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Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 1 de junho de 2026
Ultraprocessados não alimentam apenas o corpo. Também enviam mensagens silenciosas para nossas células - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DRA. MARCELA BARALDI*
Como a alimentação moderna está alterando a expressão genética e o que isso significa para duas gerações à frente
Durante décadas, a nutrição foi reduzida a uma matemática simples. Calorias entravam, calorias saíam. Se alguém ganhava peso, era porque comia demais. Se adoecia, a explicação quase sempre terminava em genética.
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Mas a ciência dos últimos vinte anos começou a desmontar essa visão simplista.
Hoje sabemos que os alimentos não servem apenas para fornecer energia. Eles funcionam como sinais biológicos capazes de conversar diretamente com nossas células. Cada refeição envia instruções químicas que influenciam inflamação, metabolismo, hormônios, imunidade e até a maneira como determinados genes são ativados ou silenciados.
Essa descoberta mudou completamente a forma como entendemos saúde e doença.
Mais do que alimentar o corpo, estamos constantemente programando seu funcionamento.
E talvez nenhum grupo alimentar tenha provocado mudanças tão profundas nessa programação quanto os ultraprocessados.
A questão já não é apenas se esses produtos engordam. A verdadeira pergunta é muito mais inquietante: o que acontece quando uma população inteira passa décadas consumindo alimentos que a biologia humana nunca encontrou ao longo da evolução?
A resposta começa a aparecer em laboratórios do mundo inteiro. E ela sugere que os efeitos podem ultrapassar uma única geração.
O que é epigenética e por que ela revolucionou a medicina moderna
Durante muito tempo acreditou-se que o DNA era uma espécie de destino biológico imutável.
Você nascia com determinados genes e passava o resto da vida convivendo com aquilo que herdou.
A epigenética mostrou que a realidade é muito mais dinâmica.
Embora não possamos mudar a sequência do DNA, podemos modificar a forma como ele se comporta.
Imagine uma biblioteca gigantesca contendo milhares de livros. Todos os livros estão lá, mas nem todos são lidos ao mesmo tempo. Alguns permanecem fechados. Outros são constantemente consultados.
A epigenética funciona como o bibliotecário que decide quais informações serão acessadas.
Ela regula a atividade dos genes sem alterar o código genético em si.
E o mais fascinante é que fatores ambientais participam diretamente desse processo.
Sono.
Exercício físico.
Exposição a poluentes.
Níveis de estresse.
E, especialmente, alimentação.
Isso significa que aquilo que colocamos diariamente no prato pode influenciar quais genes permanecem ativos ou silenciosos.
Não estamos mudando o DNA.
Estamos mudando a forma como ele é interpretado.
Essa distinção é fundamental porque desloca parte do controle da saúde para o ambiente e para os hábitos de vida.
A genética carrega a arma.
O ambiente puxa o gatilho.
Como os ultraprocessados interferem na expressão genética
Quando falamos em ultraprocessados, muita gente pensa apenas em excesso de açúcar, gordura ou sódio.
Mas o problema é muito mais amplo.
Esses produtos são formulações industriais criadas para oferecer sabor intenso, longa duração e alta lucratividade. Frequentemente contêm emulsificantes, corantes, aromatizantes, estabilizantes e uma série de compostos que não faziam parte da alimentação humana até poucas décadas atrás.
O organismo precisa interpretar todas essas substâncias.
E essa interpretação nem sempre ocorre sem consequências.
Diversos estudos vêm demonstrando que dietas ricas em ultraprocessados estão associadas ao aumento de marcadores inflamatórios, alterações metabólicas e mudanças em mecanismos epigenéticos relacionados ao envelhecimento celular.
Uma das principais vias envolvidas é a inflamação crônica de baixo grau.
Diferentemente de uma infecção aguda, essa inflamação não produz sintomas evidentes. Ela permanece silenciosamente ativa durante anos, modificando o ambiente interno do organismo.
Esse cenário favorece alterações em genes ligados à resistência à insulina, ao metabolismo energético, à imunidade e à produção de mediadores inflamatórios.
Em outras palavras, o problema não está apenas no alimento em si.
O problema está na mensagem biológica que ele envia repetidamente ao organismo.
Quando essa mensagem é transmitida todos os dias, durante anos, o corpo começa a adaptar sua programação interna.
E essas adaptações nem sempre trabalham a nosso favor.
O microbioma intestinal: o intermediário esquecido entre comida e DNA
Existe um personagem central nessa história que raramente recebe a atenção que merece.
O microbioma intestinal.
Trilhões de bactérias habitam nosso sistema digestivo formando um ecossistema complexo que participa da digestão, da imunidade, da produção de neurotransmissores e do equilíbrio metabólico.
Hoje sabemos que esse microbioma funciona quase como um órgão.
E sua composição é profundamente influenciada pela alimentação.
Dietas baseadas em alimentos naturais favorecem diversidade bacteriana.
Dietas ricas em ultraprocessados fazem exatamente o contrário.
Quando essa diversidade diminui, surgem alterações na produção de metabólitos essenciais para a saúde celular.
Muitos desses metabólitos possuem capacidade de influenciar diretamente mecanismos epigenéticos.
Ou seja, o microbioma atua como uma ponte entre aquilo que comemos e a forma como nossos genes se expressam.
Isso ajuda a explicar por que duas pessoas podem consumir quantidades semelhantes de calorias e apresentar respostas metabólicas completamente diferentes.
A qualidade dos alimentos modifica a qualidade do microbioma.
E a qualidade do microbioma influencia a qualidade da expressão genética.
Estamos apenas começando a compreender a profundidade dessa relação.
Mas uma coisa já parece clara: a saúde humana não depende apenas do que alimenta nossas células.
Depende também do que alimenta os microrganismos que vivem dentro de nós.
O envelhecimento começa muito antes das rugas
Quando pensamos em envelhecimento, geralmente imaginamos cabelos brancos, flacidez ou rugas.
Mas o envelhecimento verdadeiro acontece muito antes de se tornar visível.
Ele começa dentro das células.
A inflamação crônica induzida por dietas ricas em ultraprocessados acelera processos associados ao desgaste biológico. Aumenta o estresse oxidativo, prejudica a função mitocondrial e favorece danos cumulativos ao longo do tempo.
A pele costuma ser uma das primeiras estruturas a refletir esse cenário.
Perda de luminosidade.
Alteração da barreira cutânea.
Maior propensão à acne inflamatória.
Recuperação mais lenta.
Piora de doenças dermatológicas crônicas.
Mas a pele não é a única afetada.
O mesmo ambiente inflamatório influencia vasos sanguíneos, cérebro, músculos e sistema imunológico.
Por isso, nenhuma estratégia de longevidade pode ignorar a alimentação.
Não importa quantos procedimentos estéticos existam.
Nenhum deles consegue competir com o impacto diário produzido por décadas de escolhas alimentares.
A medicina do futuro provavelmente falará menos sobre combater o envelhecimento e mais sobre evitar os fatores que o aceleram.
E os ultraprocessados estão entre os principais candidatos dessa lista.
O que deixaremos para as próximas gerações
Talvez a descoberta mais fascinante da epigenética seja que seus efeitos podem ultrapassar uma única vida.
Pesquisas sugerem que experiências ambientais podem influenciar padrões biológicos transmitidos aos descendentes.
Isso não significa que uma pessoa herdará diretamente uma doença porque seus pais consumiram determinado alimento.
A realidade é mais complexa.
Mas evidências crescentes indicam que certas marcas epigenéticas podem atravessar gerações, influenciando respostas metabólicas, susceptibilidade inflamatória e risco de algumas doenças.
Se essas descobertas continuarem se confirmando, estaremos diante de uma mudança profunda de perspectiva.
A alimentação deixa de ser uma decisão exclusivamente individual.
Ela passa a representar uma escolha com potencial impacto biológico coletivo.
Aquilo que comemos hoje não influencia apenas nossos exames laboratoriais do próximo ano.
Pode influenciar o ambiente biológico no qual filhos e netos desenvolverão sua própria saúde.
É uma ideia poderosa.
E também um convite à reflexão.
Talvez a pergunta mais importante não seja quantos anos viveremos.
Talvez seja que tipo de legado biológico estamos construindo todos os dias, refeição após refeição.
Porque os ultraprocessados não estão apenas ocupando espaço nas prateleiras.
Eles estão participando silenciosamente da conversa entre ambiente e genética.
E essa conversa pode ecoar muito mais longe do que imaginamos.
*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

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