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Escrito por Neo Mondo | 13 de outubro de 2025
O verdadeiro desafio não é aperfeiçoar o corpo humano, mas preservar a ética diante do poder de reescrever a própria vida - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
Por - Murilo Karasinski*, articulista de Neo Mondo
Talvez a verdadeira ficção científica do nosso tempo esteja menos nas máquinas que pensam e mais nos corpos que se deixam escrever. Enquanto discutimos se a inteligência artificial pode alcançar consciência, ela começa, silenciosamente, a aprender algo ainda mais vertiginoso: o idioma da biologia. E, se compreender a linguagem sempre foi o primeiro passo para dominar o mundo, compreender o genoma pode ser o primeiro passo para reescrever a própria condição humana.
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Os modelos de linguagem que hoje redigem poemas, pareceres e diagnósticos já se aventuram a traduzir o código da vida. Quando preveem palavras, também podem prever mutações. Quando corrigem frases, podem corrigir genes. A diferença é que, desta vez, o texto somos nós.
Desde que Watson e Crick descobriram a gramática da dupla hélice, o sonho de editar o destino acompanha a humanidade como uma parábola de poder. Com a ajuda da inteligência artificial, esse sonho ganha velocidade e precisão. Corrigir doenças, retardar o envelhecimento, ampliar a cognição — tudo parece ao alcance da técnica. É difícil não se encantar com a promessa de libertar o ser humano de sua própria biologia, embora também seja perigoso reduzir a vida a um projeto de design.
Talvez seja tempo de deixar para trás tanto o pânico apocalíptico quanto a euforia tecnológica. O medo de que a inteligência artificial destrua a humanidade é tão ingênuo quanto a crença de que ela a salvará. O que está em jogo não é a pureza da natureza, e sim a responsabilidade diante de um novo poder. Entre o impulso de curar e o desejo de superar-se, a linha moral é frágil e tênue. O erro seria imaginar virtude na limitação ou culpa no aperfeiçoamento. O verdadeiro risco não é criar corpos melhores, e sim esquecer que a moralidade não pode ser automatizada.
Melhorar o corpo, prolongar a vida ou ampliar capacidades não é uma fuga da condição humana — pelo contrário, é uma continuação dela por outros meios. O desafio está menos em dizer “até onde podemos ir” e mais em compreender “quem nos tornamos” quando vamos. A tecnologia não é uma nova fé, nem um inimigo oculto; é um espelho do que projetamos ser. Cabe à bioética assegurar que, ao ampliar o possível, não percamos de vista o que ainda consideramos desejável.
A inteligência artificial que agora lê e escreve a vida nos coloca novamente diante do espanto do próprio poder. O futuro talvez dependa menos de conter o melhoramento humano e mais de aperfeiçoar a forma como pensamos sobre ele. Compreender o código nunca será o mesmo que compreender o sentido — e é nesse intervalo que o humano continua a existir.
*Murilo Karasinski - Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Bioética da PUCPR. Pós-Doutor em Bióetica, Doutor em Filosofia e Bacharel em Direito pela PUCPR. Membro da Sociedade Brasileira de Bioética. Membro do Observatório de Inteligência Artificial no Ensino Superior da PUCPR. Pesquisador de temas relacionados à Inteligência Artificial, Neuroética, Bioética e Transumanismo.

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