Escrito por Daniel Medeiros | 25 de maio de 2026
Moda também educa quando questiona padrões, amplia repertórios e desafia certezas em uma sociedade cada vez mais movida por julgamentos rápidos e verdades simplificadas - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS*
O Brasil tem exercido, nesses últimos anos, uma prática que parece longe de se esgotar: o ressentimento. Como já lembrava o semiólogo Umberto Eco, o ódio é um sentimento bastante democrático: você pode odiar muitos e vários, sem que o sentimento sofra qualquer tipo de desgaste. Durante a pandemia, foram os cientistas. De lá para cá, a gama de "odiados" foi sendo alargada, ao sabor das circunstâncias, incluindo não apenas as pessoas, mas também as marcas e os lugares, passando por filmes e propagandas, livros e músicas. O inferno é o limite.
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Ultimamente, na senda do ódio democrático, os professores têm sido alvo constante, ora por serem incompetentes — é só ver os índices das avaliações internacionais —, ora por serem muito perigosos — como doutrinadores ideológicos —, ora por serem incapazes de controlar as crianças, ora por serem muito permissivos, ora por não ensinarem "o que se deve", ora por ensinarem "o que não serve para nada". Em um debate na TV, um ator e dublê de coach de masculinidade afirmou, sem qualquer base de dados, que a escola deveria ensinar apenas português e matemática e que "o resto" deveria ficar a cargo das famílias. Sustentou essa posição mesmo depois de afirmar não saber se as famílias estão preparadas para cumprir essa tarefa. Ou seja: as crianças deveriam ficar privadas de qualquer conhecimento crítico-humanístico, mesmo que as famílias não tenham condições para suprir essa lacuna. E tudo isso "em defesa" dos valores. Quais valores?, pergunto eu: a santa ignorância, porta de entrada para o controle e a imposição da obediência?
Também recentemente, um empresário bilionário, conhecido por encarnar um personagem de si mesmo, vestido com as cores da nação, embora suas lojas vendam, predominantemente, objetos de origem chinesa, afirmou que as graduações das áreas de humanas não ensinam "nada que preste". Porque o que presta é arranjar um emprego de vendedor de bugigangas e viver sem horizontes, exceto a alegria momentânea de quitar um carnê e iniciar outro, para "curtir" no dia de folga espremido entre seis dias de trabalho sem invenção e sem descobertas.
Os professores entraram definitivamente na lista das espécies em extinção, seja pela péssima qualidade dos cursos de formação, seja pela baixa procura por esses cursos, seja pelas precárias condições de trabalho oferecidas, seja pelos salários aviltantes, que os obrigam a duplas ou triplas jornadas, mas, não bastasse tudo isso, pela desvalorização social a que estão sendo submetidos, como se fossem os vilões de uma história vazia de propósitos e de conteúdo. Pais raivosos, administração insensível, alunos alienados, ambiente cultural empobrecido, carga de trabalho desumana e, fechando o ciclo, reprovação diária de sua expertise, tendo de "concorrer" com os formadores de opinião baseados exclusivamente na própria opinião, mas seguidos por milhares, senão milhões de pessoas, tornando irrelevante o argumento balizado, a fonte legitimada, o conteúdo fruto da pesquisa e do estudo. Quem se importa? Se eu consigo reproduzir para mais gente, em maior velocidade e por mais tempo, o que eu digo é que traduz o que é. E os algoritmos repercutem exatamente o que melhor ajuda a gerar dinâmica nas redes sociais: o ódio. Logo, estúpidos de todo o mundo.
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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