Ciência e Tecnologia COLUNISTAS Destaques EcoBeauty Tecnologia e Inovação

Cosmético natural é mesmo melhor para a pele e para o planeta?

Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 14 de setembro de 2026

Compartilhe:

Cosmético natural não é sinônimo automático de segurança ou sustentabilidade. Entre a planta e o laboratório, o que conta é todo o percurso da fórmula - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DRA. MARCELA BARALDI*

Basta uma folha verde estampada na embalagem, algumas palavras como “natural”, “clean” ou “orgânico” e uma imagem de natureza para que um cosmético imediatamente pareça mais sustentável. Essa associação se tornou tão forte na indústria da beleza que, muitas vezes, deixamos de fazer uma pergunta essencial: o que realmente torna um produto de beleza melhor para o planeta?

A resposta é mais complexa do que o rótulo pode sugerir.

Leia também: A beleza que viaja quilômetros antes de chegar à sua pele

Leia também: O açúcar que você não vê enrijece o colágeno da sua pele

Nos últimos anos, o consumidor passou a olhar com mais atenção para aquilo que coloca sobre a pele. Existe uma preocupação legítima com ingredientes, origem das matérias-primas, testes em animais e impacto ambiental, e essa mudança de comportamento tem levado a indústria a repensar seus produtos e sua comunicação. Ao mesmo tempo, termos como natural, orgânico, vegano, clean e sustentável passaram a ocupar um espaço enorme nas prateleiras e nas campanhas publicitárias, embora representem conceitos bastante diferentes entre si.

É importante, portanto, separar algumas dessas ideias. Um ingrediente natural pode ser excelente para a pele, mas isso não significa que seja necessariamente mais sustentável. Da mesma maneira, um ingrediente desenvolvido em laboratório não é automaticamente mais agressivo para a pele ou mais prejudicial ao meio ambiente. A origem de uma matéria-prima é apenas uma parte de uma história muito maior.

Um ingrediente de origem vegetal, por exemplo, precisa ser cultivado, colhido, processado e transformado até se tornar parte de uma formulação cosmética. Dependendo da matéria-prima, esse processo pode envolver grandes áreas de cultivo, consumo de água, utilização de energia, fertilizantes, processamento industrial e transporte. Quando o ingrediente precisa atravessar grandes distâncias para chegar à indústria, o impacto ambiental dessa cadeia também precisa ser considerado.

Isso não significa que os ingredientes naturais sejam ruins ou que devam ser evitados. Pelo contrário. Muitos ativos de origem natural possuem propriedades importantes e fazem parte de formulações extremamente interessantes. A questão é entender que a palavra “natural” descreve principalmente a origem de um ingrediente, e não o impacto ambiental de toda a cadeia que existe por trás dele.

É justamente nesse ponto que o conceito de Eco Beauty se torna tão importante. Uma beleza verdadeiramente sustentável precisa olhar para o produto como um todo, considerando a origem das matérias-primas, os recursos utilizados na produção, o consumo de água e energia, a formulação, a embalagem, o transporte e, finalmente, o destino daquele produto depois que ele deixa de ser utilizado.

Até mesmo a embalagem, que muitas vezes é responsável por transmitir a sensação de luxo de um cosmético, merece ser analisada com mais atenção. Frascos pesados, caixas elaboradas, cartuchos, tampas, aplicadores e diferentes camadas de materiais podem fazer parte de uma experiência sofisticada, mas também representam maior utilização de recursos e maior quantidade de resíduos. Uma embalagem bonita pode ser desejável, mas estética e sustentabilidade não são necessariamente sinônimos.

Existe ainda um aspecto pouco discutido quando falamos de consumo consciente: o desperdício dentro da própria rotina de beleza. Comprar um produto porque ele está em alta nas redes sociais, acumular diferentes versões da mesma categoria ou deixar cosméticos vencerem no armário também gera impacto. Todos os recursos utilizados para produzir, embalar e transportar aquele produto foram empregados mesmo quando ele não é completamente consumido.

Na dermatologia, existe outra associação que merece ser questionada: a ideia de que tudo aquilo que é natural é automaticamente mais seguro para a pele. A natureza oferece substâncias com propriedades muito interessantes, mas também produz compostos capazes de provocar irritação, alergia e sensibilização. Alguns óleos essenciais e extratos botânicos, por exemplo, podem ser muito bem tolerados por determinadas pessoas e causar reações em outras.

Da mesma maneira, o fato de um ingrediente ser sintético não significa que ele seja prejudicial. A ciência cosmética desenvolveu substâncias com alta estabilidade, eficácia e segurança, quando utilizadas de maneira adequada. Em determinadas situações, inclusive, a produção controlada em laboratório pode diminuir a pressão sobre recursos naturais e permitir processos mais eficientes.

Por isso, talvez seja hora de abandonarmos a ideia de que precisamos escolher entre natureza e ciência. Essa oposição é simplista e pouco ajuda o consumidor a fazer escolhas melhores. A pergunta mais relevante não é se determinado ingrediente nasceu em uma planta ou foi desenvolvido em um laboratório, mas qual é sua função, sua segurança, sua eficácia e qual foi o impacto necessário para que ele chegasse até aquele produto.

Essa discussão também nos leva a outro fenômeno cada vez mais presente no mercado de beleza: o greenwashing. À medida que a sustentabilidade passou a influenciar as decisões de compra, a comunicação ambiental se tornou uma poderosa ferramenta de marketing. Elementos visuais como folhas, tons verdes, imagens de florestas e palavras como “puro” ou “consciente” podem transmitir uma percepção de responsabilidade ambiental sem necessariamente explicar o que acontece ao longo de toda a cadeia produtiva.

Para o consumidor, isso torna a escolha mais difícil. Afinal, sustentabilidade não deveria ser apenas uma característica estética do produto, mas uma prática que pudesse ser compreendida e, sempre que possível, comprovada.

Talvez por isso a pergunta diante de um cosmético precise mudar. Em vez de perguntar apenas se ele é natural, podemos começar a questionar de onde vêm seus ingredientes, como são produzidos, quanto de embalagem foi utilizado, se existe desperdício naquela rotina e o que acontecerá com aquele produto depois que ele terminar.

Essa mudança de perspectiva não significa abandonar os cosméticos naturais, reduzir os cuidados com a pele ou transformar o consumo em uma busca pela perfeição ambiental. Significa apenas consumir com mais consciência e entender que cada escolha possui consequências que vão muito além do espelho.

O futuro da beleza provavelmente não estará em uma fórmula que seja simplesmente “100% natural”, assim como não estará em uma rotina com cada vez mais produtos. Ele estará em uma indústria capaz de desenvolver cosméticos eficazes e seguros, utilizando recursos de maneira mais responsável, e em consumidores capazes de escolher aquilo que realmente precisam.

No fim, Eco Beauty não significa escolher entre a natureza e a ciência. Significa usar o conhecimento e a tecnologia para construir uma relação mais consciente entre beleza, saúde e planeta.

Talvez a beleza mais sustentável não seja aquela que parece mais natural no rótulo, mas aquela que consegue fazer sentido para a pele, para quem a utiliza e para o mundo que existe além dela.

*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

foto da Dra. Marcela Baraldi, autora do artigo Cosmético natural é mesmo melhor para a pele e para o planeta?
Dra. Marcela Baraldi - Foto: Arquivo pessoal

Compartilhe:


Artigos anteriores:

Setembro amarelo

A beleza que viaja quilômetros antes de chegar à sua pele

O fim da incerteza


Artigos relacionados