Dia Internacional da Biodiversidade 2026

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Dia internacional da
Biodiversidade 2026

O alto-mar deixa de ser “terra de ninguém”: como o BBNJ viabiliza áreas marinhas protegidas em escala global

Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026

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Alto-mar: patrimônio comum da humanidade, essencial para o equilíbrio climático, a biodiversidade e o futuro da vida na Terra - Foto: Ilustrativa/Magnific

Por - Carollina Arbex* e Gabriel Ralile

Em 2008, atendendo a um pedido formulado ainda em 1992, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu oficialmente o Dia Mundial do Oceano. O objetivo é claro e visa estabelecer um marco global capaz de chamar atenção para a preservação dos ecossistemas marinhos e reforçar a importância do oceano para a manutenção da vida no planeta. 

Dezoito anos depois, em 17 de janeiro de 2026, um novo capítulo se soma a essa trajetória: a entrada em vigor do Tratado sobre a Conservação e o Uso Sustentável da Diversidade Biológica Marinha em Áreas Além da Jurisdição Nacional (BBNJ), comumente chamado de Tratado do Alto-Mar.  

Resultado de quase duas décadas de negociações multilaterais, o acordo estabelece um quadro legal vinculante que permite, dentre outras medidas, a criação de áreas marinhas protegidas em alto-mar, a exigência de avaliações de impacto ambiental para atividades humanas nessas regiões e a implementação de mecanismos de repartição justa dos benefícios derivados dos recursos genéticos marinhos. 

foto de carollina arbex, autora do artigo O ALTO-MAR DEIXA DE SER “TERRA DE NINGUÉM”: COMO O BBNJ VIABILIZA ÁREAS MARINHAS PROTEGIDAS EM ESCALA GLOBAL
Carollina Arbex - Foto: Divulgação

Sua vigência, portanto, colocou fim numa “liberdade irrestrita” com que as áreas marítimas para além das fronteiras jurisdicionais foram regidas por décadas. Vale dizer, com o BBNJ, inaugura-se uma mudança profunda de paradigma: abandona-se o princípio da liberdade marcado, na prática, por lacunas regulatórias e fragmentação institucional, para seguir um instrumento de coordenação e fortalecimento da cooperação internacional, contribuindo para preencher tais lacunas de governança.  

Mais do que um avanço normativo, o tratado reforça um entendimento já consolidado no campo científico e jurídico: a biodiversidade marinha em áreas além da jurisdição nacional constitui um interesse comum da humanidade e, como tal, demanda respostas coletivas, estruturadas e coordenadas. 

Para o Brasil, país que detém a maior área marítima da América Latina, a ratificação do acordo representa não apenas o cumprimento de um compromisso internacional, mas também uma oportunidade estratégica. Ao se posicionar de forma ativa nesse novo arranjo institucional, o país amplia seu potencial de atuação na governança oceânica global, com reflexos diretos para a produção científica, a formulação de políticas públicas e a proteção de seus próprios ecossistemas costeiros, contribuindo para a proteção efetiva do oceano em escala global.  

Nesse cenário, o tema do Dia Mundial do Oceano de 2026, “Áreas Marinhas Protegidas Robustas para o Nosso Planeta Azul”, não apenas dialoga com o BBNJ, mas explicita o seu principal horizonte de implementação: transformar compromissos em proteção efetiva do oceano, avançando não apenas na quantidade, mas na qualidade da conservação marinha. 

Áreas marinhas protegidas não se limitam à delimitação geográfica de espaços no oceano. Elas exigem, sobretudo, governança efetiva, monitoramento contínuo, base científica sólida e mecanismos de cumprimento que garantam sua integridade a longo prazo. Sem esses elementos, o risco é a proliferação de áreas protegidas apenas no papel, incapazes de conter a perda acelerada da biodiversidade marinha e de responder à escala da crise climática e ecológica global.  

O debate ganha ainda mais relevância em um contexto de crescente mobilização internacional, como a preparação para a Conferência da Década do Oceano, prevista para 2027. O encontro reforça o papel central do oceano no equilíbrio do sistema terrestre e a necessidade de reconhecer que sua degradação não é um problema isolado, mas um fator de risco sistêmico. 

foto de Gabriel Ralile, autor do artigo O ALTO-MAR DEIXA DE SER “TERRA DE NINGUÉM”: COMO O BBNJ VIABILIZA ÁREAS MARINHAS PROTEGIDAS EM ESCALA GLOBAL
Gabriel Ralile - Foto: Divulgação

O desafio deixa de ser apenas normativo e passa a ser, principalmente, de implementação: garantir financiamento adequado, fortalecer capacidades técnicas e assegurar que a proteção do oceano seja conduzida de forma justa e inclusiva.  

É nesse ponto que o BBNJ se conecta diretamente à agenda de proteção do planeta como um todo. Ao permitir a criação de áreas marinhas protegidas em alto-mar — regiões que correspondem a quase metade da superfície da Terra — o tratado oferece as bases institucionais para uma conservação verdadeiramente global, capaz de responder à escala dos desafios ambientais contemporâneos.  

O reconhecimento do alto-mar como espaço de governança compartilhada já está posto no plano internacional. A consolidação desse novo paradigma dependerá, sobretudo, da capacidade de transformar compromissos em proteção efetiva e duradoura. Em um contexto de crescente pressão sobre os sistemas naturais, fortalecer áreas marinhas protegidas robustas deixa de ser uma escolha e passa a ser uma condição para a manutenção do equilíbrio do planeta. Proteger o oceano, nesse sentido, é também proteger as bases ecológicas, climáticas e socioeconômicas que sustentam a vida na Terra.  

Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

*Carollina Arbex advogada formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e sócia do escritório Arbex & Gonzalez Advogadas Associadas. É pesquisadora no Centro de Estudos de Direito do Mar (CEDMAR) da Universidade de São Paulo (USP), redatora de sustentabilidade com atuação no Brasil e na América Latina e coordenadora do GT Oceano e Clima da Rede LACLIMA.

*Gabriel Ralile advogado, internacionalista e pesquisador com atuação nas áreas de direito internacional, comércio exterior, economia azul e regulação climática. É doutorando e mestre em Estudos Marítimos (Escola de Guerra Naval), MBA/E em Comércio Exterior (UFRJ) e bacharel em Direiro (UNIRIO) e Relações Internacionais (PUC-Rio). É coordenador do GT Oceano e Clima da Rede LACLIMA e membro do Grupo Economia do Mar (GEM). 

foto da régua de patrocínio do especial, remete ao artigo O ALTO-MAR DEIXA DE SER “TERRA DE NINGUÉM”: COMO O BBNJ VIABILIZA ÁREAS MARINHAS PROTEGIDAS EM ESCALA GLOBAL 

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