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Agro brasileiro pode gerar até 314,3 milhões de créditos de carbono até 2035, aponta estudo

Escrito por Neo Mondo | 6 de agosto de 2026

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O agro brasileiro passa a ocupar o centro da agenda climática, afirma a pesquisadora Natascha Trennepohl - Foto: Divulgação

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Levantamento aponta que o principal obstáculo para o agronegócio avançar no mercado internacional de carbono não é a falta de potencial, mas a ausência de instrumentos operacionais para autorizar e comercializar os créditos

Estudo realizado pela Carbonn Nature, com apoio do Instituto Equilíbrio e do Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAg) da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), aponta que o agronegócio brasileiro tem potencial para gerar até 314,3 milhões de créditos de carbono entre 2025 e 2035.

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Desse total, não seria preciso autorizar grandes volumes para já gerar receita expressiva ao setor: uma estratégia moderada de autorização, limitada a um impacto de até 4% sobre a segunda NDC brasileira (a meta climática do País perante o Acordo de Paris), permitiria negociar cerca de 15,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente no mercado internacional.

Esse volume geraria receitas de até R$ 2,4 bilhões em transações bilaterais com outros países via ITMOs, sigla para Resultados de Mitigação Transferidos Internacionalmente, mecanismo do Artigo 6 do Acordo de Paris que permite a um país autorizar a venda de créditos de carbono para que outro conte essa redução em sua própria meta climática. Caso os créditos sejam destinados ao CORSIA, o esquema de compensação de emissões da aviação civil internacional, a receita potencial sobe para até R$ 3,5 bilhões.

O estudo, intitulado "O Agronegócio Brasileiro no Mercado de Carbono Internacional: Oportunidades Econômicas, Elegibilidade e Impactos na NDC", foi apresentado nesta quinta-feira (6) durante o Fórum de Agro & Sistemas Alimentares, realizado na São Paulo Climate Week.

Na origem desse expressivo potencial estão três frentes principais: manejo aprimorado de terras agrícolas, recuperação de áreas degradadas e redução de emissões de metano no manejo de dejetos animais. São atividades que já contam com metodologias internacionalmente reconhecidas e com projetos em desenvolvimento no Brasil, o que dá concretude aos números do estudo e não apenas potencial teórico.

Para Natascha Trennepohl, PhD, pesquisadora responsável pelo estudo, esse cenário reposiciona o debate sobre o papel do setor na agenda climática. "O agronegócio brasileiro deixou de ser discutido apenas como fonte de emissões e passa a ocupar o centro da conversa sobre soluções. Não existe uma escolha binária entre gerar receita com carbono e proteger a meta climática do País. Com critérios de autorização bem definidos e volumes graduais, as duas coisas caminham juntas", afirma a pesquisadora.

Potencial existe, mas depende de regulamentação

Apesar da escala e do valor identificados, o estudo indica que o principal obstáculo para a inserção do agro brasileiro nesse mercado não está no potencial do setor nem na falta de interesse internacional, mas na ausência de instrumentos regulatórios plenamente operacionais.

É justamente por essa lacuna regulatória que os números do levantamento devem ser lidos com o devido cuidado: trata-se de estimativas condicionadas à efetiva autorização dos créditos como ITMOs pelo governo brasileiro, à existência de compradores internacionais interessados e aos preços de mercado considerados na análise, não de receitas já contratadas ou garantidas.

Para transformar esse potencial em projeto e receita concreta, o estudo aponta um conjunto de medidas prioritárias:

  • regulamentar a operacionalização do Artigo 6 do Acordo de Paris, dispositivo que permite a cooperação voluntária entre países para o cumprimento de metas climáticas, inclusive por meio da transferência de créditos de carbono;
  • definir critérios para autorização de ITMOs, os créditos que podem ser vendidos a outros países para uso em suas próprias metas climáticas;
  • reconhecer metodologias e créditos do agronegócio como CRVEs (Certificados de Redução ou Remoção Verificada de Emissões) no SBCE (Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões);
  • definir volumes compatíveis com o cumprimento da NDC, ou seja, estabelecer um teto de créditos liberados para venda que não comprometa a meta climática brasileira;
  • estruturar a emissão de cartas de autorização, documento pelo qual o governo brasileiro autoriza formalmente a venda de créditos ao exterior e assume o compromisso de não contabilizar aquela redução em sua própria meta, evitando a dupla contagem;
  • fortalecer os sistemas de monitoramento, reporte e verificação (MRV), que garantem que as reduções de emissões declaradas nos projetos sejam reais, mensuráveis e auditáveis, assegurando a credibilidade dos créditos junto a compradores internacionais.
  • preparar os projetos para a ampliação da demanda do CORSIA a partir de 2027, quando o mecanismo passa a exigir compensação obrigatória para a maior parte dos voos internacionais, ampliando significativamente a procura por créditos elegíveis.

"O Brasil já fez a parte mais difícil, que é comprovar que tem escala, metodologia e integridade ambiental para competir nesse mercado. O que falta agora é essencialmente operacional: destravar a regulamentação para que esse potencial vire projeto, investimento e renda para o produtor rural", conclui Natascha Trennepohl.

Serviço

Estudo: O Agronegócio Brasileiro no Mercado de Carbono Internacional: Oportunidades Econômicas, Elegibilidade e Impactos na NDC

Realização: Carbonn Nature, com apoio do Instituto Equilíbrio e do Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAg) da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).

Sobre a Carbonn Nature

A Carbonn Nature é uma consultoria especializada em descarbonização e valoração de ativos ambientais, sediada em São Paulo e com atuação em todo o Brasil. A empresa apoia organizações na construção de estratégias climáticas que conciliam sustentabilidade, competitividade econômica e posicionamento de mercado. Com uma abordagem integrada, a Carbonn desenvolve planos de descarbonização e transição climática, análises de mercado, estudos de valoração de ativos ambientais, modelagens financeiras e avaliações de oportunidades relacionadas ao Acordo de Paris. Seu trabalho combina conhecimento técnico, inteligência de mercado e visão de longo prazo para transformar desafios climáticos em oportunidades concretas de geração de valor, inovação e adequação regulatória.

Sobre a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG)

A Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) é a única entidade setorial que une todos os elos da cadeia produtiva, dos insumos ao consumidor final, conectando produção, agroindústria, logística e serviços. Com mais de três décadas de atuação, a entidade é reconhecida por promover união, diálogo e inovação, dinamizando o setor com a força de suas mais de 80 associadas.

Sobre o Instituto Equilíbrio

O Instituto Equilíbrio é um think tank independente e apartidário dedicado a avaliar os riscos e as oportunidades da transição climática para o agronegócio brasileiro, um motor-chave do desenvolvimento econômico, da segurança alimentar e da liderança em soluções climáticas aplicadas. Por meio de uma abordagem colaborativa, o Instituto constrói pontes entre o setor produtivo, especialistas e formuladores de políticas públicas, oferecendo insights técnicos e soluções estratégicas baseadas em evidências.

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