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As goiabas da mamãe

Escrito por Daniel Medeiros | 1 de junho de 2026

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Goiabas que carregam mais do que frutos: carregam a memória de uma vida inteira dedicada a cuidar, construir e fazer florescer quem estava ao redor - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DANIEL MEDEIROS*

Mamãe tem oitenta e oito anos. Sua saúde tem deteriorado bastante desde que a degeneração macular levou quase toda a sua visão. Mamãe cozinhava, fazia tricô, costurava, lia as revistas semanais que eu levava para ela, assistia televisão e adorava anotar as receitas da Ana Maria Braga. Hoje não pode fazer nada disso e toda a vez que vou lá ela reclama da vida, do frio, da escuridão, do medo de cair, de não poder fazer mais nada, dos excessos de cuidado do meu pai, da solidão pela ausência dos netos, do medo de sair de casa e da inadequação de estar nos lugares e não reconhecer mais ninguém.

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Minha mãe teve uma infância difícil e começou a trabalhar com nove anos de idade. Foi manicure, cabeleireira, costureira, o que desse pra fazer e para ganhar um dinheiro para ajudar a família sem pai e com cinco irmãs. Jovem, já estava amadurecida para a vida. Casou-se com vinte e três anos e logo veio meu irmão e um pouco depois, eu. Papai era sargento e o salário era curto. Começaram a vida em uma casa de madeira, sem energia elétrica. Com as crianças, mamãe parou de trabalhar, mas fazia tudo em casa para evitar mais despesas. Na medida em que a vida foi se estabilizando um pouco ( na verdade, na medida em que o casal foi aprendendo a se equilibrar na corda bamba), mamãe voltou a fazer costuras e bolos para vender. Depois começou a fazer artesanato, bichinhos de espuma para enfeitar os quartos de crianças. Uma loja se interessou pelos produtos dela e quis contrata-la. mas meu pai achou que seria trabalho demais e ela desistiu, fechando a janela de oportunidade de uma possível independência financeira.

Minha mãe parou de estudar na terceira série do fundamental, mas sempre teve interesse por tudo. Perdi a conta das vezes nas quais discutimos temas do mundo, e ela, com opinião forte, sustentou suas posições com consistência e valentia. Sem ela eu não teria trilhado o caminho de estudos que tive a oportunidade de seguir. Mamãe repetiu comigo o que o governo Lula, durante seus mandatos, fez com tanta gente: não teve estudos mas viabilizou meus estudos, com determinação e paciência. E D’us sabe como sou grato por isso.

Atualmente, mamãe não tem mais um propósito claro para o seu dia a dia. Por isso, as dores, as frustrações, o temor das quedas, e a penumbra constante, constituem o menu principal das conversas . Quando vou lá, tento sempre puxar um assunto do passado dela e de meu pai e só aí, nesse passado de sacrifícios, mas também de realizações, ela encontra um lugar de relativo conforto e vejo seu rosto se suavizar. Mas quando o momento passa, mesmo que eu tente alonga-lo com novas perguntas, sua face volta a se anuviar , com o peso do presente dos dias longos e das noites mal dormidas.

Mamãe sempre se orgulhou do que fez, mesmo com muito pouco reconhecimento externo. Lembro-me da tristeza dela, quando eu ensinava meu pai a usar o Google, e pedi para ele escrever o nome dele para mostrar como funcionava o buscador e ele ficou encantado de ver algumas referências sobre sua longa passagem nas forças armadas. Aí meu pai quis experimentar com o nome de minha mãe e não tive como impedi-lo. Não havia nenhuma referência a ela. Minha mãe disse então: “pra essa máquina aí, eu não existo.”

Nas últimas visitas que fiz aos meus pais, mamãe me falou sobre as goiabas do quintal: "viu que lindas e enormes elas estão? Fui eu quem plantei essas goiabeiras.”

Para a minha surpresa e alegria, lá estava, de novo, o brilho nos olhos, a firmeza na voz. Minha mãe achara, em meio às limitações biológicas, um espaço a mais para registar na sua linda biografia. Ela deu vida àquela goiabeira, com suas mãos pequeninas, revirando a terra do quintal , plantando a muda, depois regando, podando, cuidando, sentindo a árvore expandir-se, buscando perseverar na sua existência e depois desabrochar, primeiro em flor, depois em grandes frutos arredondados de interior carnudo e delicioso.

Como a raiz que se depara com o solo rochoso e se retrai e começa a murchar, mas que vê, em meio ao chão áspero e pouco convidativo, uma pequena fissura por onde ainda expressar sua valsa de vida, mamãe, aos oitenta e oito anos, ostenta sorridente sua criação: sua goiabas, que levo em bacias para fazer suco para a minha família.

*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

foto de daniel medeiros, autor do artigo As goiabas da mamãe
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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