou a contradição com precisão: "Este momento pode ser uma oportunidade — mas não é automaticamente uma oportunidade. Depende das decisões políticas que se tomem."
Essa distinção entre possibilidade e escolha é onde o debate sobre transição energética frequentemente se perde. Tecnologicamente, as soluções existem. Economicamente, as renováveis já superam os fósseis em custo marginal na maioria dos mercados. O que falta não é informação — como ressaltou o embaixador Corrêa do Lago — mas a tradução dessa informação em decisão política coordenada. "Grande parte do debate ainda se baseia em uma visão antiga da economia, que já mudou significativamente", observou, sublinhando a lacuna entre a urgência científica e a arquitetura da governança global. São dois os processos internacionais que tentam preencher essa lacuna.
O primeiro, liderado pela Colômbia com apoio da Holanda, culminará na conferência de Santa Marta — um espaço de alto nível para articular uma coalizão de países dispostos a assumir compromissos concretos com o abandono dos combustíveis fósseis, prevista para maio. O segundo, coordenado pela presidência brasileira pós-COP30, busca construir um roadmap técnico capaz de orientar as negociações climáticas subsequentes — com prazo de contribuições encerrado em 31 de março. São processos distintos em natureza, mas convergentes em propósito. "Um ajuda a criar o espaço político", sintetizou Corrêa do Lago, "o outro ajuda a dar forma a esse espaço."
Belém já aconteceu. Os textos aprovados na COP30 reconheceram pela primeira vez o overshoot de 1,5°C como cenário provável — um avanço conceitual que, no entanto, não veio acompanhado de um plano operacional para sair dos fósseis. É exatamente essa lacuna que os dois processos tentam preencher. O roadmap em construção não é um documento formalmente legitimado pela UNFCCC — como o próprio Corrêa do Lago reconheceu, não houve mandato formal para produzi-lo. Sua influência dependerá da qualidade das contribuições incorporadas e da amplitude de vozes que conseguir reunir. "Quanto mais conseguirmos incorporar visões diversas, mais influência o documento terá", disse o embaixador. Não é pouco. Em negociações climáticas, a batalha pelo enquadramento normativo frequentemente precede — e condiciona — o que é possível decidir formalmente.
Para o Sul Global, qualquer roadmap que ignore a assimetria estrutural entre países produtores, consumidores e importadores de energia corre o risco de ser, na prática, inaplicável. Irene Vélez Torres enumerou os obstáculos com uma clareza que frequentemente escapa aos documentos de governança: a dependência econômica dos hidrocarbonetos em países cujos orçamentos públicos são tributários das receitas do petróleo; a distorção dos subsídios que sustentam artificialmente um modelo insustentável; e o peso da dívida externa que retira margem fiscal para a transição. "Para muitos países do Sul Global, a carga da dívida é tão alta que impede ao mesmo tempo pagar compromissos financeiros e realizar a transição econômica necessária." Daí a defesa de mecanismos de ajuste da dívida que permitam trocar obrigações financeiras por investimento social e ação climática — um instrumento político que ainda encontra resistência nos credores do Norte, mas que ganha força à medida que o custo da inação se torna mensurável.
Essa tríade — dependência econômica, subsídios e dívida — não é apenas um conjunto de obstáculos técnicos. É a expressão de uma injustiça histórica: países que contribuíram marginalmente para as emissões acumuladas são pressionados a arcar com os custos de uma transição que beneficiará, proporcionalmente, as economias que mais poluíram. A discussão sobre financiamento climático, nesse sentido, não é filantropia — é reparação de desequilíbrio sistêmico. André Andrade foi preciso ao deslocar o debate do voluntarismo para a estrutura: "Sem justiça e sem estabilidade econômica, a transição não se sustenta politicamente." O que implica dizer que uma transição desenhada sem os países do Sul não é apenas injusta — é inviável.
Carlos Nobre acrescentou uma dimensão que raramente ocupa o centro dos fóruns de energia: saúde pública. A queima de combustíveis fósseis causa cerca de sete milhões de mortes por ano pela poluição do ar urbano. Mais que qualquer guerra. Mais que qualquer pandemia recente. Tratar a transição energética apenas como política climática é subestimar sua urgência humanitária e, ao mesmo tempo, privar o debate de um argumento com força política imediata — afinal, a mortalidade por poluição tem rosto, endereço e eleitorado. Nobre também sinalizou um ponto frequentemente eclipsado pela narrativa da abundância renovável: a expansão de solar e eólica exige uma mineração significativa de metais e terras raras, e esse processo precisa ser conduzido com rigor ambiental para não substituir uma forma de degradação por outra.
O arcabouço regulatório emerge, nesse contexto, não como detalhe técnico mas como condição de possibilidade. André Andrade foi claro: sem instrumentos normativos que criem previsibilidade para investidores e orientem decisões de longo prazo, a transição permanece como intenção declarada, não como trajetória real. "Uma transição exige previsibilidade. É preciso definir uma trajetória com marcos ao longo do tempo." O que é verdade tanto para políticas públicas quanto para decisões de capital privado — que cada vez mais busca horizonte regulatório antes de comprometer recursos em infraestrutura de longa maturação.
Dois setores que frequentemente aparecem como obstáculos à transição foram reposicionados na conversa. A Big Tech, com sua demanda crescente por energia para alimentar data centers e inteligência artificial, tem migrado estruturalmente para renováveis — não por ideologia, mas por custo e segurança de fornecimento. O setor de defesa, por sua vez, enfrenta a mesma equação de segurança energética que os estados: depender de fósseis de regiões instáveis é uma vulnerabilidade estratégica. "Não dá para depender de uma fonte em declínio", observou Andrade. E um dado revelador: a demanda por eletricidade cresce muito mais rápido que a demanda total de energia — o que reforça a centralidade da eletrificação como vetor estrutural da transição, independentemente da motivação política de quem a financia.
Há, também, a questão do greenwashing. Carlos Nobre concordou com o secretário-geral da ONU na avaliação de que a publicidade de empresas de combustíveis fósseis pode atrasar a transição ao criar percepções distorcidas sobre o ritmo e a profundidade das mudanças em curso. No caso da Petrobras — uma empresa com capacidade técnica e escala para liderar — o desafio não é de competência, mas de velocidade e ambição. As iniciativas existem; o que falta é a aceleração necessária para que sejam proporcionais ao problema.
O Brasil ocupa uma posição singular nesse xadrez. É exportador de petróleo — com a Petrobras entre as maiores produtoras offshore do mundo — e ao mesmo tempo um país com mais de noventa por cento da eletricidade gerada por fontes renováveis. Essa ambiguidade não é apenas política doméstica: é a metáfora de um dilema global. Como fazer a transição quando a renda do que você deve abandonar financia parte do que você precisa construir? Corrêa do Lago reconheceu o debate interno, mas apostou na capacidade do Brasil de contribuir com perspectivas múltiplas justamente por ocupar esse lugar paradoxal. Com eleições em outubro, o roadmap pode ser publicado antes de qualquer alternância de poder — o que lhe confere uma janela de continuidade que nem todos os processos multilaterais conseguem garantir.
A questão da continuidade política, aliás, percorre todo o debate como uma corrente subterrânea. Irene Vélez Torres não evitou o tema: "Se somos honestos, existem grandes riscos de reversão. Já vimos isso acontecer — no Chile, no Brasil sob Bolsonaro." A resposta que ela propõe não é institucional, mas geopolítica: construir algo maior que um país, uma nova força que transcenda ciclos eleitorais e torne o retrocesso politicamente mais custoso. A conferência de Santa Marta opera nessa lógica — não como bloco formal dentro da UNFCCC, mas como coalizão de vontades que inclui estados subnacionais, cidades, organizações sociais e povos indígenas. A Califórnia já está sendo articulada nesse processo, um sinal de que atores subnacionais com capacidade de ação climática real podem funcionar como âncoras de governança quando os governos nacionais recuam.
Há, porém, algo que o embaixador Corrêa do Lago disse e que merece atenção redobrada: a existência de setores que, diante do caos climático que se avizinha, apostam no agravamento como estratégia de posicionamento. Um mundo mais desigual, mais fragmentado — com os ricos suficientemente protegidos para suportar as consequências, e o restante da humanidade exposto. "Isso é de uma imoralidade enorme", disse. E tem lógica econômica própria. Quando a adaptação climática é cara o suficiente para ser um privilégio, a inação torna-se um instrumento de separação entre quem sobrevive e quem não. É contra essa lógica — não apenas contra a inércia burocrática — que os dois processos em curso precisam se afirmar. Não apenas como mecanismos técnicos, mas como afirmação de que existe uma alternativa viável e que ela pode ser organizada antes de ser imposta pelo colapso.

Carlos Nobre fixou os termos com a frieza de quem trabalha com dados: precisamos zerar os combustíveis fósseis idealmente até 2040, no máximo até 2045. Mesmo assim, atingiremos algo entre 1,7°C e 1,8°C de aquecimento. "Transição muito rápida não é opcional — é inevitável." O que ainda está em aberto é se ela será conduzida por escolha ou por catástrofe. A guerra que o petróleo comprou deixou no ar, de forma visceral, o preço daquilo que ainda não foi construído. A pergunta que Santa Marta e o roadmap pós-COP30 tentam responder não é se a transição vai acontecer. É se haverá arquitetura suficiente para que ela aconteça a tempo — e com justiça suficiente para que valha a pena.
*Este texto foi produzido a partir do webinar "Roteiro para longe dos combustíveis fósseis", promovido pelo ClimaInfo e pelo Observatório do Clima em março de 2026, com a participação da ministra Irene Vélez Torres (Colômbia), do embaixador André Corrêa do Lago (presidência da COP30), de André Andrade (Ministério do Meio Ambiente do Brasil) e do climatologista Carlos Nobre.
O Amapá e o mar que ainda é seu