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Desculpem-me, mas escolho não odiar

Escrito por Daniel Medeiros | 8 de dezembro de 2025

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Um convite à autoconsciência numa era em que odiar parece, infelizmente, uma língua franca - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - DANIEL MEDEIROS

Porque o ódio é uma língua que não domino e, sempre que há uma conversa na linguagem do ódio, eu acabo me perdendo na tradução. Porque todo mundo que odeia orienta a vida pelo desejo do desaparecimento do outro — isto é, são promotores de desertos — e eu gosto do cheiro da mata e do zunido das abelhas sobre as flores. Porque quem odeia concentra suas energias na vingança e, como já disse o sábio ditado, a vingança é como tomar veneno esperando que o outro morra. O ódio faz mal para a pele e contribui para olheiras precoces. Ninguém em sã consciência brinda o ódio no boteco: o primeiro gole de chopp não merece esse tipo de homenagem.

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Mas há algo que quero deixar claro: escolher não odiar não me desobriga da revolta e da indignação. Só é preciso distinguir os sentimentos. A revolta é o inconformismo com um cenário que poderia ser diferente, não fosse a ganância e a insensibilidade alheias. A indignação é a percepção de que há alguém que está sendo destituído de sua condição de sujeito, tornando-se coisa — muitas vezes diante de nossos olhos — e é preciso reagir a isso, mobilizando nossa humanidade como um bote salva-vidas na direção desse desventurado.

Mas nada disso implica odiar. Quem odeia esquece a vítima e só se interessa pelo opressor. É uma espécie de paixão às avessas. Não me interessa mais restaurar a justiça, mas vingar-me de quem pratica a injustiça. Como se a eliminação de quem mata tivesse o poder de restaurar a vida de quem morre. Não restaura. O ódio é apenas a busca recôndita pelo prazer da eliminação de alguém — exatamente o prazer que sente quem mata, objeto do nosso ódio. Irmãos siameses.

Prefiro não odiar. Isso também não quer dizer perdoar o ofensor. Porque perdoar é admitir que a vida pode continuar a existir normalmente apesar do que foi praticado. E não é disso que se trata. Não odiar é um exercício que exige, como contrapartida, o aguçamento da memória. Não esquecer o que se faz é a forma mais eficaz de combater os desastres provocados pelo ódio. Comemorar — isto é, lembrar juntos — cada violência, cada barbárie, sempre apontando o dedo para quem a praticou; não para enxovalhá-lo, não para estimular seu linchamento público, mas para que todos possam reconhecer quem odeia e não sintam nunca vontade de imitá-lo.

Muitos poderão me criticar, dizendo que nem Cristo foi capaz de não odiar — é só ver o episódio dos vendilhões do templo. Discordo: Cristo revoltou-se, é verdade, no exato sentido do termo “revolta”, como destaquei ali em cima: a revolta é o inconformismo com um cenário que poderia ser diferente, não fosse a ganância e a insensibilidade alheias. Ódio seria ter crucificado os vendilhões, cuspido em seus rostos, enfiado uma coroa de espinhos em suas cabeças. Mas Cristo não odiou nem quem o odiou. Todos lembramos o que Ele disse: “Perdoai, eles não sabem o que fazem”. Porque, como lembra a sapiência popular, o ódio cega — e essa cegueira não é de quem não vê mais o mundo, mas de quem não se reconhece mais no mundo como gente. Ou, como disse a mulher do médico, no livro de José Saramago: “Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais”.

Eu escolho não odiar. E esse, acreditem, não é um exercício fácil. Preciso reiniciar meus esforços todos os dias, tentando apurar minha consciência de que odiar é uma força que me diminui e me encurrala como um galo em uma rinha, diante de outro galo que não tem escapatória senão enxergar-me como o inimigo a ser batido. “Mas ele é galo como eu!”, deve pensar. E devo pensar, o tempo todo: “Mas eles são humanos como eu”. Odiá-los não é querer que a humanidade seja melhor. É apenas dar satisfação ao dono do galo.

Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo Desculpem-me, mas escolho não odiar
"Odiar é uma língua que não domino", Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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