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Um ano depois do recorde, o Brasil queima e desmata menos — mas o mapa não muda

Escrito por Neo Mondo | 21 de julho de 2026

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O ano em que o desmatamento no Brasil ficou, pela primeira vez, abaixo de 1 milhão de hectares — mas a cicatriz na imagem mostra que a fronteira ainda avança - Foto: MapBiomas/Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Em 2024, a Amazônia queimou como nunca havia queimado antes: 15,8 milhões de hectares, o maior volume da série histórica iniciada em 1985. Doze meses depois, o mesmo bioma registrou o oposto — 3,1 milhões de hectares, a menor área queimada em 41 anos e 56% abaixo de sua própria média histórica. No mesmo intervalo, o desmatamento nacional cruzou, pela primeira vez, a linha de 1 milhão de hectares por baixo: foram 984.794 hectares em 2025, uma queda de 20,6% em relação a 2024. Dois indicadores diferentes, produzidos por metodologias distintas, contando a mesma história. As conclusões são da segunda edição do Relatório Anual do Fogo no Brasil e do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD 2025), ambos do MapBiomas.

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Nenhuma reforma isolada explica a virada. Segundo Ane Alencar, diretora de Ciências do IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo, o que houve foi uma combinação de fatores que raramente se alinham ao mesmo tempo. O período chuvoso atrasou de 2024 para 2025 e se estendeu, em boa parte da Amazônia, até abril e maio — janela que reduz a queima porque a vegetação recém-desmatada não seca no ritmo de costume. Some-se a isso a própria retração do desmatamento, que corta pela raiz uma parcela relevante das fontes de ignição. Mas há também um fator menos técnico: depois de um ano em que incêndios extrapolaram para fazendas e comunidades que não haviam colocado fogo algum, parte de quem usa o fogo como ferramenta de manejo simplesmente recuou. "As pessoas não queriam que aquele fogo extrapolasse, queimasse", resume Alencar. Em maio de 2025, quando o DETER apontou um repique do desmatamento, o poder público respondeu com operações em municípios críticos — e essa resposta, mais a estrutura de prevenção reforçada depois de 2024, sob pressão inclusive do Supremo Tribunal Federal para que os estados se organizassem, compõe o quadro que, junto ao clima, produziu o menor ano de fogo já registrado na Amazônia.

O alívio, porém, não foi uniforme — e é aqui que o relatório evita a leitura fácil. O Cerrado, o bioma historicamente mais castigado pelas chamas, praticamente não reduziu: queimou em patamar semelhante ao de 2024, com 8,7 milhões de hectares em 2025 contra uma média anual de 9,6 milhões — a maior entre os biomas brasileiros. Em outras palavras, a queda nacional de 31% frente à média histórica foi puxada quase inteiramente pela Amazônia e pelo Pantanal; o bioma que mais queima no país seguiu queimando. No desmatamento, o Cerrado repete o protagonismo por outra via: liderou com 540.614 hectares convertidos em 2025, o maior volume entre os biomas. Amazônia e Cerrado, juntos, respondem por 86% de tudo o que já queimou no país desde 1985 e por mais de 84% de toda a área desmatada em 2025 — o mesmo eixo territorial concentrando os dois fenômenos, ainda que por dinâmicas distintas: um mais suscetível ao clima, o outro mais dependente de decisões humanas sobre onde acender o fogo.

O Pantanal teve a redução proporcional mais expressiva em ambas as frentes: apenas 121 mil hectares queimados em 2025, 85,6% abaixo de sua média histórica, e uma queda de 48,4% no desmatamento, também a maior entre os biomas. A Caatinga foi a única exceção no fogo — o único bioma que queimou acima da média em 2025, com 505 mil hectares —, ao passo que no desmatamento todos os seis biomas registraram queda simultânea, algo que o RAD 2025 aponta como inédito na série. Já a severidade do fogo, produto novo desta edição, revela uma distorção que interessa em particular ao Sul do país: proporcionalmente, o Pampa foi o bioma com a maior fração de área queimada em severidade alta. A explicação está no vaivém entre secas mais rígidas e chuvas volumosas que o Rio Grande do Sul vem enfrentando — ciclos que acumulam material combustível nos períodos úmidos e o entregam pronto para queimar assim que a seca retorna.

O que os dois relatórios revelam, quando lidos lado a lado, é que a retração de 2025 não moveu a geografia da pressão sobre a terra — apenas reduziu sua intensidade momentânea. No fogo, 64% de toda a área já queimada no Brasil desde 1985 pegou fogo mais de uma vez, e mais da metade dessas áreas recorrentes voltou a arder em até quatro anos; na Amazônia, quase um terço da área queimada mais de uma vez repete o ciclo em até dois anos — tempo curto diante de modelos que estimam um intervalo natural de retorno do fogo, para a floresta amazônica, entre 200 e 1.000 anos. O Cerrado, adaptado ao fogo, tolera ciclos mais curtos — entre seis e doze anos, a depender da fitofisionomia —, mas mesmo essa margem vem sendo pressionada pela frequência atual. No desmatamento, a recorrência aparece sob outra forma: dos 310 mil imóveis rurais cadastrados no CAR com desmatamento validado entre 2019 e 2025, 27,5% já haviam sido flagrados em mais de um ano — não é uma frente nova a cada ciclo, é a mesma fronteira voltando ao mesmo lugar.

Essa recorrência também tem endereço fixo. No fogo, três estados — Mato Grosso, Pará e Maranhão — concentram 47% de toda a área queimada no país nos últimos 41 anos. No desmatamento, o Maranhão lidera o ranking estadual pelo terceiro ano consecutivo, com 154.294 hectares perdidos mesmo após uma queda de 29,3%; o Piauí, na contramão da tendência nacional, subiu para a segunda posição com alta de 5%. Os quatro estados do MATOPIBA somados ao Mato Grosso respondem por 63% de todo o desmatamento nacional em 2025, e a própria região concentra 40% da perda de vegetação nativa do país no ano — 70% dela dentro do Cerrado. Em nível municipal, o piauiense Canto do Buriti lidera pelo segundo ano seguido o ranking de desmatamento, com 20.877 hectares, no mesmo movimento que, no fogo, mantém Corumbá e São Félix do Xingu à frente da recorrência histórica.

A composição da vegetação atingida também converge. No fogo, 71,5% da área queimada entre 1985 e 2025 ocorreu em vegetação nativa, mas na Amazônia e na Mata Atlântica o fogo em áreas antrópicas — sobretudo pastagens usadas historicamente para renovação de pasto — já é maioria. No desmatamento, o vetor de pressão confirma o padrão: a agropecuária responde por mais de 97% de toda a perda de vegetação nativa registrada entre 2019 e 2025, com o garimpo concentrado quase inteiramente na Amazônia (99%, com maior densidade no Pará) e os empreendimentos de energia renovável concentrados na Caatinga (97%) — um dado que interessa em particular a quem acompanha a corrida por ativos de transição energética no Nordeste. As formações savânicas, pelo terceiro ano consecutivo, são o tipo de vegetação nativa mais desmatado do país (51,4%), à frente das florestais (46,3%).

Pela primeira vez, o relatório do fogo também mede o outro lado da moeda: o balanço das queimas prescritas, cruzando dados oficiais do IBAMA e do ICMBio com as cicatrizes mapeadas pelo MapBiomas. É uma queima deliberadamente baixa, aplicada antes do período seco para reduzir o material combustível acumulado — usada apenas em ecossistemas adaptados ao fogo, como campos e algumas fisionomias de cerrado sentido restrito, e nunca em floresta amazônica, mata atlântica ou mata ciliar, onde o fogo não é elemento ecológico da paisagem. O dado nasce de uma distinção que o próprio relatório insiste em marcar: nem todo fogo é dano. Em biomas evoluídos com queimadas periódicas, o fogo no momento certo e na intensidade certa preserva a vegetação; o que muda o regime para pior é a frequência fora de época e a intensidade elevada por acúmulo de biomassa — exatamente o padrão observado no Pampa.

Talvez o dado mais revelador do RAD 2025 não seja a queda em si, mas o que ela esconde sobre a formalização do desmatamento. Em 2025, 96% dos alertas de desmatamento no Brasil apresentaram algum indício de irregularidade — sobreposição com áreas protegidas, embargos ou ausência de autorização. Ainda assim, a proporção da área desmatada que cruza espacialmente com alguma autorização ou ação de fiscalização saltou de 5%, em 2019, para 65%, em 2025. O desmatamento não apenas recuou: também aprendeu a deixar rastro documental. Dentro de Unidades de Conservação, a perda de vegetação caiu 21,4% — embora a Área de Proteção Ambiental do Rio Preto, na Bahia, tenha crescido 44% e assumido a liderança do ranking. Em Terras Indígenas, a redução foi de 22%, com a Terra Indígena Porquinhos dos Canela-Apãnjekra, no Maranhão, na primeira posição pelo terceiro ano seguido.

Para quem acompanha risco regulatório internacional, o RAD 2025 ainda oferece um número que deveria circular além dos departamentos de sustentabilidade: cerca de 7 milhões de hectares desmatados no Brasil depois de 31 de dezembro de 2020 — a data de corte da nova regulamentação europeia contra desmatamento, a EUDR — podem afetar 264 mil imóveis rurais, o equivalente a 3% dos 8,2 milhões de propriedades cadastradas no CAR.

Há ainda uma variável que os dois relatórios tratam com cautela, mas não escondem: o próximo El Niño. Historicamente, o ano em que o fenômeno se instala já produz mais área queimada — mas é o ano seguinte que costuma concentrar o maior efeito sobre a paisagem, à medida que a vegetação acumula seca. Com um novo El Niño em formação para o segundo semestre, os próprios pesquisadores do MapBiomas alertam que a inflamabilidade da paisagem, um dos dois elementos que precisam se combinar para o fogo se espalhar — o outro é, nas palavras de Alencar, "quem bota o fogo" —, pode voltar a subir. A pergunta que o relatório deixa em aberto é se o outro elemento, o humano, vai se comportar em 2026 como se comportou em 2025.

Lido em conjunto, o que os dois relatórios do MapBiomas descrevem não é uma vitória nem um alarme — é um país que, em 2025, queimou e desmatou menos do que em qualquer ano recente, sem que a fronteira agropecuária tivesse, de fato, se deslocado. A Amazônia que teve o menor fogo em 41 anos é a mesma que, doze meses antes, bateu recorde. O Cerrado que segue liderando o desmatamento é o mesmo que lidera as queimadas desde que a série histórica começou a ser medida. O intervalo entre um ano bom e um ano ruim, os dois relatórios sugerem, pode ser mais curto do que a vegetação — e o próprio comportamento humano — conseguem sustentar.

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