Escrito por Daniel Medeiros | 7 de setembro de 2026
Fim das incertezas é também o começo do silêncio, quando deixamos de questionar as cercas que dividem a terra e aprisionam o conhecimento - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS*
Quando o pensador genebrino Jean-Jacques Rousseau afirmou, no célebre discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens, que a propriedade privada está na origem da sociedade civil, talvez não imaginasse que alimentaria a imaginação de gerações e gerações de socialistas, anarquistas e comunistas dos mais diversos matizes, pelos séculos afora. No entanto, para Rousseau, não foi a propriedade privada, sozinha, que fundou a sociedade civil e fez perder para sempre a inocência, a liberdade e a igualdade dos tempos do estado de natureza. O que degenerou a espécie humana foi o fato de que, diante daquele primeiro homem que, cercando a terra, disse "isso é meu", ninguém se manifestou. O que Rousseau busca compreender em sua obra são os motivos desse silêncio, dessa aceitação da desigualdade. Aí residia o busílis.
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Lendo o breve e inspirador ensaio do professor Eugênio Bucci sobre a incerteza (Editora Autêntica, 2023), fico cismando com outro tropeço da nossa observação, aquele que nos faz mirar em um elemento da explicação quando o pensador quer que a gente olhe para outra coisa. Bucci conta, de maneira leve e divertida, como a ciência tem por função principal criar metáforas e alimentar nossa imaginação expandida. E destaca a relação entre informação e incerteza, mostrando como a analogia com a entropia da termodinâmica revolucionou a cibernética. O que me interessa aqui é o início da explicação de Bucci. Ele diz que "informação é a resposta satisfatória a uma pergunta" e que pergunta é a expressão da dúvida que brota de uma incerteza. Logo, há uma proporção entre incerteza e informação, de maneira que uma notícia previsível traz carga nula de informação. Preciso estar cercado de dúvidas para que a informação cumpra o seu papel.
Aí o busílis mais uma vez. Assim como, para Rousseau, a propriedade privada não surgiu da mente maléfica e insana de um egoísta inveterado, mas de um longo processo de internalização da desigualdade no espírito das gentes, a informação, mesmo disponível em grandes lotes, já não cumpre o papel de diminuir as incertezas pela simples razão de que as pessoas não as têm mais. Todos estamos certos sobre o que pensamos. Logo, as informações perderam relevância.
O questionamento do mundo tem o potencial entrópico de desorganizar nossas ideias. Diante dele, o que pensamos se cinde e entra em crise, e essa crise exige dados, e reflexão sobre os dados, para remendar o que se pensava. Até que novos questionamentos, sobre novos dados, vão atrás de novas informações para aplacá-los e garantir uma estabilidade sempre precária, provisória. Mas isso só funciona com as mentes que admitem para si que o mundo exige explicação, isto é, que ele é complicado. E que, para desvendá-lo, ou desvendar uma mínima parte dele, é preciso implicar-se no questionamento.
Bucci cita o editor americano Richard Saul Wurman, que sentencia de maneira lapidar: "informação é aquilo que reduz a incerteza". Pois é. Mas, para isso, é preciso assumir que temos incertezas. Incertezas sobre o universo de coisas com as quais temos pouco contato, sobre as coisas com que temos algum contato e mesmo sobre aquelas com que convivemos todos os dias. Aliás, especialmente sobre estas, porque, quanto mais nos aproximamos de um conhecimento, mais ele se revela escorregadio, serelepe. De fato, o mundo é um desafio estafante e, talvez por isso, as pessoas tenham resolvido que não o desafiariam mais em seus próprios termos. Ao contrário: resolveram reduzir a existência a algumas afirmações peremptórias e inamovíveis. Pronto. Estou certo de que é assim e nada vai mudar minha posição. Não me interessam as informações que me apresentam. Elas não podem me demover porque não sou mais suscetível às incertezas. Das vacinas às eleições, das universidades públicas aos direitos identitários, nenhuma informação, por mais consistente e abalizada que seja, tem serventia alguma. Porque estou certo do que eu acho sobre essas coisas. Pronto.
Bucci encaminha seu ensaio para a crítica do regime de propriedade privada que rege as empresas de tecnologia. Diz ele: "o nosso problema, enfim, não reside na tecnologia, mas nas relações de propriedade que as amarram".
Mais uma vez, a questão não está propriamente em quem determinou a propriedade sobre o conhecimento produzido no mundo, reduzindo-o a algoritmos negociáveis. Está em quem, imerso em seu mundo de certezas e avesso ao questionamento, não fez aquilo que Rousseau lamentou que ninguém tivesse feito: "Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e a terra de ninguém!"
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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